“O meu Diário do Euro 2008” de Fernando Correia
Um dos mais experientes jornalistas desportivos de Portugal, Fernando Correia, lança em Neuchâtel seu livro com detalhes pitorescos da selecção no Euro 2008.
A escolha de Neuchâtel não é um acaso pois foi esta cidade que acolheu com grande entusiasmo a “Selecção das Quinas”. O livro foi apresentado no Centro Português local.
Fernando Correia é jornalista desde 1958, comentarista e locutor desportivo desde 1964. Cobriu várias Copas do Mundo e Campeonatos Europeus, bem como trabalhou em vários jornais, com uma longa carreira na RDP. Entrevista quando do lançamento de “O meu diário do Euro 2008” em Neuchâtel (20/09):
swissinfo: O que é que este “O meu Diário do Euro 2008” nos trás?
Fernando Correia: Traz a minha visão do Campeonato da Europa. Estive aqui a serviço do Rádio Clube Português durante um mês, fiquei até mesmo a Selecção Nacional ter ido embora, portanto é uma visão pessoal e factual também.
Como eu vivi o dia-a-dia da Selecção Nacional, provavelmente este livrinho traga algumas descobertas em relação àquilo que se passou com a Selecção Nacional e talvez consiga dar algumas respostas a questões que as pessoas possam ter sobre o porquê é que não conseguimos ir mais à frente.
swissinfo: Para si a prestação da Selecção foi uma decepção?
FC:Foi uma decepção. Acho que a Selecção Portuguesa podia e devia ter feito muito mais do que aquilo que fez. Mas houve vários factores que contribuíram para que a Selecção tenha ficado pelo caminho.
O factor principal foi alguns jogadores estarem mais preocupados com a sua vida pessoal e profissional, em termos de conseguirem arranjar clubes melhores e melhores contratos, do que propriamente com a Selecção Nacional. Não me parece que eles tenham conseguido fazer isso da forma mais correcta.
Por outro lado e com essas preocupações todas, aconteceu também que Luiz Felipe Scolari, a certa altura, arranjou uma forma de algum modo prejudicar a equipa, ou seja, “agora eu vou para o Chelsea”, e isto do clube ter confirmado que tinha contrato com ele, desestabilizou sem dúvida alguma a Selecção. Depois do anúncio de Scolari, Portugal nunca mais ganhou…
swissinfo: Não pensa que esse anúncio por parte de Scolari foi uma falta de respeito pela Selecção Portuguesa?
FC: Sim, acho que sim. Até porque ele perdeu um pouco a autoridade se é que não a perdeu toda. Ou seja, ele afirmava que todos se deviam preocupar com o objectivo Selecção, que não se deviam preocupar com os clubes, e depois ele é o primeiro a se preocupar em ir para um clube, a preocupar-se com a sua vida futura. Essas são as dúvidas e que eu tento explicar de alguma forma com factos no meu livro porque, sendo Portugal favorito, e era, não foi mais longe tendo o apoio que tinha…
swissinfo: Na sua opinião, a Selecção de Portugal continua a ser uma boa equipa?
FC: Acho que tem bons jogadores, mas não é uma boa equipa. Aliás com o professor Carlos Queirós chegámos a essa conclusão. A Selecção não joga aquilo que sabe. Joga um pouco aquilo que é preciso.
Portugal jogou com a Dinamarca de uma forma totalmente disparatada. Não há nenhuma equipa profissional no mundo com a categoria da Selecção e que quer ir à fase final do Campeonato do Mundo, que estando a ganhar por 2-1 a três minutos do fim, que depois vá perder esse jogo por 3 bolas a duas.
Só a portuguesa. Por quê? Falta de confiança, falta de estabilidade e, provavelmente, faltará também em campo um jogador que seja o patrão da equipa. Que seja o Deco? Pronto, que seja o Deco, mas que haja um que seja o patrão da equipa e que os outros obedeçam a essa voz em campo.
swissinfo: A Selecção portuguesa foi recebida na Suíça de uma certa forma em apoteose. Foi uma surpresa para si?
FC: Não foi totalmente uma surpresa, mas confesso que não esperava tanto. Ou seja, a vida dos portugueses aqui radicados praticamente parou para ajudarem a Selecção.
E a Selecção devia ter retribuído de uma maneira mais eficaz, não só com o coração, e eu acredito que os jogadores tenham dado de algum modo com o coração ao povo português que aqui está, mas também com resultados.
Por outro lado, não ficaria nada mal aos jogadores portugueses se estivessem mais tempo junto dos portugueses que aqui vivem. E eles muitas vezes passaram um pouco ao lado da comunidade portuguesa. As pessoas queriam um autógrafo, um aperto de mão, queriam uma fotografia e eles fugiam dizendo que não tinham ordens para isso.
As pessoas ansiavam pela presença portuguesa e essa decisão partiu de quem manda, não sei se foi do Scolari ou do presidente da federação, mas partiu de quem manda…
swissinfo: Que impressão ficou da comunidade portuguesa?
FC: O amor à pátria. As pessoas apesar de estarem adaptadas à vida helvética e integradas nesta nova realidade têm um amor a Portugal que é fantástico.
Só se consegue perceber a extensão desse amor quando se está fora do país…Eu tenho dúvidas que a Selecção nacional tenha percebido até que ponto é que fez sofrer estas pessoas, até que ponto as apaixonou e até que ponto as desiludiu…
swissinfo: Durante o Euro, a imprensa nacional portuguesa esteve em peso na Suíça. Que opinião pensa é que estes jornalistas ficaram da Suíça e dos portugueses?
FC: De todas as opiniões que conheço, de todos os camaradas jornalistas que estiveram aqui, as opiniões são muito positivas em relação à comunidade portuguesa e à Suíça. Mas são muito negativas em relação à Selecção Nacional.
Eles acham que a comunidade portuguesa transmitiu para todo o mundo de que era possível ganhar o Campeonato da Europa e depois não concretizámos nem de perto nem de longe. Ouviu-se muito o seguinte:
“A Selecção vale pelo seu todo ou só vale pelo Cristiano Ronaldo?” Se calhar só vale pelo Cristiano Ronaldo… Isso é muito negativo porque uma equipa não pode viver de um homem, ainda por cima a jogar lesionado…
swissinfo: Este seu livro é uma reflexão?
FC: Sim, obriga mesmo a ser uma reflexão. Eu penso que este livro, para além de ser um instrumento de trabalho e um instrumento de consulta, para além de ser um retrato do que se passou no Campeonato da Europa, dado que tem muita matéria que é factual e não há que fugir delas, também é um livro para pensarmos um bocadinho nisto, de tal maneira que eu aconselho as pessoas, apesar de ser eu o autor, e vale o que vale a minha opinião, ao lerem este livro, que pensem o que não se deve fazer de errado no Campeonato do Mundo que aí vem na África do Sul…
swissinfo: A Selecção nacional tem boas perspectivas na sua visão?
FC: Temos boas perspectivas, desde que Carlos Queirós assuma por inteiro a responsabilidade de tornar este grupo de jogadores uma equipa. Neste momento não é uma equipa, é um grupo de jogadores que pode vir a ser uma equipa. O Carlos Queirós tem condições para isso porque tem conhecimento internacional, tem a escola do Manchester e porque já esteve a trabalhar na federação…
swissinfo, Adelino Sá
Fernando Correia nasceu em Lisboa, onde fez a primeira parte dos seus estudos. É casado e pai de 5 filhos. Freqüentou a Alliance Française e o Instituto Britânico (segunda parte dos estudos feitos em Cambridge) e especializou-se em Ciências da Comunicação e Línguas.
Entrou para a Emissora Nacional em 1958, onde atingiu a categoria de locutor de 1ª classe (março de 1966).
Fez depois o curso de Chefe de Equipa de Realização que concluiu em julho de 1976, já na RDP.
Foi funcionário da Emissora Nacional, RDP, Rádio Comercial, TSF Rádio Notícias e, actualmente, é realizador de Programas no Rádio Clube Português (Lugar Cativo).
É relator e comentador desportivo desde 1964. Nessa qualidade, esteve presente, depois de 1976, em todos os campeonatos da Europa e do mundo de futebol.
Também realizou a cobertura de vários Jogos olímpicos, Campeonatos da Europa e do Mundo de Hóquei em Patins e Torneios internacionais de Atletismo.
Como jornalista, trabalhou nos jornais Record, A Capital, O Diário, Gazeta dos Desportos, Diário Popular e Notícias. Foi Director-adjunto e Director do Semanário Sporting. Assinou colaborações diversas na RTP e TVI
O Meu Diário do Euro 2008 é publicado pela Editora Livros Brasil.
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