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A invenção da Suíça saxã

Gravura de Adrian Zingg
Gravura de Adrian Zingg datada de 1770. Esta paisagem poderia muito bem estar localizada na Suíça. Musée national suisse

O artista suíço Adrian Zingg encontrou na Saxônia montanhas e paredões rochosos que lhe lembravam sua pátria. Ele os desenhou e os tornou célebres, conferindo à região um nome que ela conserva até hoje: a "Suíça Saxã".

Sabe-se hoje o quanto a arte está intimamente ligada ao desenvolvimento do turismo nos Alpes a partir do fim do século 18. A descoberta literária e filosófica dos Alpes serviu de pano de fundo cultural e histórico. O florescimento do turismo seguiu-se rapidamente. Escritores e filósofos como Salomon Gessner, Jean-Jacques RousseauLink externo ou Immanuel Kant exaltaram essa impressionante paisagem montanhosa.

Swissinfo republica regularmente artigos do blog do Museu NacionalLink externo dedicados à história da Suíça, disponíveis em alemão, francês e inglês.

Os Alpes tornaram-se um símbolo do “sublime” e do “originário”, o que permitiu cultivar uma nova relação com a natureza, compensando a perda de um vínculo direto e rural provocada pelos efeitos da industrialização e da urbanização.

Desenho representando Jean-Jacques Rousseau
Jean-Jacques Rousseau via nos Alpes um lugar nostálgico e um refúgio de natureza preservada. Musée national suisse

Essa percepção emocional da natureza inspirou a produção artística, e as pinturas de paisagem tornaram-se um gênero muito apreciado. Desenhos e gravuras coloridas em madeira ou em cobre constituíam alternativas mais acessíveis, sobretudo para fins de estudo. Essas obras eram coloridas à mão com aquarelas, a fim de embelezar impressões frequentemente esquemáticas. Assim nasceu o modelo comercial dos ateliês de coloristas suíços, que dominaram o mercado em forte crescimento das reproduções coloridas até o século 19, quando foram substituídos pelos fotógrafos, cujas representações eram mais realistas.

Fundado em 1750, o ateliê de colorista do bernês Johann Ludwig Aberli gozava de grande renome e de excelente rentabilidade. Aberli havia, de fato, desenvolvido uma técnica particularmente eficaz para colorir, a baixo custo, desenhos a traço, inclusive por empregados menos experientes e até por crianças ou pessoas com algum tipo de deficiência. Os meios artísticos logo passaram a falar do “método Aberli”. Do ponto de vista técnico, trata-se de uma forma primitiva dos atuais livros de colorir para crianças.

Desenho representando um atelier de coloristas
As oficinas de coloristas produziam imagens a cores a um preço acessível. Ilustração de Gabriel Lory, 1784. Kunstmuseum Bern

Adrian Zingg, natural de St. Gallen, foi um dos aprendizes de Aberli antes de se tornar aluno do ainda mais célebre gravador alemão Johann Georg Wille, em Paris. Foi também em Paris que Zingg pôde aproveitar seus conhecimentos e sua experiência com as mais recentes tendências na representação de paisagens suíças para fins comerciais. Ele rapidamente se impôs no prestigiado meio artístico local.

Quando a nova Academia de Belas-Artes da Saxônia, fundada em Dresden em 1764, passou a procurar um professor de gravura em cobre, o primeiro a quem se recorreu foi Wille. Este, contudo, mostrou pouco entusiasmo com a ideia de deixar Paris e propôs, em seu lugar, seu melhor aluno, Adrian Zingg.

Zingg também se fez de rogado num primeiro momento. Ele já desfrutava certo sucesso em Paris como gravador em cobre, ao passo que o eleitorado da Saxônia já não era um destino de primeira linha, mesmo para um jovem artista como ele. Enfraquecida e fortemente endividada após a derrota na Guerra dos Sete Anos (1756–1763), essa corte já não possuía o prestígio de outrora. A criação dessa academia em Dresden por Christian Ludwig von Hagedorn inseria-se sobretudo num contexto econômico e político: esperava-se que a promoção da arte e dos ofícios artísticos injetasse nesse Estado um impulso econômico de que ele tanto necessitava. Caberia, portanto, à “economia criativa” endireitar o rumo.

Zingg acabou aceitando a oferta em 1766, após negociar um salário satisfatório. No caminho para Dresden, fez uma parada na Suíça para visitar os pais. Ali, durante caminhadas pelas montanhas, enriqueceu sua coleção de esboços, provavelmente esperando poder desenvolvê-los mais tarde em Dresden.

Representação da paisagem do Wildstrubel por Adrian Zingg
Representação da paisagem do Wildstrubel por Adrian Zingg, realizada na década de 1760. Musée national suisse

As coisas, porém, não correram como previsto. Zingg ficou inicialmente chocado com o espetáculo de Dresden em ruínas. Pouco restava da “Florença do Elba”, como Johann Gottfried Herder a chamaria pela primeira vez em 1802. O quadro que representa a Igreja da Santa Cruz em ruínas, pintado pelo veneziano Bernardo Bellotto (conhecido como Canaletto), oferece uma visão impressionante dos estragos causados pela Guerra dos Sete Anos, travada em todo o continente.

Quadro representando a destruição de Dresden no século XVIII
Bellotto representou a destruição de Dresden num quadro de 1765. Wikimédia / Kunsthaus Zürich

A história da carreira de Bernardo Bellotto em Dresden ilustra a situação precária dos meios artísticos locais e a dura realidade da vida dos artistas naquela época. Bellotto foi pintor oficial da corte de Dresden de 1747 a 1758. A partir de 1764, pouco antes da chegada de Zingg, ele se viu reduzido a ensinar perspectiva na nova Academia de Belas-Artes, com um salário menor. Bellotto decidiu então juntar-se à corte do czar em São Petersburgo, mas acabou permanecendo em Varsóvia.

Um dos pontos altos dos anos de Adrian Zingg em Dresden foi a amizade que ele travou com um de seus compatriotas, Anton GraffLink externo, de Winterthur. Retratista de renome, Graff foi contratado em 1766, no mesmo período que Zingg, como pintor da corte, com a incumbência de lecionar na Academia de Belas-Artes.

Graff fez o retrato de Zingg em 1796. Essa impressionante pintura o representa em plena atividade, segurando numa das mãos uma pasta de desenho. Zingg parece observar a paisagem e cobre os olhos com a outra mão, que segura a pena. Ainda assim, é difícil imaginá-lo percorrendo os caminhos vestido com um traje de cortesão e usando peruca. Graff evidencia sobretudo o status social do amigo.

Retrato de Adrian Zingg
Retrato de Adrian Zingg, pintado em 1796 por Anton Graff. Wikimédia / Kunstmuseum St. Gallen

Zingg continuou a desenvolver a sua própria arte paisagística, em vez de fazer o que dele se esperava, isto é, produzir gravuras em cobre a partir de telas das célebres coleções de arte da Galeria de Dresden, a fim de aumentar sua notoriedade. Sozinho ou na companhia de Graff, ele aproveitava qualquer oportunidade para se afastar de Dresden, que considerava deprimente.

Ao longo de inúmeras caminhadas, Zingg registrou sistematicamente em seus cadernos o pitoresco vale do Elba, com seus castelos e suas surpreendentes formações rochosas. Esses cadernos serviram de base para gravuras ou desenhos mais detalhados realizados posteriormente. Algumas composições lembram as de contemporâneos de Zingg, como as representações de grutas de Caspar Wolf.

Quadro de uma paisagem com vacas e seus pastores
Zingg presta homenagem ao seu país natal em “O estábulo na Suíça saxã”, realizado em 1786. Wikipédia / Albertina, Vienne

Ao representar essas paisagens, Zingg revelou toda a beleza da região. Em sua correspondência, Zingg e Graff usaram, além disso, pela primeira vez a expressão “Suíça saxã” para designar essa pitoresca paisagem que lhes lembrava o Jura. Na Saxônia, ela também era chamada, entre outros nomes, de “planalto superior de Meissner”.

O maciço de arenito do Elba (do ponto de vista geológico, sedimentos erodidos pelo Elba) despertava em Zingg um forte sentimento de apego à sua terra natal, que se revelou particularmente produtivo. Ele simplesmente aplicou à região de Dresden os métodos artísticos da Suíça que até então lhe haviam trazido sucesso. Organizou seu ateliê segundo o modelo do de Aberli, em Berna. Seus alunos, que ele levava regularmente em excursões, inspiravam-se em seus esboços. Primeiro, deviam colori-los, copiá-los ou recombiná-los para transformá-los em paisagens ideais, como Zingg costumava fazer.

Em Dresden, Zingg reconectou-se com suas raízes, em vez de produzir reproduções como fazia em Paris. Voltou-se cada vez mais para a miniatura, uma técnica há muito estabelecida que colocava a ênfase no estudo da natureza e, em particular, na representação detalhada de partes específicas das plantas.

Com fins pedagógicos, ele elaborou ainda modelos modulares de representação da natureza e das paisagens, que permitiam desenhar árvores e arbustos de modo realista e eficiente, ao mesmo tempo em que otimizavam a técnica. Publicou esses modelos em três manuais, entre os quais Anfangsgründe für Landschaftszeichner (“Noções elementares para desenhistas de paisagens”).

Modelo para aprender a desenhar
Os trabalhos de Adrian Zingg ajudavam os seus alunos a desenhar de forma mais realista. Wikimédia / Metropolitan Museum of Art

Ele também aperfeiçoou o método comercial de Aberli, mandando colorir à mão — e com muito mais cuidado — os desenhos lineares reproduzidos sob a forma de gravuras, o que lhes conferia a vivacidade dos originais.

Afilhado crítico

Adrian Zingg, contudo, não gozava de admiração unânime. Seus melhores alunos criticavam suas técnicas e artifícios artísticos, que se haviam tornado hábitos rígidos, perceptíveis sobretudo em sua predileção por árvores e arbustos em primeiro plano. Ludwig Richter, seu afilhado, zombava particularmente de seu “padrinho empoado” e de suas fórmulas estereotipadas no tratamento da folhagem e das árvores.

Os pintores do Romantismo exploraram novas fórmulas para representar paisagens, mais afinadas com o espírito sentimental da época. Entre seus ingredientes sugestivos figuravam os pores do sol, o luar, caminhantes solitários, casais enamorados, bem como condições meteorológicas particulares, como a névoa ou a neve.

Desenho do século XVIII mostrando um rebanho de vacas
A forma como Adrian Zingg representava as árvores era controversa. Alguns dos seus contemporâneos consideravam-na rígida e estereotipada. Musée national suisse

O mérito artístico de Zingg, contudo, permanece incontestável. Já em 1769, ele foi nomeado membro correspondente da Academia de Belas-Artes de Viena. A Academia Prussiana de Artes de Berlim fez o mesmo em 1787. Em 1803, tornou-se finalmente professor ordinário da Academia de Belas-Artes de Dresden. Quando faleceu, em 1816, em Leipzig, o coro da igreja de São Tomás prestou-lhe homenagem cantando diante de seu túmulo.

Zingg deixou uma obra gráfica considerável, conservada sobretudo nas grandes coleções gráficas de Dresden. Embora os originais sejam raramente expostos,entre outras razões, por motivos de conservação, suas realizações estão acessíveis a todos nas coleções on-lineLink externo dos museus de Dresden. Zingg é considerado, segundo os critérios atuais, um “pequeno mestreLink externo“, o que se explica por seu estilo e por seu suporte de predileção, mas também por seu repertório limitado. Seu gênero artístico acabou sendo vítima do surgimento da fotografia.

A expressão “Suíça saxãLink externo“, criada por Adrian Zingg e Anton Graff nos anos de 1770 para designar sua produção artística, foi popularizada no início do século 19pelo teólogo Wilhelm Leberecht Götzinger. Publicada em 1804, sua obra Schandau und seine Umgebungen oder Beschreibung der sogenannten Sächsischen Schweiz (“Schandau e seus arredores, ou descrição da chamada Suíça saxã”) aborda a natureza, a história e a topografia da região sob a forma de um guia turístico particularmente detalhado.

Nele, ele defende com fervor o uso e a manutenção da referência à Suíça, o que não agradou a todos. Sua obra, contudo, difundiu-se de modo inexorável, e a expressão “Suíça saxã” foi-se impondo cada vez mais. Houve, porém, uma breve interrupção: Adolf Hitler e os nazistas consideraram inadequado associar a Suíça a uma paisagem alemã e suprimiram esse nome por decreto.

Tratou-se de um incidente isolado. Hoje em dia, a região também é chamada, nos folhetos turísticos, de “Suíça boêmia e saxã” e constitui um destino bastante procurado, inclusive por turistas suíços. Adrian Zingg não é estranho a isso.

Capa do livro de Wilhelm Leberecht Götzinger publicado em 1804
O livro de Wilhelm Leberecht Götzinger, publicado em 1804, marcou o início do uso da expressão “Suíça saxã”. Deutsche Nationalbibliothek

Barbara Basting foi editora cultural. Atualmente, dirige o setor de Artes Plásticas do Departamento de Cultura da cidade de Zurique.

Link para o artigo original publicado no blog do Museu Nacional SuíçoLink externo

Adaptação: Karleno Bocarro

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