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Novo diretor quer tornar Cinemateca Suíça mais visível

Vinzenz Hediger, o novo diretor do Arquivo Cinematográfico Suíço, no centro de pesquisa e arquivo em Penthaz, perto de Lausanne. Ele assumiu o cargo em novembro passado.
Vinzenz Hediger, o novo diretor do Arquivo Cinematográfico Suíço. Keystone / Jean-Christophe Bott

O historiador Vinzenz Hediger assumiu a direção da Cinemateca Suíça para preservar o patrimônio cinematográfico do país e ampliar o acesso ao acervo. A instituição abriga a sexta maior coleção de filmes do mundo.

Poucas horas após a abertura da Berlinale (o Festival Internacional de Cinema de Berlim) deste ano, eclodiu um escândalo que quase derrubou a diretora artística do evento. Na coletiva de imprensa que marcou o início do festival, o cineasta alemão Wim Wenders e a produtora Ewa Puszczyńska ignoraram uma pergunta sobre o cerco de Israel a Gaza. E Wenders declarou que os cineastas “precisam se manter fora da política”.

A repercussão negativa explodiu quando a vencedora do Prêmio Booker, Arundhati Roy, roteirista e protagonista do filme indiano para a TV In Which Annie Gives It Those OnesLink externo, desistiu, em sinal de protesto, de apresentá-lo no festival, tendo descrito as declarações envolvendo o festival como “de cair o queixo”. A aparição inesperada e o boicote repentino de Arundhati Roy transformaram o filme, há muito esquecido, em um dos eventos mais comentados da Berlinale, provando que a história do cinema está bem viva – e é capaz de contra-atacar.

Trabalho meticuloso

A Cinemateca Suíça confiou agora sua direção ao estudioso de cinema e ex-crítico Vinzenz Hediger, que chegou a Lausanne no início do ano. Para além do trabalho individual dos arquivistas, são pessoas como Hediger que devem decidir o que entra no barco salva-vidas quando tantos projetos necessitados aguardam para serem resgatados.

Em Berlim, em meio ao alvoroço causado pelas controvérsias que marcaram a abertura da Berlinale, a Swissinfo conversou com o novo diretor sobre as demandas na nova função.

“Essa é uma questão fundamental”, diz Hediger. “A história oculta de todos os arquivos é a história de recusas e de dizer não às coisas… Os recursos são limitados, o espaço é limitado e, por isso, é preciso dizer não a muitas coisas”, completa.

Instituições como a Cinemateca Suíça têm por meta reunir materiais de todo o mundo, provenientes de coleções particulares e outras fontes, e assegurar a preservação desses objetos físicos. A seguir, é preciso catalogar esses materiais, digitalizá-los, higienizá-los e, após um extenso processo de restauração, produzir versões digitais ou em celuloide de excelente qualidade, para que o público, que merece vê-los, possa fazê-lo.

Fachada de uma casa
As primeiras instalações da Cinemateca Suíça em Lausanne (1951). Collection Cinémathèque Suisse, Tous Droits Réservés
... e a investigação de ponta
E hoje. as novas instalações. sda-ats

Do tabloide à hitória do cinema

A trajetória de Hediger até chegar à direção de uma das principais instituições cinematográficas da Europa teve início nas páginas de cultura do maior tabloide da Suíça. Nos anos 1990, ele pagou seus estudos na Universidade de Zurique escrevendo críticas de filmes para o Blick, na época em que o jornal começava a investir em uma editoria de cultura.

“Foi lá que aprendi a escrever”, diz Hediger. “Qualquer pretensão intelectual que você leve para esse trabalho vai fazer com que você seja demitido no dia seguinte. Os leitores do Blick não são estúpidos. São pessoas trabalhadoras, que têm muito pouco tempo, normalmente muito pouco dinheiro, e, assim como todo mundo, eles têm o direito de saber o que está acontecendo no cinema”.

Assistir a dez filmes por semana e escrever várias resenhas curtas serviu de ensinamento para Hediger no sentido de saber reduzir as ideias à essência. Hediger lembra que o trabalho o obrigou a adaptar sua linguagem para um público de trabalhadores, sem qualquer ar de superioridade – uma conduta que até hoje determina como ele pensa o próprio trabalho.

Vinzenz Hediger cresceu na Suíça na década de 1970, em “um dos grandes momentos do cinema suíço”. Ele recorda quando os pais o levavam para assistir tanto ao filme A guerra dos dálmatasLink externo (1961), da Disney, quanto a Pequenas fugas (1979), de Yves Yersin. “Eu não fazia distinção entre eles”, diz.

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Esse respeito profundamente enraizado pelo cinema torna sua tarefa atual mais fácil. O principal financiador da Cinemateca é agora o governo federal suíço – significando que se trata de uma instituição verdadeiramente nacional, com todas as responsabilidades daí decorrentes. Parte de sua missão, diz Hediger, é tornar a Cinemateca “muito, muito visível, não apenas em Lausanne, mas em toda a Suíça”. Isso deve acontecer por meio de uma rede de salas parceiras de cinema, colaborações com canais de TV, formatos digitais e uma cooperação estreita com festivais em todas as regiões da Suíça, independentemente do idioma falado em cada uma delas.

Próximas atrações

Além dos trailers, Hediger também editou vários livros que lançam luz sobre temas relegados pela história do cinema estabelecida. Neste caso, Hediger e Patrick Vonderau concentram-se na história dos filmes industriais — filmes produzidos pelo governo e patrocinados pela indústria que buscavam atingir os objetivos dos seus patrocinadores, em vez dos artistas criativos envolvidos.
Além dos trailers, Hediger também editou vários livros que lançam luz sobre temas relegados pela história do cinema estabelecida. Reproduction

“A história convencional do cinema suíço está focada no cinema de autor”, explica Hediger. “Mas, se você estiver interessado na continuidade da produção na Suíça, um país que, na verdade, nunca teve uma indústria cinematográfica, é preciso analisar os filmes comissionados e os filmes corporativos”.

Foi aí que começou sua relação profissional com a própria Cinemateca Suíça, como pesquisador de pós-doutorado. Em Lausanne, Hediger descobriu que o acervo da Cinemateca era vasto e vinha sendo há muito ignorado.

Esse interesse se estendeu para outra forma de arte efêmera: os trailers de filmes. Hediger conta que teve a ideia de pesquisar trailers quando percebeu que “ninguém jamais havia escrito um livro sobre o assunto”. Essa pesquisa o levou a pesquisar em arquivos de toda a Europa e dos Estados Unidos, em uma época na qual nenhum desses materiais estava disponível online e cada trailer precisava ser cuidadosamente examinado em película ou fita.

“Sempre que eu chegava em um arquivo, o arquivista dizia invariavelmente: ‘Esse é um ótimo tema, mas não temos nada’”, relembra Hediger entre risos. “E isso nunca era verdade. Eu tive que criar um inventário completo de termos de pesquisa para vasculhar os arquivos, além de pistas biográficas e outras coisas, que me levassem a descobrir correspondências e documentos internos”, completa. A partir daí, ele conseguiu “reconstituir a história dos trailers”.

Arquivo de nível internacional

Hediger tem um entusiasmo fervoroso pelo potencial da Cinemateca, pois acredita que muita gente na Suíça não compreende a dimensão excepcional dessa instituição nacional.

“Esta é a sexta maior coleção de filmes do mundo”, observa ele. “Ela chegou a esse tamanho e tem essa importância, porque a Suíça teve e continua tendo, considerando o tamanho do país, uma cultura cinematográfica incrivelmente rica”.

Além de abrigar uma coleção de importantes filmes suíços, o acervo funciona como uma crônica do que foi exibido no país ao longo das décadas, graças a uma prática que determinava que as distribuidoras depositassem cópias dos filmes em Lausanne.

“Eles descartavam as cópias de distribuição excedentes e ficavam com as de boa qualidade”, relata Hediger. Os rolos de filme projetáveis resultantes, geralmente cópias da versão original com legendas em alemão e francês, são muito procurados por festivais e outras instituições, que alugam esse material para incluir em suas programações.

Hediger afirma que, quando a Cinemateca foi temporariamente fechada e teve o empréstimo de cópias limitado, há alguns anos, isso causou um pequeno terremoto na rede internacional de distribuição de filmes clássicos, já que muitos festivais se acostumaram a recorrer a Lausanne para obter esse tipo de material cinematográfico. Ou seja, a Cinemateca é “mais uma instituição de patrimônio mundial do que apenas um arquivo regional ou nacional”.

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O que entra no bote salva-vidas

Algumas coleções importantes podem chegar à instituição por acaso, como foi o caso do arquivo pessoal do diretor francês Claude Autant-Lara. Ele sempre se sentiu subvalorizado na França e, por isso, estabeleceu-se em Lausanne, também por motivos fiscais. Em retaliação a essa suposta indiferença por parte de seus colegas, doou seus materiais e documentos à Cinemateca de Lausanne, em vez de deixá-la para uma das muitas do seu país natal.

Ainda assim, o romantismo da história do cinema deve ser constantemente ponderado quando se pensa em limitações de orçamento, prioridades e recursos. O financiamento federal da Cinemateca foi congelado por dois anos, o que, na prática, significa um corte orçamentário de 2% a 4% em termos reais.

A Cinémathèque é «mais uma instituição patrimonial mundial do que um simples arquivo regional ou nacional».
“A Cinametaca Suíça é mais uma instituição do património mundial do que um simples arquivo regional ou nacional” Keystone / Jean-Christophe Bott

A pandemia de Covid deu às pessoas tempo para esvaziar seus sótãos, o que levou a um boom de redescobertas. Nos anos que se seguiram, a Cinemateca foi inundada com filmes amadores e coleções particulares. Um projeto em andamento, diz Hediger, diz respeito a um acervo de bobinas de 9,5 mm da Pathé Baby, filmadas por um homem do cantão de Vaud, que fez “filmes realmente excelentes sobre a paisagem local e sobre sua vizinhança”.

“São filmes maravilhosos, e vamos exibi-los no cinema”, diz Hediger, com seu apreço por esses fragmentos esquecidos da história do cinema. “Isso é cinema local: ir assistir a um filme, para ver como a própria cidade era 50 anos atrás. É emocionante”, conclui.

Esse quebra-cabeça da história do cinema pode ter parecido, em algum momento, totalmente irrelevante – e, para muita gente, talvez ainda pareça. Mas o que pode causar impacto em um determinado momento da história do cinema é algo imprevisível. Os arquivos só podem garantir uma apresentação impecável e uma acessibilidade justa. Fora isso, mesmo aquilo que antes parecia marginal pode, quando apresentado em um novo contexto a um novo público, mover montanhas.

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Edição: Eduardo Simantob/ts

Adaptação: Soraia Vilela

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