“O Brasil não pode derrotar o Brasil”
A afirmação é do presidente da Fifa, Joseph Blatter, durante coletiva à imprensa segunda-feira (29) em Zurique. Portanto não há suspense: a Copa de 2014 será no Brasil.
Mas a candidatura única do Brasil desagradou Blatter e provocou uma mudança no regulamento da Fifa: a partir de 2018, todas as associações nacionais poderão ser candidatas. A decisão foi tomada segunda-feira pelo Comitê Executivo.
A candidatura única do Brasil à Copa de 2014 já provocou vítimas. Reunido segunda-feira, em Zurique, o Comitê Executivo da Fifa decidiu mudar o regulamento na atribuição de sua principal competição, desde sempre em fora de rotação: a partir de 2018, todas as associações nacionais membros da Fifa poderão se candidatar.
Respondendo a uma pergunta de swissinfo, o presidente da Fifa, Joseph Blatter confirmou que a mudança do regulamento foi motivada pela candidatura única do Brasil.
Mudança do regulamento
“O Brasil é o país que mais ganhou Copas do Mundo, tem um futebol fantástico admirado em todo o mundo, tem uma candidatura bem construída e todas as garantias mas faltou uma coisa: competição e futebol é competição”, afirmou Blatter, acrescentando que “pessoalmente, isso o incomodava”.
Ao precisar que África e América do Sul não poderão ser candidatos em 2018, Blatter cometeu um lapso afirmando que a interdição é porque a África organizará a Copa de 2010 e a América do Sul a de 2014. Para 2018, Blatter citou o interesse já manifestado pela China, Inglaterra e uma candidatura-conjunta da Holanda e da Bélgica.
Questionado por outro repórter se a decisão não impedirá, na prática, que pequenos países acolham um dia a competição, o presidente da Fifa afirmou que “a Copa do Mundo tornou-se muito complexa para pequenos países”. Estes terão a oportunidade de sediar outras competições da Fifa como das seleções inferiores e as de futebol feminino, entre outras.
Blatter falou ainda do problema do preço dos ingressos na Copa de 2014. Disse que, a exemplo do que ocorrerá na África do Sul em 2010, também haverá um grande número de ingressos mais baratos no Brasil.
Relatório positivo
A decisão do Comitê Executivo, terça-feira, será tomada com base no relatório de inspeção feito depois da visita de uma comissão da Fifa ao Brasil, em agosto. Em uma semana, essa comissão visitou cinco cidades: Brasília, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. No Rio, assistiram às apresentações de outras 13 cidades, candidatas a sediar jogos em 2014.
As observações são muito elogiosas e a conclusão é que o Brasil “tem grandes possibilidades para organizar uma excepcional Copa do Mundo, em 2014”.
Apesar da certeza da escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014 , uma forte delegação brasileira está em Zurique. Além de Dunga, Romário e Paulo Coelho, anteriormente anunciados, nada menos do que 12 governadores de estado e o próprio presidente Luís Inácio Lula da Silva participarão da cerimônia na sede da Fifa em que será anunciada a decisão do Comitê Executivo, terça-feira, em Zurique.
É o caso de se questionar se, além da capitalização política de um tal anúncio, alguma outra razão justifica que tanta gente “calce as chuteiras” à custa do erário público.
Ricardo Teixeira, presidente da CBF, do comitê de candidatura e membro do Comitê Executivo da Fifa, disse que a presença dos governadores, autoridades e do presidente Lula demonstra a “seriedade da candidatura e que Copa será de todos os brasileiros”.
CPI não atrapalha
Por enquanto, todos tentam manter o suspense falando de “torcida para o Brasil levar”, como disse o ministro de Esportes, Orlando Silva, em conversa com jornalistas segunda-feira, em frente à Fifa.
Antes da conclusão da “torcida” o ministro falou dos benefícios que a escolha da Copa trarão para o Brasil em termos de modernização dos estádios, da infra-estrutura, de empregos de imagem difundida no mundo inteiro.
Paulo Coelho não disse outra coisa, segunda-feira, na Fifa. Questionado por swissinfo se, habituado a criar e manter suspense como escritor, ainda havia algum suspense quanto à decisão do Comitê Executivo ele respondeu: “Acho que fizemos um bom trabalho no comitê de candidatura mas eu não falo em vitória antes do jogo acabar”.
Questionado se a formação de uma eventual CPI do caso das contas e negócios opacos do Corínthians poderia atrapalhar a candidatura do Brasil, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, respondeu que “o caso realmente é grave mas não tem nada a ver com a Copa do Mundo, até porque as pessoas não irão deixar de jogar futebol no Brasil por causa disso”.
Para a organização da Copa, “o Brasil não pode derrotar o Brasil”, concluiu Blatter.
swissinfo, Claudinê Gonçalves, Zurique
03 de agosto de 2000 – Comitê Executivo da Fifa aprova o princípio da rotação da Copa do Mundo.
5 de agosto de 2000 – Essa decisão é ratificada pelo 52° Congresso da Fifa, em Zurique.
15 de março de 2001 – Comitê Executivo decide começar a rotação pela África.
7 de julho de 2001 – Decisão ratificada pelo congresso da Fifa em Buenos Aires.
6 de março de 2003 – Comissão de Estudos Estratégicos da Fifa aprova o pedido da Commenbol de organizar a Copa do Mundo de 2014 na América do Sul.
7 de março de 2003 – Comitê Executivo da Fifa decide atribuir a organização da Copa de 2014 à América do Sul.
22 de dezembro de 2006 – Comitê Executivo da Fifa confirma o interesse da Colômbia e do Brasil pela organização da Copa de 2014.
1° de fevereiro de 2007 – Fifa envia protocolo de acordo para a Copa de 2014 aos países interessados.
16 de abril de 2007 – Prazo da Fifa para que as associações interessadas submetam um acodo de candidatura.
31 de julho de 2007 – Prazo para que os países confirmem o interesse submentendo à Fifa o acordo e garantias concretas dos governos.
23 de agosto a 1° de setembro – visita de inspeção ao Brasil.
30 de outubro de 2007 – Apresentação final da associação candidata (CBF) na sede da Fifa e decisão do país organizador da Copa de 2014.
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