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Brasil volta a ficar sem ministro da Saúde em plena pandemia

O presidente Jair Bolsonaro junto ao então ministro da Saúde, Nelson Teich, em 17 de abril de 2020 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 15. maio 2020 - 18:48
(AFP)

O ministro brasileiro da Saúde, Nelson Teich, apresentou sua renúncia nesta sexta-feira (15), alegando "incompatibilidades" com o governo do presidente Jair Bolsonaro, que se opõe a medidas rígidas de confinamento e promove o uso da cloroquina contra o novo coronavírus - disseram fontes do Ministério à AFP.

Teich, um médico oncologista de 62 anos, permaneceu menos de um mês no cargo. Tomou posse em 17 de abril para substituir Luiz Henrique Mandetta, destituído por Bolsonaro, e que era favorável a medidas de distanciamento social que, segundo o presidente, poderiam ser piores que a doença, devido a suas consequências econômicas.

"O ministro da Saúde, Nelson Teich, pediu exoneração nesta manhã", indicou uma nota do ministério, sem dar explicações.

Teich tampouco as deu durante a curta declaração à imprensa dada esta tarde.

"Não aceitei o convite [para ser ministro] pelo cargo. Aceitei porque achava que podia ajudar o Brasil e ajudar as pessoas", disse, após agradecer a Bolsonaro pela "oportunidade de ter feito parte do Ministério da Saúde".

Uma fonte ministerial disse à AFP que a renúncia ocorreu por "algumas incompatibilidades de ação" com Bolsonaro, que se opõe às medidas de distanciamento social e incentiva o uso da cloroquina para combater a pandemia, que até o momento deixou mais de 202.000 casos e quase 14.000 mortos no país. O número de casos poderia, no entanto, ser 15 vezes maior, devido à subnotificação, afirmam especialistas.

Segundo uma fonte ministerial, a gota d'água para a renúncia foi a pressão feita por Bolsonaro para que o Ministério da Saúde autorizasse o uso de cloroquina desde o estágio inicial da COVID-19, apesar de os testes para o uso desse medicamento ainda serem inconclusivos e do receio com seus efeitos colaterais.

O ministro também tinha passado por uma saia justa recentemente, quando Bolsonaro, sem consultá-lo, incluiu academias e salões de beleza na lista de serviços essenciais, permitindo-lhes reabrir em estados onde os governadores impuseram medidas de quarentena ou de distanciamento social.

Teich foi substituído provisoriamente por seu secretário-executivo, general Eduardo Pazuello, sem que se saiba se ele será efetivado no cargo.

"A renúncia de Teich é um mau presságio para a resposta do Brasil à pandemia de COVID-19, às vésperas da fase mais aguda da crise de saúde pública", escreveu a consultoria de risco político Eurasia Group, que alerta para a "disfunção" de coordenação do governo federal com estados e municípios.

A Bolsa de São Paulo, que operava sem tendência definida, orientou-se para a baixa após a renúncia de Teich e uma hora e meia antes do fechamento, operava em queda de 1,84%.

- Brasil "à deriva" -

O governador de São Paulo, João Doria, que decretou uma quarentena parcial no estado desde 24 de março, lamentou a saída de Teich e afirmou que o Brasil está "à deriva".

"Mais um ministro da Saúde, que acredita na ciência, deixa o governo Bolsonaro. No momento em que a curva de mortes pelo coronavírus acelera, o Brasil perde com a saída de Nelson Teich. O barco está à deriva. Que Deus proteja o Brasil e os brasileiros", escreveu Doria em seu Twitter.

Em uma teleconferência com empresários na quinta-feira, Bolsonaro pediu para "jogar pesado" contra Doria e os governadores que defendem medidas de confinamento.

"Um homem está decidindo o futuro de São Paulo. Está decidindo o futuro da economia do Brasil. Os senhores [empresários], com todo o respeito, têm que chamar o governador e jogar pesado, jogar pesado, porque a questão é séria. É guerra", disse Bolsonaro.

O presidente, que chegou a chamar a COVID-19 de "gripezinha", vê como inevitável que haja um certo número de mortes para impedir o colapso econômico do país, em uma postura semelhante à de Donald Trump.

"Tá morrendo gente? Está! Lamento! Lamento! Mas vai morrer muito, mas muito mais, se a economia continuar sendo destroçada por essas medidas", disse na quinta-feira, em Brasília.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) comparou essa política a um "genocídio".

"O governo transforma as pessoas que estão preocupadas com o coronavírus em inimigos. Então, não pode dar certo", declarou Lula na quinta-feira em entrevista à AFP.

As crises econômicas e de saúde no Brasil são agravadas por uma crise política, após a renúncia em abril do ministro da Justiça, Sergio Moro, a figura mais popular do governo. O ex-juiz também denunciou as tentativas de Bolsonaro de interferir nas investigações policiais.

Essas alegações culminaram em uma investigação que pode levar a Bolsonaro a ser acusado por crimes comuns e aumentaram a pressão sob presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, em aceitar alguns dos inúmeros pedidos de impeachment que estão se acumulando contra o atual chefe de Estado.

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