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Novo presidente suíço quer novas parcerias, mas considera EUA “indispensáveis”

Guy Parmelin inicia hoje a sua segunda Presidência da Confederação
Na sua segunda presidência, Guy Parmelin pretende conciliar a atividade económica com a política. Vera Leysinger / SWI swissinfo.ch

Eleito com votação histórica, o ministro Guy Parmelin inicia seu segundo mandato como presidente da Confederação Suíça defendendo pragmatismo e a diversificação das alianças da Suíça, em meio a negociações delicadas com Estados Unidos e União Europeia e a pressões políticas internas.

Swissinfo: O senhor foi eleito presidente da Confederação pela segunda vez com 203 votos dos 210 válidos, o melhor resultado das últimas quatro décadas. Qual é o segredo de sua popularidade?

Guy Parmelin: Costumo dizer que essa pergunta deve ser feita aos parlamentares que me elegeram. Mas, quando penso nisso, acredito que tenha a ver com a estrutura do meu ministério: ele abrange agricultura, educação, ciência, economia e os parceiros sociais. Isso me coloca em contato com praticamente todas as comissões do Parlamento. Portanto, muitos parlamentares me conhecem bem e sabem como eu trabalho.

Swissinfo: A mídia está dizendo que este será seu último ano no Conselho Federal (n.r.: o corpo de sete ministros que governa o país e forma o Poder Executivo). Sua eleição triunfante o incentivará a permanecer no cargo?

G.P.: Sempre disse que fui eleito para toda uma legislatura. É claro que podem surgir problemas de saúde; é preciso manter a modéstia. No entanto, enquanto eu tiver esse fogo na barriga e o desejo de trabalhar com minha equipe, continuarei.

Guy Parmelin
“Temos de alargar a nossa rede de parcerias, mas os Estados Unidos continuam a ser um parceiro indispensável para a Suíça. Vera Leysinger / SWI swissinfo.ch

Swissinfo: Seu primeiro ano como presidente, em 2021, foi marcado pela crise da Covid-19. Que lições o senhor aprendeu com esse ano particularmente intenso que poderá aplicar em seu segundo mandato?

G.P.: A pandemia de Covid-19 foi totalmente imprevisível. Aprendi, portanto, que é preciso estar preparado para tudo. Costumo dizer que esta é minha quinta crise: depois da crise pandêmica, houve a guerra na Ucrânia e seu impacto no fornecimento de energia, a crise do banco Credit Suisse e, agora, as tarifas alfandegárias impostas pelos EUA. A melhor coisa que poderia acontecer, para a Suíça e para o mundo, seria a estabilização da economia global, para que nossas empresas tenham as melhores condições possíveis para exportar.

Swissinfo: Nas negociações para chegar a um acordo alfandegário com os Estados Unidos, vimos uma colaboração muito próxima entre as empresas e o governo. Isso é um sinal de fraqueza da diplomacia suíça?

G.P.: Não, creio que não. Neste país, às vezes esquecemos que os setores público e privado precisam trabalhar juntos. A economia gera as receitas que financiam nossos sistemas de seguro social e educação. Precisamos conciliar a economia com a política e com as autoridades públicas. Se a economia funcionar bem, o governo federal, os cantões (estados) e as comunas (municípios) poderão cumprir suas tarefas. É uma situação em que todos ganham. Mas quero ser muito claro: é o governo federal que negocia, e não o setor privado.

Swissinfo: No momento, há apenas uma declaração de intenções não vinculante, o que significa que ainda é possível cancelá-la. O senhor não está preocupado com a possibilidade de o presidente Donald Trump mudar de ideia?

G.P.: Na política, nunca se pode ter certeza de nada. Mas, quando a Suíça assume um compromisso, ela cumpre sua palavra. Queremos transformar essa declaração em um acordo juridicamente vinculante, e os Estados Unidos também querem isso. Comprometi-me com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, a agir rapidamente: preparar uma minuta de mandato e consultar os comitês e os cantões. Isso foi feito, e estamos prontos para negociar com os americanos com base nesse mandato. O investimento privado virá em seguida; a indústria farmacêutica já confirmou isso. Em outros países, muitas promessas foram feitas, mas os americanos estão constatando que os resultados não apareceram.

Guy Parmelin
“Depois da pandemia, houve a guerra na Ucrânia, depois a crise do Credit Suisse e agora as tarifas dos EUA. Esta é a minha quinta crise. Vera Leysinger / SWI swissinfo.ch

Swissinfo: A imprensa comparou o acordo firmado pelos Estados Unidos com nove empresas farmacêuticas ao fim do sigilo bancário, argumentando que a Suíça fez grandes concessões sob pressão americana. O senhor compartilha desse ponto de vista?

G.P.: Não. Trata-se de uma situação diferente. Esse acordo foi concluído pelo setor privado e envolve oito países, não apenas a Suíça. De nossa parte, criamos um grupo de trabalho para definir uma estratégia de fortalecimento da indústria farmacêutica suíça. Se quisermos manter parte dessa indústria aqui, precisamos melhorar as condições estruturais. As empresas buscam se aproximar de seus mercados — Estados Unidos, China e, talvez amanhã, Índia. Não podemos ir contra essa tendência, mas podemos manter a pesquisa e alguns empregos no país. A discussão se concentrará na criação de um ambiente favorável para atrair investimentos em inovação e, ao mesmo tempo, evitar a disparada dos custos da saúde.

Swissinfo: A Suíça fez muitas concessões aos americanos. No entanto, quando se trata de negociações com a União Europeia, ela é mais cautelosa. Essa postura é justificada, considerando que a UE é nosso maior parceiro comercial?

G.P.: Não creio que tenhamos feito mais concessões. A Suíça negocia sempre em defesa de seus interesses. Temos três grandes parceiros: a União Europeia, os Estados Unidos e a China. Eles se complementam, mas também precisamos diversificar. Essa é a grande lição da crise do multilateralismo: multiplicar nossas parcerias. É por isso que temos acordos de livre comércio, por exemplo, com a Índia. Mas os Estados Unidos são essenciais e não podem ser ignorados. Não temos escolha: precisamos defender nossos interesses.

Swissinfo: Durante sua primeira presidência, o senhor recebeu a tarefa de enterrar o acordo-quadro com Bruxelas. Em 2026, terá de ir a Bruxelas para assinar o novo pacote de acordos com a União Europeia, contrariando a orientação do seu partido. Como enfrentará esse desafio?

G.P.: A situação é clara: o Conselho Federal toma as decisões; os partidos têm um papel diferente. Em 2021, apresentei a posição do governo em Bruxelas, explicando que o acordo-quadro não era suficientemente bom para a Suíça. Desta vez, acreditamos que o novo pacote de acordos é equilibrado e pode ser assinado. Caberá a mim transmitir essa mensagem em nome do governo. O processo parlamentar e o voto popular virão em seguida.

Guy Parmelin
“Podemos ser lentos a tomar decisões, mas no momento crítico, sabemos como agir rápida e eficazmente”. Vera Leysinger / SWI swissinfo.ch

Swissinfo: O que acontecerá se esses acordos forem rejeitados pela população?

G.P.: Não posso prever. Se os eleitores rejeitarem os acordos, teremos de observar como a União Europeia reagirá a uma rejeição popular que não seria nem do Parlamento nem do Conselho Federal.

Swissinfo: A iniciativa (n.r.: projeto de reforma constitucional levado a plebiscito após o recolhimento do número suficiente de assinaturas de eleitores) do seu partido, intitulada “Uma Suíça com menos de 10 milhões de habitantes”, corre o risco de torpedear os novos acordos. O senhor terá de lutar contra ela, o que também o colocará em desacordo com seu partido. O senhor teme esse momento?

G.P.: Temos nossos debates internos e, depois, tomamos uma decisão. Nesse caso, o Conselho Federal decidiu que essa iniciativa representa grandes riscos para a economia. Portanto, vamos combatê-la e explicar esses riscos ao público. Se for aceita, teremos de implementá-la, mas não faço ficção política.

Swissinfo: A imigração é um dos principais motores da economia suíça. Que nível de imigração o senhor considera sustentável para o país?

G.P.: Não se pode formular a questão dessa maneira. O que preocupa o público é o aumento contínuo, com infraestruturas cada vez mais caras e saturadas. Mas a Suíça sempre teve uma política de imigração baseada nas necessidades da economia, e isso continuará. Alguns limites serão atingidos? O público certamente percebe isso. Trata-se de uma questão extremamente complexa. O que está claro é que essa iniciativa traria grandes riscos para nossa economia e nosso bem-estar.

Swissinfo: A política mundial está se acelerando. A Suíça, por outro lado, acompanha esse ritmo mais lentamente. Isso é uma vantagem ou uma desvantagem?

G.P.: O federalismo garante proximidade com a população, e isso é fundamental. Mas ele torna os processos mais lentos, o que pode significar perda de tempo diante da concorrência. Por outro lado, essa lentidão nos permite observar os outros e evitar seus erros.

Swissinfo: Quando se trata de concluir acordos de livre comércio, é preciso ser rápido. A Suíça não está atrasada nessa área?

G.P.: Conseguimos ser ágeis. Concluímos um acordo com a Índia antes da União Europeia e com o Mercosul logo depois. A verdadeira questão é a ratificação deste último. A Europa adiou a ratificação até janeiro, mas, assim que assinar, aplicará o acordo de forma provisória. Isso colocará nossas empresas em uma desvantagem de 30% a 35% nas exportações para a América do Sul. Portanto, é essencial agir rapidamente, mesmo que um referendo tenha sido convocado. Precisamos convencer o público de que isso é do interesse geral.

Swissinfo: O franco suíço é uma moeda supervalorizada. Como ministro da Economia, o senhor está satisfeito com isso?

G.P.: Felizmente, a política monetária é responsabilidade do banco central da Suíça (o Banco Nacional). A força do franco reflete a confiança internacional em nossa economia e em nossas instituições. Mas ela representa uma grande desvantagem para o setor exportador.

Guy Parmelin
“A agricultura é o nosso seguro, a base da nossa segurança alimentar: se as fronteiras fecharem, comeremos dia sim, dia não. Vera Leysinger / SWI swissinfo.ch

Swissinfo: Antes de ser eleito para o Conselho Federal e chegar ao cargo mais alto do país, o senhor era agricultor. O que resta dessa primeira profissão?

G.P.: Sem pretensão, acredito que compreendo os problemas do setor. Muitas vezes esquecemos que a agricultura é nossa apólice de seguro para a segurança alimentar: se as fronteiras se fecharem, só comeremos dia sim, dia não. Mas o setor está espremido entre a proteção da natureza, a necessidade de produzir e as contradições dos consumidores. Todos querem produtos saudáveis e de alta qualidade, mas não querem pagar o preço. E aqueles que desejam proteger o meio ambiente, às vezes, pegam o carro para comprar produtos mais baratos do outro lado da fronteira, em vez de caminhar até a loja do vilarejo.

Swissinfo: Como agricultor, o senhor via os resultados do seu trabalho todos os dias. Na Suíça, as coisas acontecem mais lentamente. Isso não o incomoda?

G.P.: Esse é o nosso sistema: ele é lento, mas funciona. E, em situações de emergência, sabemos agir rapidamente. Durante a pandemia, os sete ministros do Conselho Federal ativaram a lei de emergência e praticamente paralisaram a economia. Foi o momento mais difícil da minha carreira: sabíamos que isso causaria uma tragédia para muitas empresas. Mas, graças ao plano de ajuda financeira implementado na época, evitamos o pior. Assim que a ajuda foi anunciada, as empresas puderam receber os recursos imediatamente. Isso não ocorreu em outros países. A Suíça, às vezes, demora mais, mas ainda assim é eficaz.

Swissinfo: O senhor tem um tema principal para o ano presidencial?

G.P.: Não escolhi um lema. Já vi muitos colegas anunciarem um e depois terem de mudá-lo por causa de crises ou circunstâncias imprevistas. O que quero, acima de tudo, é conciliar a economia e a política. Explicar ao público que, embora o mundo tenha mudado, podemos confiar em nós mesmos: a Suíça reúne as condições certas. E, sobretudo, sair ao encontro das pessoas, ouvir suas preocupações e explicar o que estamos fazendo.

Swissinfo: Como o senhor presidirá as reuniões do Conselho Federal a partir do início de 2026? Como está se preparando para essa tarefa?

G.P.: A vantagem é que já tenho um ano de experiência na presidência das reuniões, adquirido em um contexto particularmente difícil por causa da Covid. Eram reuniões longas. Eu precisava telefonar para os colegas, às vezes até meia-noite, para me preparar. A pressão era enorme. Hoje, o sistema funciona melhor: as estatísticas que publicaremos mostram que respondemos a muito mais intervenções parlamentares, com menos horas de trabalho. Tornamo-nos mais eficientes, e espero que isso continue, mesmo que os desafios não faltem.

Biografia

Guy Parmelin é membro do Conselho Federal (n.r.: o corpo de sete ministros que governa o país e forma o Poder Executivo) desde 2015. Inicialmente, foi ministro da Defesa, antes de assumir a chefia do Ministério da Educação e Ciência, em 2019. Ele já presidiu a Confederação em 2021, em meio à pandemia de Covid-19.

Nascido em 1959 no vilarejo de Bursins (cantão de Vaud), Guy Parmelin vem de uma família de agricultores e viticultores. Após concluir um aprendizado como trabalhador agrícola, especializou-se em viticultura e assumiu os negócios da família. Foi eleito para o Conselho Nacional (Câmara dos Deputados) em 2003 como membro do Partido do Povo Suíço (SVP, na sigla em alemão). Internacionalmente, ganhou projeção ao sediar a cúpula Biden–Putin, em Genebra, em 2021.

Guy Parmelin é conhecido por seu estilo direto, marcado por humor e proximidade. O ministro suíço da Economia, que começa o dia às 5h30, leva uma vida familiar discreta, compartilhada com a esposa, sobrinhos e sobrinhas e o pai, de 90 anos.

Edição: Balz Rigendinger

Adaptação: Alexander Thoele

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