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Um olhar jornalístico suíço sobre a realidade brasileira

Jean-Jacques Fontaine trabalhando com um jovem jornalista. swissinfo.ch

Aposentadoria não é necessariamente sinônimo de inatividade ou de abandono da eficiência profissional. Um grande exemplo disso é o suíço Jean-Jacques Fontaine.

Após se aposentar na Suíça, realiza no Brasil um trabalho jornalístico – boletim eletrônico Vision Brésil – que vem conquistando através da internet um crescente número de leitores de língua francesa.

Fontaine é uma figura conhecida no jornalismo suíço. Na década de 1980, atuando como correspondente da Télevision Suisse Romande e da Radio Suisse Romande na América Latina, realizou diversas coberturas que levaram aos lares suíços importantes notícias sobre o histórico processo de reabertura democrática que então acontecia nos países latino-americanos.

“Permaneci no Brasil, onde morava, até que as mídias na Europa começaram a perceber que algo muito importante se passava no Leste Europeu ao mesmo tempo em que se estabilizavam as coisas na América do Sul. Tive que voltar para a Suíça, pois não tinha mais mercado por aqui”, brinca Fontaine.

A volta à terra natal foi bastante proveitosa profissionalmente para o suíço. Pelos vinte anos seguintes, Fontaine ocupou cargos de chefia na TSR e continuou a fazer reportagens para telejornais e programas como o conceituado Temps Présent, entre outros. Após se aposentar, no início de 2007, ele e a mulher decidiram voltar a viver no Brasil.

Favela na internet

Aquilo que para muitos seria sinônimo de férias permanentes, para Fontaine foi motivo de reafirmar seu compromisso com o jornalismo. Após realizar no Rio de Janeiro a cobertura da ocupação do conjunto de favelas conhecido como Complexo do Alemão por policiais militares, o suíço travou contato com a ONG Viva Rio e com o trabalho dos moradores de favelas que praticavam alguma forma de jornalismo e divulgavam seu trabalho em um site na internet chamado Viva Favela.

A admiração do suíço foi imediata: “Achei o trabalho deles muito interessante e apresentei a proposta de fazer uma adaptação francesa do site. Eles concordaram e essa parceria durou até outubro de 2008. Durante um ano e meio eu traduzi ou adaptei em francês uma parte do trabalho deles”, conta. A parceria rendeu um site que trazia matérias em francês sobre as favelas cariocas e foi o embrião do Vision Brésil, o boletim eletrônico de jornalismo mantido atualmente por Fontaine na internet e também voltado ao público de língua francesa.

Maior abrangência

Matéria-prima para o boletim é o que não falta no Brasil: “Como eu sempre li muitos jornais e tive muitas informações sobre o Brasil, decidi escrever sobre isso e fazer um blog, e logo percebi que isso interessava a algumas pessoas. Decidi então fazer um blog com conteúdo e periodicidade jornalística. Ele não se renova a todo momento, na verdade é um blog mensal que tem dez edições por ano. Eu escrevo como se fosse uma revista mensal, sempre focalizando em temas como economia, meio ambiente e fatos sociais. Além de um pouco de política, é claro”, explica Fontaine.

O trabalho de produção do Vision Brésil é totalmente voluntário: “Não custa dinheiro, mas custa tempo, claro. Estou sempre lendo jornal, recortando, consultando internet, ouvindo rádio, etc, para depois fazer uma reinterpretação de tudo isso e uma reescritura. Para o site, faço poucas reportagens originais, a não ser quando aproveito alguma oportunidade de trabalho para a Suíça, como, por exemplo, o recente caso do tráfico de animais silvestres para a Europa – que eu cobri para um programa da TSR que se chama TPC e foi ao ar em maio – e também para o jornal La Liberté. O mesmo aconteceu com uma matéria sobre a venda de madeira ilegal, que fiz a partir de um inquérito iniciado pelo Fórum Social Mundial”.

Reinterpretação

O diferencial do trabalho de Jean-Jacques Fontaine é levar ao público de língua francesa de um modo geral – e ao público suíço em particular – o experiente olhar jornalístico de quem conhece o Brasil e seus problemas: “A maior parte do que eu escrevo é uma reinterpretação de tudo o que vejo aqui para o meu leitor, que é de alguma forma ligado ao Brasil. Eu tenho o olhar de jornalista europeu e sei que posso fazer uma seleção de assuntos que possa interessar mais ao meu público leitor do que, por exemplo, uma seleção feita por um brasileiro ou por um europeu que não conheça bem o Brasil”, diz.

O suíço se sente à vontade com o trabalho que realiza: “Eu tenho a pretensão de conhecer bastante o Brasil, depois de 25 anos de convivência, para sentir o que é importante e fazer esse trabalho de mediação da informação saindo daqui e indo pra lá, esse trabalho de reinterpretação. Não é um trabalho para o grande público porque o site ainda é quase confidencial (risos). Está crescendo, cada vez tem mais visitas no site e mais reações, mas ainda são poucas pessoas”.

O mais importante para o suíço é consolidar essa fonte de informações sobre o Brasil para o público europeu: “Começamos com 600 visitas e já estamos com 1.300, ou seja, mais do que dobrou. Ainda é pouco, mas não estou obcecado pelo número de visitas, estou mais interessado na reação das pessoas. Recentemente, por exemplo, fui procurado por uma estudante de São Paulo, de língua francesa, pedindo para colaborar com o site. Esse tipo de reação é para mim mais interessante do que o número de visitas. O site poderia dar um salto, é claro, desde que houvesse investimento, mas eu não tenho condições. Eu vivo da minha aposentadoria, e quero continuar fazendo jornalismo”.

Maurício Thuswohl, swissinfo, Rio de Janeiro

Assunto preferido pelos grandes veículos de mídia brasileiros no momento, a crise do Senado será tema do boletim eletrônico Vision Brésil, editado pelo jornalista suíço Jean-Jacques Fontaine: “Na próxima edição, que preparo para o final de agosto, vou falar um pouco sobre a crise política no Senado brasileiro, que é muito representativa da mudança da vida política aqui no Brasil”.

O último número do boletim, publicado em junho (em julho não há edição), é especial sobre a Amazônia: “Decidi falar sobre a Amazônia porque surgiram essas histórias da madeira ilegal, da Medida Provisória da Grilagem e do avanço da pecuária ao mesmo tempo. Por isso, achei bom fazer uma edição temática. Mas, normalmente não faço uma temática única, faço três matérias, uma por setor, além de pequenas matérias”, explica o suíço.

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