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Suíço luta contra educação violenta na África

Muitas crianças e escolares são punidas fisicamente nos Camarões.

Muitas crianças e escolares são punidas fisicamente nos Camarões.

Um educador suíço luta contra a prática de punir fisicamente crianças no Camarões, uma tradição que, segundo ele, banaliza a violência no país.

Com um psicólogo dos Camarões ele criou a organização Emida para sensibilizar pais e professores.

"Logo que cheguei em outubro de 1996 em Lolodorf, uma pequena cidade do sudoeste de Camarões, ouvia todas as manhãs uma criança gritar de dor enquanto era espancada. Isso me paralisava", lembra-se o suíço Gabriel Nicole. Depois um aluno lhe explicou que os pais batiam no garoto de seis anos porque ele urinava na cama.

"O que rapidamente me impressionou era a normalidade das punições físicas por motivos injustificados. Aqui as pessoas não batem com a mão, mas sempre utilizam um cabo elétrico ou um chicote", constata Nicole. Segundo ele, as pauladas, um hábito constante na África, conduzem à banalização da violência. Ele cita como exemplo as crianças-soldados "que não foram obrigadas a se alistar".

Anteriormente, o suíço havia trabalhado por inúmeros anos como professor em Vennes, próximo à Lausanne (cantão da Vaud, oeste). Ele organizava colônias de férias para crianças em situação familiar financeiramente difícil..

"Aos 45 anos eu decidi parar e ofereci meus serviços às missões da Igreja protestante da Suíça de expressão francesa. Eles me enviaram como consultor agrícola à Lolodorf", conta Nicole. Finalmente ele desembarca sózinho em Camarões, pois sua esposa não quis acompanhá-lo.

Pouco habituado à solidão, ele dispõe de tempo suficiente para refletir. Foi então que esse cristão engajado compreendeu que "estava lá para ajudar a resolver esse problema de educação."

Paraíso ao inferno

Durante seus dois anos em Lolodorf, foi testemunha dessa violência cotidiana, tanto na família como na escola. "Aqui as crianças passam do paraíso ao inferno". Inicialmente mimadas dentro de panos enrolados nas costas das suas mães, elas são rapidamente expulsas pelo filho seguinte. Ainda cedo em demasia para sua idade, esse menino ou menina terá deveres a cumprir, sob risco de levarem bastonadas. "Uma das primeiras consequências é a hipocrisia e a mentira, pois a criança fará de tudo para não apanhar de novo."

Ao final do seu contrato, M. Nicole parte para Yaoundé, a capital, onde iria apresentar seu projeto. Foi lá que encontrou o camaronês Claude Olivier Bagneken, diplomado em psicologia da infância. Juntos, os dois fundaram em 18 de março de 1999 a organização Emida, tendo como principal objetivo a educação na família.

Suas atividades comçam em 2000 graças ao apoio do UNICEF- Fundo das Nações Unidas para a Infância - que financia uma ampla "investigação sobre as violências nas famílias e nas escolas primárias dos Camarões". Os questionários enviados às crianças, pais e professores mostram a realidade: 90% das crianças sofrem punições físicas em casa e 97% na escola (com autorização dos pais).

A pesquisa do UNICEF conclui que a educação por bastonada bloqueia o desenvolvimento individual e forma personalidades passivas e submissas. Outra consequência é que as crianças integram a violência física como uma norma.

Origem das guerras na África

"Os pais são o primeiro modelo da criança, que procede por imitação", explica o psicólogo camaronês do Emida. Ele conhece casos de meninos e meninas que foram batidos até morrer. O resultado é que a criança integre a violência como norma, inclusive a morte. M. Bagneken está convencido que a violência e as guerras na África são uma consequência direta das punições físicas.

O Emida estabeleceu uma meta para treinar pais e professores a uma educação não violenta, baseada no amor testemunhado, o diálogo e o respeito recíproco. Os pais passam a compreender que os filhos se desenvolvem melhor e serão, dessa forma, mais capazes de apoiá-los na velhice, explica o educador suíço.

Quando os pais aceitaram a mensagem, é um processo lento, mas irreversível, especialmente quanto eles veem resultados nos seus filhos, constata o psicólogo camaronês, que educa suas três filhas de maneira não violenta. Ele cita como exemplo a caçula. "A gente a chama de turbo, pois transborda energia. Ele se impôs na escola aos dois anos para acompanhar suas irmãs mais velhas."

13 mil formados

Até hoje, aproximadamente 12 mil pais e mil professores fizeram cursos no Emida, em uma de suas quatro bases regionais. Os professores devem, em primeiro lugar, acompanhar a formação para os pais. A organização forma então animadores, que devem depois procurar 20 pais para formação nos seus próprios vilarejos.

Em dezembro de 2008, Gabriel Nicole passou a direção ao seu associado camaronês. Ele vive hoje uma aposentadoria tranquila em um vilarejo do sul do país com sua esposa camaronesa.

GABRIEL HENRY NICOLE

Suíço, originário do Vale do Cantão de Vaud (oeste), 70 anos.

Trinta anos casado com uma holandesa, com quem teve quatro filhas e dez netos. Eles se separaram amigavelmente quando sua primeira esposa compreende que ele vai ficar na África. Ele não teve filhos com a sua segunda esposa camaronesa.

Ele é um cristão engajado: "Sou filho e neto de pastores. Meus irmãos são pastores e professores de teologia."

Autodidata: "Já tive uma dezena de profissões, o que me levou a ter um olhar diferente sobre a vida."

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CLAUDE OLIVIER BAGNEKEN

Camaronês, 38 anos, pai de três meninas de 8, 6 e 3,5 anos. Sua mulher está atualmente no sétimo mês de gravidez.

Protestante engajado.

Psicólogo da infância. "Eu educo minhas três filhas de maneira não violenta. Elas estão florescendo."

Criado pelo seu avô materno, professor de escola primária. "Meu avô gostava muito de mim. Ele batia em mim, mas não sem razão. Ele perdeu seu único filho e me deu seu nome."

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A pesquisa

Pesquisa do UNICEF sobre a violência na escola.

Pesquisa realizada em maio de 2000, nas quatro regiões em que vivem mais de 40% da população de Camarões..

Questionários de 2.004 crianças, 1.002 pais e 105 professores escolares foram analisados.

Os motivos principais evocados pela prática de punições físicas são a insubmissão (pelos pais) e a indisciplina (pelos professores).

Os objetos mais utilizados para as punições físicas são chicote, cabo elétrico, cordas, galhos de árvores e até mesmo lenha do fogo, cinto, por vezes, com pregos.

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Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch


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