The Swiss voice in the world since 1935

Protegidos nas montanhas: os mapas das fortificações da Suíça

Antigo mapa das fortificações de Saint-Maurice.
Trecho da folha 12 "St. Tannaire" do mapa das fortificações de Saint-Maurice, 1894. Collection cartographique de swisstopo, LT FK SMAU 12, 1894

De 1888 a 1952, o Serviço Topográfico elaborou cartas secretas em grande escala representando as zonas fortificadas suíças. Criados ao preço de grandes privações, esses mapas permanecem ainda hoje como testemunhos fascinantes de um universo montanhoso já desaparecido.

swissinfo.ch publica regularmente artigos provenientes do blog do Museu Nacional da SuíçaLink externo, dedicados a assuntos históricos. Esses artigos estão sempre disponíveis em alemão e, geralmente, também em francês e inglês.

Primeiro, a carta Dufour; depois, a carta Siegfried; e, por fim, o incontornável mapa nacional: essa progressão parece resumir bem a história das cartas topográficas oficiais do Estado federal suíço. Mas isso seria esquecer uma obra cartográfica notável. De fato, o Serviço Topográfico também produziu cartas das fortificações entre 1888 e 1952.

O conjunto das cartas das fortificações distingue-se, sob vários aspectos, dos outros tipos de cartas anteriormente mencionadas. Em primeiro lugar, essas cartas não cobrem a totalidade do território, concentrando-se apenas em zonas selecionadas. Em segundo lugar, a escala de 1:10.000 adotada é igualmente bastante superior à da carta Siegfried em uso na mesma época.

Por fim, o grande público não teve qualquer acesso às cartas das fortificações durante mais de um século. Com efeito, tais cartas permaneceram classificadas como confidenciais até 2009.

Para que serviam as cartas das fortificações?

Como o próprio nome e o seu caráter ultrassecreto sugerem, as cartas das fortificações constituíam um elemento da defesa nacional suíça. Estavam estreitamente ligados a uma série de obras de fortificação modernas, erguidas a partir de 1887 na região do São Gotardo e, desde 1892, no setor de Saint-Maurice, no Baixo Valais.

É verdade que já existia, naquela época, um grande número de fortificações que protegiam a fronteira nacional suíça e os principais passos alpinos; contudo, elas eram obsoletas e incapazes de resistir aos explosivos modernos, muito mais potentes.

Desenho de um antigo canhão de fortaleza suíça
Desenho de um canhão de fortaleza suíço de 12 centímetros, 1893._ Archives fédérales suisses

As fortificações no maciço do São Gotardo e nas proximidades de Saint-Maurice foram equipadas com peças de artilharia fixas. Em razão de seu grande alcance, impôs-se o chamado tiro indireto: os artilheiros não dispunham de uma linha de visão direta entre sua posição e o alvo situado a vários quilômetros de distância, visto que uma crista montanhosa se erguia entre a peça de artilharia e o alvo.

Tornavam-se então necessários cálculos elaborados para disparar um projétil com a máxima precisão. Tratava-se de combinar a trajetória do projétil com dados detalhados sobre a configuração do terreno.

Essas informações topográficas indispensáveis eram fornecidas pelos mapas das fortificações, no caso da artilharia de fortaleza suíça. Com sua escala de 1:10.000, impressionante para a época, eles constituíam um produto cartográfico de ponta – a carta Siegfried, então disponível ao público, cobria as zonas montanhosas apenas na escala de 1:50.000.

Transformadas em cartas de tiro

As cartas das fortificações, por si só, não eram suficientes para atender às necessidades da artilharia de fortaleza. Serviam antes como base para o verdadeiro produto destinado aos usuários: as cartas de tiro, que eram feitas pelo escritório de mapas de tiro do Departamento Militar, situado em Thun.

Em 1935, essa tarefa foi transferida para o Serviço Topográfico. Uma carta de tiro separada era elaborada para cada canhão, cada projétil e cada carga explosiva. Ela fornecia aos artilheiros as informações detalhadas necessárias para o manejo do canhão.

Como destacou o topógrafo Hugo Sturzenegger em 1950, as cartas de tiro representavam “um dos meios mais valiosos de aumentar a potência de fogo de uma fortificação. O equipamento completo equivale apenas a alguns milésimos dos custos de construção de uma obra [fortificada]”.

Mapa de tiro de artilharia
Mapa de tiro para um obusier de 12 cm do forte Stöckli no setor do São Gotardo, por volta de 1915. A localização do obusier, assinalada com uma cruz vermelha, encontra-se no centro da representação; a zona abrangida pelo fogo é indicada por linhas vermelhas. Archives fédérales suisses

Um trabalho sobre-humano na montanha

Eram necessárias importantes campanhas de medição antes que uma folha do mapa das fortificações estivesse pronta para impressão e pudesse ser transformada em mapa de tiro. O trabalho de campo na região do São Gotardo começou já em 1889.

Em 1892, os primeiros topógrafos, munidos de sua prancheta e de sua alidade, chegaram à região de Saint-Maurice. Durante as duas décadas seguintes, a atenção concentrou-se exclusivamente nessas duas regiões estratégicas. Em seguida, no início da década de 1910, uma terceira zona fortificada foi cartografada em Monte Ceneri.

Devido às quedas de neve e ao frio, o período durante o qual era possível realizar trabalhos de medição em alta montanha era muito restrito. Frequentemente, os topógrafos só podiam iniciar os trabalhos em fins de junho e eram obrigados a interrompê-los prematuramente no outono, com as primeiras nevascas.

Durante esses meses na alta montanha, os engenheiros e seus assistentes passavam a noite em refúgios alpinos ou em tendas, dormiam sobre sacos de palha e viviam “muito mais parcamente” do que seus colegas, segundo Ernst Leupin, o topógrafo-chefe do Serviço Topográfico.

Acampamento de topógrafos na montanha.
Um engenheiro e os seus assistentes acampam nos Alpes do Valais, em 1915. Collection photographique swisstopo, 000-392-466

Os fotogramas, uma invenção revolucionária

O recurso a uma nova tecnologia durante a Primeira Guerra Mundial trouxe mudanças importantes ao duro dia a dia profissional dos topógrafos especializados em fortificações. Em vez de percorrer os Alpes para realizar levantamentos com prancheta, as equipes de medição passaram a aplicar, a partir de 1915, métodos fotográficos.

A partir de um dos lados do vale, criavam pares de fotogramas das encostas rochosas opostas; essas imagens estereoscópicas reproduziam o terreno em três dimensões. Graças ao método fotográfico, os topógrafos puderam aproveitar melhor a curta estação de trabalho em campo, visto que podiam realizar grande parte da análise no escritório, e não mais diretamente no local.

Fotograma terrestre de um vale
Fotograma terrestre do vale de Urseren com Andermatt (ao centro, à direita), 20 de setembro de 1915. Collection photographique swisstopo 000-164-605

Expansão em meio às guerras

A iminência do perigo, no contexto da Primeira Guerra Mundial, bem como o novo método fotográfico, levou a um aumento significativo das áreas cobertas pelos mapas das fortificações. Nas três regiões fortificadas – São Gotardo, Saint-Maurice e Monte Ceneri – trabalhou-se arduamente na produção dessas cartas confidenciais.

Mas, como Hugo Sturzenegger lamentaria mais tarde, a “célebre pausa decretada por Marshall, em razão das consequências financeiras da guerra e da ilusão derrotista de uma ‘paz eterna’”, impôs-se ao final do conflito. Os fotogramas produzidos durante a guerra foram analisados nos anos 1920 e convertidos em cartas das fortificações. Contudo, num primeiro momento, não houve expansão da cartografia.

Foi preciso aguardar a Segunda Guerra Mundial para que se iniciasse um novo processo de expansão das cartas das fortificações. Oito novas zonas fortificadas vieram somar-se aos setores já cartografados havia décadas, situados no São Gotardo, nas proximidades de Saint-Maurice e em Monte Ceneri.

Todas elas se situavam na zona fronteiriça do país e tinham por finalidade fornecer o conhecimento espacial necessário às fortificações de fronteira ali erguidas. As fotografias aéreas e os planos gerais do cadastro imobiliário permitiram a enorme expansão da cobertura espacial das cartas das fortificações após a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Esses planos apresentavam, igualmente, grande escala (1:5.000 ou 1:10.000) e podiam ser rapidamente convertidos em cartas das fortificações.

Mapas das fortificações suíças em 1943
Em 1943, as fortificações ocupavam 7,5 % da superfície da Suíça. Collection cartographique swisstopo, FK 0 UEB, 1943

Quando canhões e mapas entram numa corrida contra o tempo

Apesar da impressionante expansão das regiões cartografadas, a produção das cartas das fortificações e das cartas de tiro esbarrou em sérias dificuldades na primeira metade do século XX. Com efeito, a diversidade dos tipos de projéteis aumentou consideravelmente durante a Primeira Guerra Mundial.

Além disso, a carga explosiva com a qual um projétil era lançado também passou a variar cada vez mais. Tornava-se, assim, necessário elaborar um mapa de tiro específico para cada tipo de canhão, levando em conta cada quantidade de carga e cada tipo de projétil. Consequentemente, o “número de mapas de tiro necessários aumentou de maneira exponencial”, como relatou Hugo Sturzenegger em 1950.

No caso extremo do São Gotardo, onde estavam instalados muitos canhões de fortaleza, um comandante precisava levar consigo até 70 cartas de tiro, o que correspondia a um peso total de 25 kg. Devido a essa profusão de cartas e mapas, “podia-se pôr em dúvida a real utilidade militar desse sistema em tempo de guerra”, observou Hugo Sturzenegger.

Pastas de mapas de artilharia
Um mapa separado para cada canhão, cada carga e cada projétil: capa de um mapa de tiro do Forte Stöckli na região do São Gotardo. Archives fédérales suisses

Se é verdade que o escritório de cartas de tiro de Thoune concebeu, no início da década de 1930, cartas de tiro simplificadas – permitindo reduzir o volume de cartas -, outro desafio complicava o uso desses mapas militares confidenciais: as peças de artilharia nas zonas fortificadas eram modernizadas em intervalos regulares e substituídas por novos modelos com maior alcance.

Diante da ampliação do alcance dos canhões, as cartas das fortificações precisavam representar áreas cada vez mais extensas – acompanhar a evolução da artilharia na escala de 1:10.000 tornou-se uma tarefa titânica. Assim, o diretor do Serviço Topográfico, Karl Schneider, queixava-se, em 1940, de que, enquanto três novos fortins com torres blindadas estavam “prontos para disparar” no setor do São Gotardo, “faltavam as bases cartográficas para explorar essas peças de artilharia mais potentes”.

Fim da produção e legado

A produção das cartas topográficas das fortificações suíças chegou ao fim em 1952, o que não se deveu apenas aos desafios já mencionados. Outras bases cartográficas em grande escala, como o plano geral do cadastro imobiliário, já representavam amplas partes do país nessa época, e o novo mapa nacional da Suíça, de altíssima precisão, permitia igualmente “abrir fogo, em qualquer terreno, apenas com base em cálculos”, como constatou o coronel Ludwig Sallenbach em 1957.

Na década de 1950, as cartas das fortificações tornaram-se inúteis para aplicações de artilharia. Contudo, esses mapas em grande escala permanecem, ainda hoje, uma valiosa fonte de informação, revelando o passado das regiões montanhosas. Eles registram minuciosamente geleiras e áreas florestais, o traçado de cursos d’água, vias de comunicação e fornecem numerosos outros dados espaciais que convidam à pesquisa e à descoberta.

Adaptação: Karleno Bocarro

As primeiras edições das folhas da carta das fortificações, dedicadas ao São Gotardo, estão disponíveis gratuitamente, em alta resolução, no Wikimedia CommonsLink externo.

Felix Frey tralha como especialista em história no Depto. Federal de Topografia (swisstopo).

Link para o artigo original publicado no blog do Museu Nacional SuíçoLink externo

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR