Aquecimento global ameaça futuro dos Jogos de Inverno
O avanço do aquecimento global coloca em xeque o formato e as futuras sedes dos Jogos Olímpicos de Inverno. Com menos cidades aptas a receber competições e críticas à alta pegada de carbono de eventos recentes, o COI avalia reformas estruturais.
Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2026 começaram com uma nevasca pesada em Cortina d’Ampezzo, no norte da Itália, mas as temperaturas estão subindo e a neve está lentamente derretendo. Desde a última vez em que Cortina sediou os Jogos, em 1956, a média de temperatura em fevereiro subiu 3,6 °C, e as previsões indicam temperaturas acima da média durante a competição deste mês.
Pesquisadores alertam que, de modo geral, o número de locais confiáveis para sediar os Jogos Olímpicos de Inverno está diminuindo. Um estudoLink externo de 2024 constatou que entre as 93 localidades montanhosas capazes de sediar esportes de inverno de elite hoje, apenas em torno de 30 permanecerão nestas condições até a década de 2080, dependendo de como as emissões globais evoluírem até lá. O Comitê Olímpico Internacional (COI) prioriza locais com pelo menos 80% de instalações já existentes, reduzindo ainda mais o número de opções.
O COI, com sede na Suíça, está agora considerando alternar os Jogos entre um pequeno grupo permanente de locais adequados e antecipar os eventos para o inícioLink externo da temporada. Março está se tornando muito quente para os Jogos Paraolímpicos, que tradicionalmente seguem os Jogos Olímpicos de Inverno.
Megaeventos como as Olimpíadas também geram pegadas de carbono consideráveis, em grande parte devido à construção de instalações e a viagens. Uma nova pesquisaLink externo aponta que os Jogos Olímpicos entre 2012 e 2024 emitiram 1,59 a 4,5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (CO₂e).
Geralmente, os Jogos de Inverno emitem menos carbono – cerca de 1,0 a 1,5 milhão de toneladas de CO₂ – do que os de Verão, devido a um número menor de atletas, instalações menores e demandas operacionais menos intensas. No entanto, mesmo esses eventos de menor porte podem gerar uma pegada de carbono desproporcional a seu tamanho e importância econômica.
Enquanto o COI cogita grandes reformas para reduzir a pegada de carbono das Olimpíadas, a Suíça está apresentando um modelo para Jogos mais sustentáveis, a serem realizados no país em 2038.
Tão sustentáveis quanto possível
“Nosso objetivo em cada edição dos Jogos Olímpicos é realizar um evento que seja o mais sustentável possível, reduzindo sua pegada ambiental e, paralelamente, atendendo às necessidades sociais, ambientais e econômicas da região anfitriã”, afirma Julie Duffus, diretora de sustentabilidade do COI.
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Duffus destaca as regras mais rigorosas para as cidades-sede, que vêm sendo aplicadas desde 2020, bem como a contabilização obrigatória das emissões de carbono. E um contratoLink externo com a cidade-sede, que requer o alinhamento com o Acordo de Paris. Tudo isso servindo de exemplo de como o COI leva a sustentabilidade e as mudanças climáticas “muito a sério”. Duffus acrescenta que o COI também prioriza instalações pré-existentes ou temporárias, locais com clima confiável, redução de construções, energia renovável e modelos de sediamento regional.
Pesquisas realizadas na Suíça apontam que ainda existe uma “lacuna persistente na governança”: o COI não exige estimativas de emissões durante a licitação, nem verificação independente após o processo. Isso é especialmente problemático no contexto das Olimpíadas de Inverno, onde relatórios inconsistentes no passado dificultam o estabelecimento de uma linha de base ou de metas confiáveis, afirma o pesquisador David Gogishvili, de Lausanne.
Gogishvili e seu colega Martin Müller propõem um caminho mais claro para as reduções. A pesquisaLink externo conduzida pelos dois esboça uma rota para reduzir as emissões olímpicas (48% até 2030 e 84% até 2050), tendo em vista um alinhamento com o Acordo de Paris. Gogishvili apresenta argumentos contra a realização de megaeventos e pede que os mesmos se concentrem mais em espectadores regionais, a fim de reduzir viagens aéreas de longa distância.
“O mais difícil para o COI e outros grandes anfitriões aceitarem é que esses megaeventos – em termos de tamanho, escala e número de atletas – ignoram a realidade da crise climática, na qual estamos vivendo”, afirma Gogishvili.
Início a uma nova era?
Uma estratégia do COI para melhorar a sustentabilidade é realizar os Jogos em regiões maiores, utilizando instalações já existentes em maior escala. Milão-Cortina, um evento distribuído por três centros (Milão, Cortina e Livigno) e apenas duas novas instalações permanentes, é o primeiro teste neste sentido. Os próximos dois Jogos de Inverno, nos Alpes franceses em 2030 e em Utah em 2034, também serão geograficamente dispersos.
A Itália, que está reutilizando equipamentos de Paris 2024, afirma que 85% de sua infraestrutura já existia ou é temporária. Os locais funcionam com energia renovável e o excedente de alimentos é doado.
Mesmo assim, as críticas apontam contradições. Apesar das alegações de sustentabilidade, Milão-Cortina ainda precisou de vários novos centros de acomodação. E a nova pista de bobsleigh em Cortina envolveu o desmatamento de centenas de árvores. A produção de neve artificial – 2,4 milhões de metros cúbicos – também exige água, novos reservatórios e tecnologia cara.
Grandes projetos de infraestrutura, incluindo melhorias nas estradas, também foram iniciados no norte da Itália em função dos Jogos. Os custos subiram de 1,5 bilhão para 5,7 bilhões de euros, com vários projetos sendo realizados sem avaliação ambiental, “apesar dos compromissos com a sustentabilidade e da promessa de não onerar as finanças públicas”, observaLink externo a Comissão Internacional para a Proteção dos Alpes (CIPRA).
Ativistas estimamLink externo que Milão-Cortina vai gerar cerca de 930 mil toneladas de emissões, sendo que a maior parte – 410 mil toneladas – resulta das viagens dos espectadores. Este valor é inferior ao de Pyeongchang, na Coreia do Sul, em 2018 (1,64 milhões), mas continua significativo, correspondendo aproximadamente às emissões anuais de uma cidade média europeia com aproximadamente 200 mil habitantes.
Outro ponto de crítica apontado por ativistas são os acordos de patrocínio com a produtora de petróleo e gás Eni, a montadora Stellantis e a ITA Airways, que, segundo eles, vão gerar 1,3 milhão de toneladas adicionais de emissões de carbono. O Greenpeace organizou um protesto em Milão, quando a tocha olímpica chegou, reivindicando que os organizadores cortassem o vínculo com a Eni. A empresa afirma que reconhece a urgência das mudanças climáticas e está investindo na transição energética.
Depois de receber uma petição com 21 mil assinaturas, pedindo a proibição de patrocinadores de combustíveis fósseis, Kirsty Coventry, presidente do COI, reconheceu que a organização deve “melhorar” no que diz respeito às mudanças climáticas.
Quão ecológicos serão os Jogos Suíços?
A Suíça está acompanhando tudo de perto. O COI iniciou um diálogo com Berna, tendo em vista a organização dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2038.
Para 2038Link externo, a Suíça propõe competições em todo o país, mas sem instalações novas e com transporte público extenso. O projeto conta com a retaguarda de dez cantões e 14 municípios, com a realização prevista de aproximadamente 120 competições em dez locais. Lausanne poderá sediar a cerimônia de abertura e Berna a de encerramento. O governo federal também apoia o plano e iniciou consultas sobre um financiamento de até 200 milhões de francos. A maior parte do orçamento total estimado em 2,2 bilhões de francos suíços viria de parceiros privados e doadores.
A Suíça sediou os Jogos pela última vez em 1948. O Parlamento deve decidir sobre a candidatura para 2038 ainda este ano, com a possibilidade de um referendo sobre a questão, caso os opositores reúnam assinaturas suficientes. Várias candidaturas suíças anteriores, como as de St. Moritz-Davos para 2022 e Valais para 2026, fracassaram nas urnas.
No momento, não há oposição organizada à candidatura para 2038. As candidaturas suíças anteriores fracassaram de forma esmagadora devido aos custos e riscos financeiros, enquanto as preocupações ambientais eram secundárias.
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“Estamos plenamente conscientes de que, como qualquer grande evento internacional, os Jogos têm impactos ambientais – mesmo sem novas construções. Por isso, para 2038, a Suíça planeja estabelecer metas claras, mensuráveis e verificáveis de redução de emissões”, afirma Frédéric Favre, diretor da Suíça 2038. Essas metas vão se concentrar em mobilidade, energia, materiais e estruturas temporárias.
Outras medidas visam reduzir a pegada de carbono. O acesso ao transporte público poderia ser incluído nos ingressos, e a prioridade dada aos espectadores regionais. Grupos ambientalistas, incluindo a Pro Natura e o WWF, participaram das consultas.
O ceticismo, contudo, persiste. Kaspar Schuler, ex-diretor da CIPRA, argumenta que as Olimpíadas sobrecarregam inevitavelmente a infraestrutura. Ele aponta para Milão-Cortina 2026, onde “promessas vazias” foram “desastrosamente não cumpridas”, com 57% dos projetos incompletos antes dos Jogos e custos subindo para 7 bilhões de euros. “Por que deveria ser diferente na Suíça?”, questiona Schuler.
Gogishvili afirma que a Suíça 2038 parece atender aos critérios de sustentabilidade, mas alerta que a responsabilização é essencial: “Afirmações podem ser feitas, mas o importante é que elas tenham base científica e que sejam verificadas e se tornem vinculativas”.
O maior desafio pode ser o das viagens internacionais. Se um grande número de espectadores fizer viagens aéreas de longa distância para a Suíça em 2038, os organizadores podem não atingir as metas climáticas – como ocorreu com Paris 2024, quando as viagens representaramLink externo 53% da pegada de carbono do evento.
Edição: Gabe Bullard/Veronica De Vore
Adaptação: Soraia Vilela
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A Suíça e as Olimpíadas: uma longa aventura
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