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Uma calmaria para lá de tensa

A entrada principal para a fortaleza. Para além desses portões, encontra-se algures o perigo.

Em 1947 um depósito de explosivos em Mitholz, no Oberland (planalto) de Berna, foi pelos ares em uma explosão acidental.  Durante muito tempo seus habitantes acreditaram estar seguros, mas no ano passado foi anunciada a sua evacuação completa. A população inteira deverá deixar sua vila por dez anos. Como os habitantes encaram tal perspectiva?

Este conteúdo foi publicado em 04. novembro 2020 - 10:00
Benjamin von Wyl (texto) e Thomas Kern (fotos)

As casas e fazendas de Mitholz estão espalhadas por todo o altiplano. Nem mesmo o turismo, apenas o tráfego de carros destoa nesse verdadeiro cartão postal da Suíça que é Mitholz, no Oberland Bernês.  Contudo, o vilarejo de 170 habitantes não existirá por muito tempo. Em 2030, os habitantes serão evacuados por dez anos. Onde você se vê daqui a dez anos? Esta é uma pergunta típica nas entrevistas de emprego para a qual a resposta nunca tem que ser definitiva. Mas para os habitantes de Mitholz, a coisa é diferente. Em 10 anos todos terão que partir, e o vilarejo de Mitholz desaparecerá por pelo menos mais 10 anos.

A "Fúria" de Mitholz - janeiro de 1948, vista do lado oeste. Schweizerisches Bundesarchiv

Esta interrupção na história do vilarejo remonta a uma catástrofe que aconteceu há mais de 70 anos, antes do nascimento da maioria dos habitantes de Mitholz. Durante a Segunda Guerra Mundial, o exército suíço construiu um depósito subterrâneo de munições na rocha da montanha. Em 19 de dezembro de 1947, cerca de 3.000 toneladas de munições e explosivos do depósito explodiram. O "Chnütsch", como eles chamam o evento no dialeto local, permaneceu por muito tempo como a maior explosão não nuclear do mundo. Nove pessoas morreram.

Durante muito tempo, acreditou-se que não havia mais riscos. Mas no inverno passado, o Ministério da Defesa anunciou que a comuna de Mitholz deverá se dissolver por dez anos. As pessoas terão que abandonar suas casas para que os explosivos possam ser removidos com segurança. Serão necessários mais 10 anos até que a tarefa seja concluída, em vista dos trabalhos preparatórios que deverão ser realizados para garantir que o tráfego pelo vilarejo possa continuar. Os restos do antigo depósito de munição mais uma vez ameaçam a existência da vila, mesmo sem ter havido qualquer explosão.

O ministério está preparado para comprar as casas, provavelmente com direito preferencial para os descendentes dos atuais proprietários. Muitas coisas ainda não estão claras. Qual o valor da compensação que o povo de Mitholz receberá por suas casas? Onde eles poderão comprar uma nova casa com os fundos da desapropriação? Em Mitholz, os preços dos imóveis são mais baixos do que nos vilarejos vizinhos.

Annelies Grossen, 50, jardineira e conselheira municipal, Frutigen

Sobre uma das pastas de arquivo que Annelies Grossen guarda no último restaurante de Mitholz pode-se ler na etiqueta "Pobre vilarejo". Trata-se do título de um antigo poema funerário que tentava capturar o que Mitholz vivenciou na época da explosão.

Grossen vive hoje na vizinha Frutigen, mas ela cresceu com as consequências da catástrofe em Mitholz. Sua mãe perdeu vários irmãos e sua avó na explosão. "Minha avó agarrou a filha de três anos de idade que chorava e fugiu de casa. Ela queria voltar e buscar os outros, mas num instante tudo se incendiou. Seu marido viu tudo desde uma casa no pasto acima do depósito de munição".

A explosão permaneceu o tema dominante em sua família, sem que se dedicasse muitas palavras ao evento. Mas na escola e na vida da aldeia já há muito não se fala mais a respeito. Em 1997, no 50º aniversário da catástrofe, a mãe de Grossen, então conselheira municipal, juntamente com a comunidade, fez com que o evento fosse relembrado com uma cerimônia oficial. As pastas e os portfólios que Grossen trouxe com ela foram parcialmente reunidos para a ocasião. Entre estes documentos estão fotos de grupos de busca, sobreviventes e a visita simbólica da liderança do exército, incluindo o General Guisan, que significou muito para os membros sobreviventes da comunidade.

A pedra amarela mostra onde a parede de rocha acima da entrada da instalação se rompeu na explosão de 1947.

Relatos da explosão chegaram até a distante cidade de Boston, mas com um atraso, é claro, já que mesmo a conferência de imprensa oficial das autoridades suíças só se realizou três dias depois. “Hoje seria muito diferente, teríamos também equipes de apoio para os sobreviventes. Nos anos 40, eles ficaram simplesmente desamparados”.

As muitas pessoas que passam de carro não percebem o pequeno chafariz memorial no vilarejo. “Mas o povo de Mitholz tem um lugar. No aniversário [do evento], minha mãe acendia velas lá. Agora sou eu ou uma vizinha que sempre acendemos as velas”. Grossen esperava que Mitholz se reunisse novamente para o 75o. aniversário da explosão. “Então aqui se poderia encontrar paz, e deixar que o passado virasse história. Mas depois veio o 18 de junho de 2018”.

Desde aquela data até os dias de hoje sabe-se que o antigo depósito de munição ainda é uma ameaça. Que em "partes desmoronadas do depósito e no cone de escombros à sua frente ainda estão enterradas cerca de 3.500 toneladas de munição com várias centenas de toneladas de explosivos", diz o Ministério da Defesa suíço, sendo que ainda há no local tanto material explosivo restante quanto o que causou a maior explosão não nuclear em 1947.

Grossen diz que as pessoas sempre estiveram cientes de que bombas não deflagradas poderiam se esconder no chão. "Não tínhamos ideia da escala do problema. Aos poucos foi ficando claro que tudo dentro da montanha é altamente explosivo, inclusive bombas aéreas de até 50 quilos". Essas grandes bombas não são o problema principal, mas sim as "as pequenas bombas pontiagudas, que poderiam iniciar uma reação em cadeia". Grossen, que é jardineira e política local pelo partido verde-liberal, soa como uma especialista em explosivos.

Para Mitholz, o passado volta à vida, e o futuro está cheio de desafios. Grossen explica: "Alguns dizem que teriam preferido não saber de nada. Algumas famílias não falaram sobre outro assunto durante um tempo. Outros dizem que farão planos quando o cronograma estiver claro". Durante muito tempo, tinha-se a certeza de que não havia risco.

A jardineira e política local pelo partido verde-liberal soa como uma especialista em explosivos.

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Durante muito tempo, tinha-se certeza de que não havia risco. O exército suíço reconstruiu, a partir de 1953, o complexo em torno das galerias e cavernas parcialmente desmoronadas pela explosão de 1947. Chegaram a projetar um laboratório químico, depois um hospital - e finalmente em 1982 foram concluídos os trabalhos nas instalações, agora concebidas como uma farmácia militar. Um pedaço de rocha foi até mesmo rebentado para esta conversão.

Urs Kallen, 64, administrador (aposentado) do complexo

Urs Kallen foi gerente das instalações na montanha até 2010. A entrevista que fizemos bem em frente à entrada do túnel é sua segunda visita ao local desde que deixou seu posto, depois de 30 anos de serviço. O exército suíço reconstruiu em 1953 parte dos túneis e depósitos subterrâneos parcialmente destruídos pela explosão em 1947. Planejou-se durante um tempo a construção de um laboratório químico, depois um hospital, sendo que em 1982 foram concluídos os trabalhos nas instalações que então serviriam como uma farmácia militar. Um pedaço da montanha foi até dinamitado para esta conversão do complexo. Até 2018, cerca de 130 pessoas faziam o serviço militar lá todos os anos, produzindo remédios simples e cosméticos, como cremes solares", diz Kallen.

De tempos em tempos, Kallen guiava, sob ordens de seus superiores, delegações militares estrangeiras em visitas à "Câmara 8", cujo chão está repleto de munições enferrujadas. Isto era uma atração. Já há mais de 30 anos, Kallen tinha dado garantias por escrito de que não havia perigo para seus funcionários e convidados. Uma afirmação tranquilizadora mas, vista em retrospecto, preocupante para ele. "Eu afirmei isso por escrito, os especialistas estiveram aqui, eu confiei neles!", diz ele, "Nesse meio tempo, apareceu uma carta antiga que prova que já naquela época havia motivos de preocupação”. Naquela época, eles não tinham sido informados sobre isso. "E isso era só o mínimo absoluto [que deveria ter sido feito]".

No interior da montanha, por detrás destes dois "olhos mágicos" no portão de entrada, encontra-se o perigo invisível.

Das autoridades, Kallen, que se orgulha de seu serviço no exército suíço, nunca ouviu um pedido de desculpas. A carta de 1986 confirmou que "o risco de explosão é mínimo". A avaliação naquele momento não dava motivos para crer "que os funcionários poderiam estar em risco", escreve um porta-voz do ministério da defesa confrontado com as declarações de Kallen.

Hoje, o imponente portão de entrada do túnel está completamente fechado. Atrás dele, um funcionário de segurança privada e um sistema de alarme vigiam o complexo. O pedido de visita da Swissinfo foi rejeitado por razões de segurança.


Karl Steiner, 63, carteiro

"De certo não há nada", diz Karl Steiner, o presidente de 63 anos da IG Mitholz, o grupo de trabalho que reúne a população local em torno do tema. Steiner diz que as respostas definitivas das autoridades sobre a evacuação ainda estão pendentes. Mas suas palavras parecem se referir a muitas coisas nessa vila escondida nas montanhas de Berna. Como uma cachoeira verbal, ele conta sobre avalanches e das enxurradas que Mitholz viveu ao longo das décadas. Ele relata também sobre o NEAT, o gigantesco projeto de trânsito ferroviário, para cuja construção Steiner teve que vender um terço de suas terras às autoridades nos anos 90.

"De certo não há nada"

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Mas nada disso se compara à evacuação. As casas ficarão vazias, os jardins que se misturam à paisagem ficarão descuidados, e os pátios serão abandonados. "Você não pode recomeçar com 30 vacas", diz Steiner. Não está claro o que vai acontecer com os agricultores e seus animais. Ele próprio provavelmente terá que deixar suas doze colônias de abelhas para trás. A mãe de Steiner vivenciou a catástrofe, e os acontecimentos dos últimos anos deixaram-na profundamente inquieta. O filho agora só lhe deseja paz e sossego. Dentro de 20 anos, quando o povo de Mitholz poderá voltar, Steiner terá a idade dela. "Eu também não terei mais que voltar aqui. "Espero que as crianças assumam a casa".

Enquanto a questão principal permanecer em aberto, é importante que o grupo de trabalho IG Mitholz aja em uníssono, negocie e faça perguntas conjuntamente. O grupo de trabalho parece ter conseguido reunir o vilarejo. Todos de Mitholz se vêem na mesma situação. Preocupados não estão apenas aqueles que de vez em quando se encontram no último bar do vilarejo.. A evacuação reuniu o vilarejo, que logo deixará de existir.

Werner Loat, 67, operador de escavadeira aposentado

"Antigamente tínhamos vários restaurantes, e duas lojinhas no vilarejo! Mãe (sic), quando fechou a última?" pergunta Werner Loat à sua esposa Alice, que está sentada ao seu lado à mesa. "Há 15 anos, com certeza", ele mesmo responde. Na época da explosão ainda havia um "Konsum", um pequeno supermercado. "Minha mãe trabalhava lá. Ele não reabriu depois das bombas. "Se as coisas tivessem sido diferentes, mais pessoas viveriam aqui hoje?"

De fora, os dois cães latem em seu cercado, mas eles não incomodam ninguém aqui. Os Loats vivem na periferia da cidade, quase junto ao lago Blausee. Loat diz que sua casa estava fora da zona de evacuação no início. Somente após um segundo parecer ficou claro que os Loats também teriam que deixar o vilarejo.

“Loat, Werner” como ele chama a si próprio, viveu aqui toda sua vida. "Eu nunca quis sair. Sou um homem de raízes profundas". Ele fez seu curso profissionalizante em Kandersteg, onde trabalhou durante 49 anos. Também há quase 50 anos, seu pai morreu em um acidente de caça. Por causa de sua mãe, ele ficou em casa e ajudou com as cabras e ovelhas. Quando Alice e ele estabeleceram uma família própria, ele reformou a casa sozinho. Ele preferiria não ter que sair, e se pergunta porque as autoridades não "fecham [o vilarejo] por uma semana e explodem tudo de uma maneira controlada". De acordo com o Ministério da Defesa, porém, uma explosão controlada provavelmente não detonaria "uma grande parte das munições" e espalharia um grande número de munições não explodidas no vale.

Loat também tem outras ideias originais, além da explosão controlada. No entanto, ele não questiona a ordem de partir: "Se eu tenho que ir, eu vou. O que eu ainda teria que fazer por aqui"? Ele não acredita em voltar. Ele espera que sua filha assuma o controle da casa.

Heidi Schmid, 37, administradora municipal

Heidi Schmid encontra-se em uma etapa completamente diferente da vida, mas ela também está conformada. Se você se aproximar da casa dos Schmids, as crianças vêm correndo em sua direção. Elas usam camisetas de suas férias na América do Sul. No interior, uma bandeira escocesa paira sobre o mezanino. Pelos padrões de Mitholz, tudo isso parece muito internacional. Outros passaram suas vidas mais ou menos completamente no vale; as crianças Schmid já estiveram no Chile. Schmid diz que ela e seu marido têm uma paixão por viajar. "Mas nós estamos enraizados aqui".

Céu de outono sobre as montanhas do vale de Kander em frente ao depósito de munições.

Schmid herdou a casa de seus pais. Mesmo dez anos após a reforma, a madeira ainda parece nova. Somente o espaço de armazenamento no jardim não está acabado. "Por enquanto vai continuar assim", diz Schmid, "Estamos vivendo na incerteza nesse momento".

Os Schmids querem o que todos aqui querem: preservar ao máximo possível aquilo que têm.

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"Para nós, tudo está em aberto, e já pensamos se devemos ficar na região ou fazer algo completamente diferente". Algo completamente diferente significaria mudar-se para outra parte do país ou até emigrar, talvez por um ano. Mas a família Schmid rejeitou a ideia. No momento, com as crianças em idade pré-escolar, não é a ocasião para tais aventuras. "Na verdade, gostaríamos de algo semelhante ao que temos aqui".

Mural pintado por estudantes de Mitholz na passagem inferior da rua principal. As crianças daquela época já são hoje avós. Ninguém sequer cogitou de uma evacuação em 1999.

O marido de Heidi Schmid tem raízes familiares e profissionais em Mitholz. Ela mesma trabalha em uma posição gerencial na vizinha Frutigen, onde cresceu. Os Schmids querem o que todos aqui querem: preservar ao máximo possível aquilo que têm. Mas isto não é possível. Como todos os cidadãos de Mitholz, eles se veem forçados a lidar com o futuro a médio prazo, mas sem saber sob quais condições.

Em meados de setembro, o Ministério da Defesa respondeu a uma demanda formal anunciando que o "procedimento concreto" seria discutido com o grupo de trabalho IG Mitholz “nas próximas semanas", "a fim de realizar inspeções iniciais de casas individuais".

  

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