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Syngenta aposta em IA e capital chinês

Jeff Rowe, Syngenta
Jeff Rowe, diretor-executivo da Syngenta. Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

O controle chinês fortaleceu a Syngenta, diz seu diretor-executivo, Jeff Rowe. Desde 2017, a empresa quase dobrou as vendas e manteve a sede em Basileia, apesar das tensões entre Estados Unidos e China. O diferencial, afirma, é a visão de longo prazo dos acionistas.

Em 2017, a multinacional suíça do agronegócio SyngentaLink externo foi adquirida pelo grupo estatal chinês ChemChina por 43 bilhões de dólares. O negócio recorde gerou diversas preocupações na Suíça e levou à criação da chamada “Lei Syngenta”, um conjunto de regras e decisões parlamentares elaboradas para abordar as preocupações relativas às aquisições de empresas suíças de importância estratégica por empresas estatais estrangeiras.

Syngenta, empresa especializada em proteção de cultivos e sementes, agora pertence integralmente à Sinochem Holdings, um grupo estatal chinês criado a partir da fusão do Grupo Sinochem e da ChemChina. Ela alcançou vendas de US$ 28,8 bilhões em 2024 e emprega 56 mil pessoas em mais de 90 países. Esses números são superiores às vendas de 12,65 bilhões em 2017 (antes da aquisição) e de 13,6 bilhões em 2019.

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Logo da Syngenta

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Por dentro da Syngenta, por trás de uma imagem controversa

Este conteúdo foi publicado em A Syngenta tem uma imagem complicada. Sua origem é Suíça, mas hoje ela pertence a uma empresa chinesa. Embora se considere uma empresa agrícola, ela contrata mais cientistas e químicos do que agricultores. Para os funcionários, a Syngenta é uma empresa de base científica que ajuda a alimentar o mundo; para os ecologistas, é uma empresa de pesticidas que ameaça…

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Desde a mudança de proprietários, a empresa teve que lidar com as crescentes tensões entre a China e os Estados Unidos, as tarifas generalizadas impostas pelo presidente Donald Trump e a imagem, por vezes controversa, associada à sua ligação com o governo chinês.

Nós entrevistamos Jeff Rowe, diretor-executivo da Syngenta, durante o Fórum Econômico MundialLink externo (WEF) em Davos, em janeiro.

Swissinfo: Esta é a sua quarta participação no WEF. O que você fez no evento?

Jeff Rowe: Eu aprecio a diversidade de pensamento no WEF. Sou intelectualmente curioso e estou constantemente buscando maneiras melhores de fazer as coisas e experimentar. A Syngenta é uma empresa muito inovadora que está sempre tentando aprimorar o que fazemos: desde o atendimento aos clientes até o desenvolvimento de novos produtos. Foi inspirador vir aqui e interagir com algumas das mentes mais brilhantes e talentosas.

Não há muitas empresas de agricultura e agronegócio presentes, mas é inspirador interagir com setores distantes do nosso, entender suas prioridades e preocupações e trazer aprendizados relevantes de volta para nossa empresa.

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SWI swissinfo.ch

Swissinfo: A Syngenta está sob controle chinês há quase uma década. Como isso mudou a cultura corporativa, a tomada de decisões e a estratégia de longo prazo da Syngenta?

JR: Em 2017, logo após a aquisição, havia muitas preocupações na Suíça: receios de se perder uma empresa líder nacional, de realocação de atividades e da assimetria de uma empresa estatal adquirir uma empresa privada suíça. Nada disso aconteceu. A Syngenta não só continua na Suíça, como hoje é mais relevante do que nunca, com vendas do grupo alcançando quase o dobro do valor registrado na época da aquisição.

“Nos últimos dez anos, investimos cerca de um bilhão de dólares nas nossas fábricas na Suíça.”

Fundamentalmente, somos uma multinacional global e nossa governança reflete isso. Temos uma equipe de liderança global e um conselho global, incluindo diretores independentes que são pessoas respeitadas e influentes de todo o mundo.

Swissinfo: Na sua opinião, qual é o valor agregado pelos seus acionistas chineses?

JR: Eles têm uma visão de longo prazo, com um profundo compromisso com pesquisa e desenvolvimento, e encaram o investimento na Syngenta como algo a longo prazo. Isso contrasta com a visão de investidores ativistas* que podem entrar por seis meses e exigir mudanças que podem prejudicar a saúde da empresa a longo prazo.

Swissinfo: O fato de a empresa ser propriedade de um grupo chinês afetou sua capacidade de atrair talentos ou parceiros ocidentais?

JR: Se analisarmos quem recrutamos e mantivemos desde a aquisição, podemos afirmar que nos saímos melhor do que quase qualquer outra empresa do setor em atrair e reter os melhores talentos.

Entrevista com Jeff Rowe
A maior parte da nossa equipa de liderança, incluindo eu próprio, está sediada em Basileia. Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

Swissinfo: Os Estados Unidos intensificaram o escrutínio das políticas do governo chinês, com foco na segurança nacional. Como vocês mantêm a confiança dos órgãos reguladores e clientes americanos, visto que a Syngenta pertence a uma empresa estatal chinesa?

JR: Somos reconhecidos na Suíça, na Europa, nos Estados Unidos e globalmente como uma multinacional com sede na Suíça. Temos um acionista chinês, mas nossa história e legado estão profundamente enraizados na Suíça. A maior parte da nossa equipe de liderança, incluindo eu mesmo, está baseada em Basileia.

Agricultores nos EUA, na Índia, no Brasil e em outros países geralmente nos consideram uma das marcas mais respeitadas no setor agrícola. Estamos no mercado há mais de 200 anos e, nos principais mercados, somos líderes ou vice-líderes em quase todos os segmentos.

Também somos bem conhecidos pelos órgãos reguladores como uma empresa baseada na ciência, que apresenta relatórios da mais alta qualidade e com a melhor fundamentação científica possível.

Swissinfo: Qual é o grau de exposição da Syngenta às tensões comerciais em curso entre os EUA e a China?

JR: O comércio é importante para os nossos clientes porque a agricultura está entre os produtos mais comercializados globalmente. A agricultura deve ser uma ponte entre os países, pois algumas regiões são naturalmente mais adequadas à produção de alimentos.

De onde eu venho, no Centro-Oeste dos Estados Unidos, por exemplo, alguns dos solos mais férteis do mundo podem produzir alimentos de forma eficiente; não devemos desmatar florestas tropicais nem colocar terras de baixa produtividade em cultivo. A sociedade deve otimizar a produção de alimentos e criar mercados que permitam sua circulação.

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Proibidos na UE, mas exportados ao Mercosul: as contradições da Europa sobre os pesticidas

Este conteúdo foi publicado em O acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, que será assinado este sábado (17), reacendeu as discussões sobre os pesticidas proibidos para os agricultores europeus, mas amplamente exportados para a América Latina por empresas fitossanitárias do Velho Continente. 

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Swissinfo: Mas vocês ainda estão sujeitos a tarifas, por exemplo, ao exportar da Suíça para os EUA. Vocês estão reduzindo esses riscos com a localização da sua produção?

JR: Produzimos em todo o mundo, com unidades de produção e negócios em todos os principais mercados. A produção de sementes é feita principalmente no país onde será consumida, e otimizamos nossa cadeia de suprimentos para minimizar o risco de interrupções comerciais imprevistas.

Nossa cadeia de fornecedores é sofisticada e utilizamos inteligência artificial (IA) intensivamente para otimizar a confiabilidade, a qualidade e o custo. Também usamos IA para antecipar a demanda dos agricultores, muitas vezes com 18 meses de antecedência.

Nossos modelos analisam padrões climáticos em países como Argentina e Brasil, estimam a quantidade de milho e soja que será plantada e determinam onde a produção deve começar; seja na Índia, na China, na Suíça ou no Reino Unido.

Entrevista com Jeff Rowe
Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

Swissinfo: Sua IPO (oferta pública inicial de ações) planejada em Xangai foi adiada diversas vezes. Qual é a situação atual do seu plano de IPO? Vocês planejam realizar a IPO este ano? E uma listagem nos mercados de capital da Suíça ou na Europa seria uma opção?

JR: Continuaremos avaliando nossas estratégias de mercado de capitais com base nas condições de mercado e em outros fatores relevantes que sejam do melhor interesse de nossos acionistas. Neste momento, nenhuma decisão formal foi tomada sobre uma possível IPO.

Também seria prematuro especular sobre a localização de uma listagem primária e, se a situação justificar, de uma listagem secundária.

Uma das minhas primeiras decisões como CEO foi retirar o pedido, pois estava pendente há muito tempo e havia se tornado uma distração. Desde então, tenho me concentrado em melhorar o desempenho, a competitividade, o fluxo de caixa e as margens.

Swissinfo: Como vocês avaliam os benefícios de uma oferta pública inicial de ações em comparação com o aumento da transparência e a pressão de curto prazo do mercado?

JR: Além do acesso ao capital, uma listagem na bolsa pode reforçar nossa reputação global como líder em nosso setor. Como parte do processo de IPO, aprimoraremos nossas informações financeiras de acordo com os requisitos regulatórios para garantir transparência aos investidores.

Swissinfo: De que forma a Syngenta ainda é uma empresa suíça?

JR: Nossa relação com a Suíça é longa, profunda e mutuamente benéfica, e nos orgulhamos de nossa herança suíça. Nossa capacidade de inovar, a essência da empresa, é sustentada não apenas pela neutralidade da Suíça, mas também por sua abertura ao investimento.

Além do acesso ao capital, uma listagem pode reforçar nossa reputação global como líder em nosso setor.

Não é por acaso que empresas focadas em P&D, como Roche, Novartis e Syngenta, estejam sediadas em Basileia: a cidade tem uma longa tradição de inovação e atrai os melhores talentos do mundo todo. Ter nossa sede em Basileia é uma grande vantagem.

Acredito que somos a empresa mais global do nosso setor, com uma das equipes mais diversas. Essa diversidade nos ajuda a tomar decisões melhores em um mercado global. Também acredito muito no sistema educacional suíço. Minha filha de 16 anos estuda aqui e, naturalmente, recrutamos muitos profissionais em universidades suíças.

Swissinfo: Quanto você investiu na Suíça desde a aquisição chinesa?

JR: Nos últimos dez anos, investimos cerca de um bilhão de dólares em nossas diferentes unidades na Suíça. Isso demonstra nosso compromisso com o país.

Swissinfo: Voltando à IA, quais países a estão adotando com mais força, inclusive por meio da sua plataforma CropwiseLink externo? Qual é a posição da Suíça nesse sentido?

JR: A adoção ocorre em um espectro contínuo. Os agricultores maiores e mais sofisticados tendem a adotar tecnologias digitais e IA mais rapidamente, por exemplo, nos EUA, Brasil, Argentina, Ucrânia e Europa Oriental.

Os agricultores suíços, na minha experiência, são muito sofisticados e altamente focados em sustentabilidade, o que pode aumentar a complexidade operacional.

Na Suíça, a adoção varia conforme o segmento: alguns produtores de hortaliças são muito avançados em ferramentas digitais; no geral, eu colocaria a Suíça em algum lugar intermediário.

Entrevista com Jeff Rowe
“Também seria prematuro especular sobre a localização de uma cotação primária e, se a situação assim o exigir, de uma cotação secundária”. Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

Swissinfo: O uso de IA pode significar que os agricultores precisarão de quantidades menores de seus produtos fitossanitários. Como vocês conciliam isso com as metas financeiras?

JR: É um equívoco pensar que nosso objetivo é simplesmente vender em grande volume. Grande parte da nossa inovação visa reduzir o volume e, ao mesmo tempo, melhorar os resultados; se os agricultores usam menos produto, mas obtêm melhores resultados, nós também nos beneficiamos.

A aplicação de precisão e a tecnologia também ajudam a solucionar a escassez de mão de obra, um grande problema global para os agricultores. Os agricultores estão dispostos a investir em soluções mais eficazes e inteligentes, mesmo que comprem em menor volume, porque percebem os benefícios.

Swissinfo: Em que medida vocês adaptam os preços às diferentes regiões e segmentos de clientes?

JR: Utilizamos preços baseados em valor, analisando o valor gerado em uma determinada fazenda e ambiente. Esses diferem drasticamente entre locais como Mato Grosso, no Brasil, e o sul da Índia.

Também levamos em consideração a dinâmica da concorrência e os produtos genéricos, portanto, não se trata de uma abordagem única para todos. Além disso, as soluções de proteção de cultivos representam apenas cerca de 10% dos custos totais da fazenda; os fertilizantes são um fator de custo muito mais significativo.

Rowe olhando para cima
«Temos de antecipar as tendências com pelo menos dez anos de antecedência, porque o desenvolvimento de um novo produto leva cerca de uma década e várias centenas de milhões de dólares». Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

Swissinfo: Como as mudanças climáticas afetam os negócios da Syngenta?

JR: Estou no setor há cerca de 30 anos e, mesmo antes de as mudanças climáticas se tornarem um tema central, já trabalhávamos em desafios relacionados, como a tolerância à seca.

As mudanças climáticas intensificaram o estresse térmico e as chuvas extremas. Precisamos antecipar tendências com pelo menos dez anos de antecedência, porque o desenvolvimento de um novo produto leva cerca de uma década e custa várias centenas de milhões de dólares.

Analisamos como a agricultura pode mudar geograficamente, incluindo tendências em direção ao hemisfério sul, e quais novas doenças, pragas e desafios os agricultores podem enfrentar.

Isso traz um senso de responsabilidade ainda maior: nossa inovação, nossa força de trabalho de 56.000 funcionários e nosso significativo investimento em P&D podem ajudar a enfrentar os desafios relacionados ao clima, e levo essa responsabilidade muito a sério.

* Os acionistas ativistas normalmente compram participações relativamente pequenas em uma empresa com o objetivo de influenciar sua estratégia ou estrutura de governança, a fim de aumentar drasticamente seu valor de mercado no curto prazo, muitas vezes em detrimento de sua saúde a longo prazo.

Edição: Virginie Mangin

Adaptação: DvSperling

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A agricultura pode se livrar dos pesticidas?

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