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Suíça nos Jogos Medievais de Verona

Lutadores suíços nos jogos medievais em Verona. swissinfo.ch

A Suíça virou nome de praça em Verona, norte da Itália e substituiu, temporariamente, o velho endereço, piazza Signori, durante o Festival Internacional dos Jogos de Rua.

A Suíça foi a nação convidada especial da festa deste ano. E não decepcionou ao trazer jogos e lutas antigas que atravessaram os séculos e chegaram aos dias de hoje.

Do pouco conhecido Platzgen à instituição “nacional”, a luta de Schwingen, passando pelo “lotto suíço”, indo do “quille à mont” e do “steinstoss” ao petanque-entre outros-, as normais brincadeiras de ruas, nos campos e nos pátios internos foram repetidas diante de um público variado, em sexo e faixa etária.

Crianças, jovens, adultos e idosos se divertiram como antigamente, tocando os jogos como quase não é mais possível fazer neste mundo lúdico cada vez mais virtual por conta dos video-games.

Mais de cinquenta jogos e lutas do passado foram distribuídos nas praças e prédios localizados no centro histórico. A conservação urbana da cidade de Romeu e Julieta contribuiu para o público fazer uma viagem no tempo. A cada esquina encontrava-se uma modalidade de jogo diferente.

Jogos ancestrais

Alguns deles, muitas vezes, remete aos dias de hoje, transformando-se numa espécie de versão atual de jogos “modernos”. O caso da “petanque” é um exemplo. Ele atravessou os Alpes vindo da região francesa da Provença. Na “viagem” o jogo sofreu uma pequena modificação. O jogador passou a lançar a pequena esfera de metal com os dois pés apoiados no chão, ao invés de um só. E vendo de perto, se poderia dizer que a “petanque” é o ancestral da bocha.

Os jogos, em vias de extinção, preservaram-se, em boa parte, graças ao isolamento geográfico de determinadas regiões aonde eram praticados. Isso sem falar da popularidade que alcançou dando-lhes a expectativa de uma vida mais longa.

Até hoje, alguns jogos e lutas são praticados nos locais de origem. A luta Schwigen é um dos exemplos. Mesmo difundida em todo o território, ela é reconhecida como um valor tradicional da região de Appenzel.

De vale em vale, a luta vai sofrendo algumas modificações. Na verdade, tratam-se de variações do mesmo tema. O nascimento da Ranggeln é um exemplo. De origem austríaca, ela ganha identidade suíça em meados do século 15. E se a Schwigen permite ao lutador apenas agarrar o adversário com as mãos nos calções de lona, na Ranggeln, como luta livre de origem greco-romana, vale tudo, menos golpes baixos como o estrangulamento.

Os gladiadores e os mercenários suíços praticavam a Ranggeln como treinamento e, principalmente, como passatempo entre um combate e outro. Assim se mantinham em forma. Naquela época, as lutas de conquista de território eram verdadeiras batalhas de corpo a corpo. Essas duas modalidades refletem os movimentos e gestos de uma época. E o objetivo é comum. Fazer com que o inimigo,no caso, o adversário, toque o chão com os dois ombros.

Integração

O jogo, além de ajudar a socialização dos participantes, serve também de memória lúdica de uma comunidade. O “ hornussen” e o “lançamento de pedra de Unspunnen” são dois exemplos. Ambos não puderam ser trazidos para Verona porque exigem um amplo espaço para a prática. Ainda hoje, como ao redor do ano de 1600, o primeiro é o carro-chefe no Oberland de Berna.

Para compensar a ausência, os organizadores trouxeram filmes que demonstram este jogo entre dois times, cada um com 18 integrantes, como constava das anotações encontradas em 1625, em Lauperswill, cantão de Berna.

Durante o século 19 ele ganharia muitos adeptos em Emmental e Entlebuch. Já o segundo, com uma pedra de 80 quilos de peso lançada o mais longe possível, teve o primeiro encontro documentado em 1805, em Unspunnen.

Bem mais leve é o Platzgen. Um disco estrelado de prata ou chumbo pesando pouco mais de dois quilos deve ser lançado junto a uma haste fincada num círculo de areia. A pontuação é dada a partir da distância entre o local da “aterrissagem” e a haste, em centímetros, abatendo do máximo de cem pontos o número de centímetros entre o disco e o alvo, na caixa de areia. Neste caso, a mira é mais importante do que a distância percorrida pela disco.

Memória

A diversão é simples e o intercâmbio cultural está garantida. O jogo tradicional, qualquer que seja ela, para ser considerado como tal, deve respeitar algumas prerrogativas básica impostas pelo regulamento da Associação dos Jogos Antigos: possuir raízes profunda em um determinado território; ter a maestria do artesanato no caso da elaboração da peças; dar prioridade ao momento lúdico em detrimento daquele esportivo de competição; ser uma atividade em risco de extinção; ter a participação dos jogadores ,quase que total, na criação de uma comunidade; conter no jogo elementos que permitam a vivência do mesmo como o uso de todos os sentidos capazes de elaborar dados complexos, decantar as mensagens típicas e interpretar a história.

O acelerado desenvolvimento urbano das cidades europeias nas últimas décadas restringe o espaço público usado pelas crianças e pelos jovens. Mil e uma regras de conduta acabam cerciando a criatividade e, por consequência, as atividades lúdicas fora de casa. Resultado: os jogos eletrônicos avançam a uma velocidade grande, substituindo a integração real pela interação virtual, quando um deveria complementar o outro.

“Não falta fantasia, é preciso combater pela cultura. Antes tínhamos espaço nos prédios, hoje, não mais. Se acede uma televisão, coloca dentro uma fita e “arrivederci”, é triste, temos que evitar este comportamento”, diz para swissinfo, Gaetano Bellucci, membro da Associação Olympus integrante da rede de intercâmbio europeu de jogos esculturais de madeira.

E no caminho, a memória do contato físico e o suor do esforço em correr, lançar, jogar, enfim, brincar, correm o risco de se perder para sempre num tempo cada vez mais reduzido.

Não por acaso, uma exposição do Museu Suíço do Jogo, de Vevey, foi montada durante o Tocatí. Ela serve de alerta para as futuras gerações que poderão ver de perto o ciclo de vida dos jogos que marcaram a infância de seus bisavós e avós e que hoje são peças de arqueologia lúdica.

O Tocatí reuniu cerca de 300 mil visitantes em três dias.

O evento contou ainda com laboratórios didáticos para crianças e adultos espalhados pela cidade.

Dez palestras sobre a interseção entre cultura e jogo, pintura e musica, narração literária, foram realizadas durante o Festival.

Uma delas levou o pianista e pesquisador de música italiano Guido Salvetti a questionar o jogo como um processo abstrato sob a ótica do artista suíço Paul Klee, “representado” por Eva Wiederkehr, assistente científica da Fundação Paul Klee de Berna, que ilustrou as atividades da instituição.

O jornalista Andrea Fazioli, da RSI, apresentou o tema do jogo da escritura, da construção de uma trama de romance à realidade da Suíça. Peter Rytz, presidente da Eidegenoessischer Hornuessen Verband e Pierino Daudry, pesquisador de jogos tradicionais contaram as origens do Hornussen e do Tsan.

O manual do lutador de Schwingen possui cem movimentos e golpes diferentes explicados no detalhe. Todos os participantes recebem prêmios que não podem ser em dinheiro.

Nas lutas suíças, a camaradagem entre os adversários vem em primeiro lugar.

A Petanque tem 63 clubes na Suíça. O Platzgen possui cerca de 400 praticantes em todo o país.

No século XIX, a luta suíça era considerada útil na educação das crianças.

Além dos jogos e lutas, diferentes grupos de folclore do país animaram os visitantes

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