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Genebra perde atratividade para jovens do setor humanitário

Uma avenida com bandeiras de diferentes países
A ONU está sob pressão. Os estudantes também estão a sentir os efeitos desta situação. Markus Seidel

O status de Genebra como capital do multilateralismo está em xeque. Cortes orçamentários em agências da ONU têm reduzido drasticamente as oportunidades para estudantes internacionais, especialmente de fora da União Europeia, que viam na cidade uma porta de entrada para o setor humanitário.

Ao longo do último ano, as instituições das Nações Unidas em Genebra eliminaram 3.300 postos de trabalho, à medida que passam por processos de reestruturação e enfrentam cortes por parte de seus principais contribuintes.

No outono deste ano, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) informou que estava considerando uma transferência permanente de sua sede. No mesmo mês, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) anunciou que a maior parte de sua força de trabalho se mudaria para Roma. “Algumas organizações internacionais tiveram de dispensar um terço de seu pessoal”, afirma Frédéric Ballenegger, da Missão Permanente da Suíça junto à ONU.

Esses cortes afetam principalmente diplomadas e diplomados de países fora da União Europeia, uma vez que não podem permanecer na Suíça sem uma autorização de trabalho.

Para muitos deles, as instituições da ONU eram o único mercado de trabalho ao qual tinham acesso. Sua principal motivação para estudar em Genebra era a perspectiva de uma carreira dentro do sistema das Nações Unidas.

Muitas instituições de ensino em Genebra atendem a essa demanda. Entre elas estão o Instituto Universitário de Altos Estudos InternacionaisLink externo, a Universidade de Genebra, o Instituto Internacional, a Escola de Diplomacia de Genebra e a Academia de Genebra.

Todas oferecem cursos em relações internacionais, advocacia, diplomacia, direito internacional e direitos humanos ou ajuda humanitária.

No Instituto Internacional de Genebra, que oferece, entre outros, cursos de bacharelado em relações internacionais e comunicação, estudantes de fora da UE representam entre 30% e 40% do corpo discente, segundo o presidente Eric Willumsen.

Para eles, “fora do sistema da ONU praticamente não há oportunidades de trabalho em Genebra”, afirma. De acordo com a legislação suíça, empregadores privados precisam primeiro comprovar que não conseguiram contratar um profissional da Suíça ou da UE, um procedimento que a maioria dos empregadores evita.

Para Julia Paranhos, psicóloga e consultora do centro de carreiras da Universidade de Genebra, os impactos dos cortes orçamentários da ONU são perceptíveis nas conversas diárias com estudantes.

Ela relata um aumento da ansiedade, a redução das oportunidades de entrada no mercado, e casos de graduadas e graduados de fora da UE que não recebem respostas ou ofertas.

Números por trás da luta

Os dados de Adrien Guillod, estatístico da Universidade de Genebra (UNIGE), mostram o tamanho da distância entre expectativa e realidade mesmo antes dos cortes orçamentários. No primeiro semestre de 2025, a universidade contava com 3.211 estudantes de países terceiros, o que correspondia a 17,7% do total de estudantes.

Segundo pesquisas realizadas por ele entre 2018 e 2024, 83% das graduadas e graduados de mestrado não pertencentes à UE da UNIGE desejavam permanecer em Genebra após a conclusão dos estudos.

Um ano depois, porém, esse número caía para apenas 26,8%, sem contar estudantes com autorização de residência de longa duração e aqueles que permaneceram como doutorandos ou pós-doutorandos.

Um estudo nacional de 2019 da associação empresarial Economiesuisse foi ainda mais conservador, e estimou que apenas 15% dos estudantes de países terceiros permanecem na Suíça após a graduação.

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Outra pesquisa recente mostrou que graduadas e graduados de universidades suíças são valorizados no mercado de trabalho mundial.

A UNIGE está entre as 250 melhores universidades em termos de empregabilidade de seus egressos. No entanto, a Suíça ainda enfrenta dificuldades para reter uma grande parte daqueles que desejam permanecer e trabalhar no país.

As regulamentações suíças, que priorizam cidadãs e cidadãos suíços e da UE/EFTA no mercado de trabalho, dificultam consideravelmente que graduadas e graduados de fora da UE encontrem um emprego dentro do prazo habitual de seis meses em que podem permanecer no país após a conclusão dos estudos.

Países vizinhos como Alemanha, França, Bélgica, Espanha, Áustria ou Países Baixos oferecem atualmente autorizações de residência especiais, que permitem uma permanência de 12 a 24 meses. Isso lhes dá tempo para procurar trabalho ou fundar uma empresa.

Estudantes posam num salão com um enorme quadro na parede
83% dos diplomados de mestrado da Universidade de Genebra que não pertencem à UE pretendem ficar em Genebra depois de concluírem os seus estudos. CC4.0 UN Photo/Adrian Manivarma Vasu Veluppillai

Se casar para ter o visto

Matt, que prefere não divulgar o sobrenome, é formado pelo Graduate Institute de Genebra, especializado em assuntos internacionais e desenvolvimento.

Dois anos após a graduação, ele ainda procura um emprego na área de ajuda humanitária em Genebra. “Desde os cortes orçamentários da ONU no ano passado, há muitos candidatos, mas pouquíssimas vagas”, afirma.

Durante seu estágio de seis meses na ONU, ele recebeu 1.000 francos por mês, em uma cidade onde o salário mínimo legal é de 4.200 francos.

Após vários contratos de consultoria de curto prazo com a ONU, Matt não conseguiu encontrar uma vaga em Genebra. Muitos de seus amigos de países fora da UE deixaram o país gradualmente, diz ele.

No fim das contas, Matt só conseguiu permanecer na Suíça porque se casou com sua companheira, uma cidadã da UE que vive em Genebra. “Fizemos isso discretamente, apenas para que eu pudesse ficar”, conta. “Se você não é europeu, só pode ficar aqui se casar com alguém”, diz Jessica, uma estudante mexicana de direito internacional que também prefere não divulgar o sobrenome.

Ela afirma que o sistema é estruturalmente desfavorável a estudantes de fora da Europa: “Se sua família não pode te sustentar, é impossível permanecer. Quem consegue, em geral vem de contextos privilegiados.”

Seu estágio na ONU foi remunerado com 1.200 francos, valor insuficiente para viver. Após seu contrato de consultoria não ter sido renovado devido aos cortes orçamentários, ela foi obrigada a deixar a Suíça.

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Estágios e atividades não remuneradas

Grégory Pasche, coordenador das atividades de profissionalização da Academia de Genebra de Direito Internacional Humanitário e Direitos Humanos, observa que os estudantes estão “definitivamente mais preocupados do que antes.”

Muitos prorrogam sua autorização de residência após a formatura e passam a depender de um mosaico de estágios ou do programa de voluntariado da ONU, que oferece apenas um subsídio limitado para subsistência. “As realidades financeiras da vida em Genebra entram em jogo”, diz Pasche. “Muitos acabam tendo que voltar para casa.”

Apesar das turbulências, Willumsen, do Instituto Internacional de Genebra, está confiante de que os estágios continuarão a levar a empregos iniciais. Nesse sentido, o instituto construiu parcerias com entidades da ONU para encaminhar estudantes a estágios.

Para estudantes de países fora da UE, que teriam dificuldades ainda maiores para encontrar emprego em outros lugares, esses estágios agora estão em risco.

Pasche, no entanto, alerta que estágios raramente levam a uma contratação na ONU. “No sistema da ONU, estágios não contam como experiência profissional”, afirma.

Isso significa que graduadas e graduados frequentemente precisam deixar Genebra para adquirir a experiência profissional necessária em outro lugar. Só então retornam com um perfil adequado para uma possível contratação.

Essa também é a opinião de Matt: “Genebra não é um lugar para iniciar uma carreira”, diz ele. “Nunca foi fácil encontrar um primeiro emprego aqui, mas agora está se tornando quase impossível.”

O britânico pretende deixar Genebra e procurar oportunidades em outros lugares, na esperança de um dia retornar e se estabelecer na cidade.

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Edição: Virginie Mangin/gw

Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

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