50 anos da coleção de arte bruta de Lausanne
A Coleção de Arte Bruta, em Lausanne, celebra 50 anos com uma exposição sobre as origens da Arte Bruta na Suíça. O evento revisita essa produção nascida à margem, muitas vezes em clínicas psiquiátricas, e por décadas ignorada pelo mundo da arte.
A “Arte Bruta” existe em toda parte. O termo designa a arte de pessoas sem formação artística: leigos, crianças, marginalizados sociais, pessoas com transtornos psíquicos ou deficiências intelectuais. Sua descoberta e seu reconhecimento como arte, contudo, estão estreitamente ligados à Suíça.
O termo foi cunhado pelo artista francês Jean Dubuffet, que via nessa expressão uma força bruta, não influenciada pelo sistema artístico. Em julho de 1945, Dubuffet viajou pela Suíça e visitou hospitais psiquiátricos e prisões – lugares onde alguns médicos e terapeutas haviam começado a observar e colecionar, com curiosidade, imagens e objetos de pacientes.
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Adolf Wölfli: criador de mundos
O psiquiatra Walter Morgenthaler observava, por exemplo, o paciente Adolf WölfliLink externo na então instituição psiquiátrica Waldau (hoje Serviços Psiquiátricos Universitários de Berna – UPD). O antigo Verdingbub (criança explorada) fora classificado como esquizofrênico e criou milhares de desenhos e colagens nos quais não apenas reinventou sua infância, mas também imaginou uma ordem mundial completamente nova. Morgenthaler atestou o valor artístico da obra de Wölfli e publicou um livro sobre ele.
Jean Dubuffet também ficou fascinado por Wölfli e, em 1948, exibiu alguns de seus desenhos em Paris. Na exposição de jubileu da Coleção de Arte Bruta, dois grandes nichos são dedicados a ele. Não é por acaso: Wölfli tornou-se um dos pilares da coleção de Dubuffet, formada a partir da década de 1940.
Em 1971, o acervo foi doado à cidade de Lausanne e, em fevereiro de 1976, foi fundada a Coleção de Arte BrutaLink externo, a primeira instituição do gênero no mundo.
O espírito da época
A exposição “Arte Bruta na Suíça” reúne obras históricas e contemporâneas, oferecendo uma visão de como a definição de doença psíquica e o tratamento dispensado aos pacientes se transformaram ao longo das décadas. O percurso mostra que, muitas vezes, acabavam na psiquiatria pessoas que já eram socialmente desfavorecidas, como Aloïse Corbaz, de Lausanne.
Ela desejava estudar canto, mas teve de trabalhar como empregada doméstica. Em imagens cor-de-rosa, pintou o sucesso e a felicidade amorosa que lhe foram negados na vida real.
A mostra revela ainda o quanto a arte bruta é marcada pelo espírito da época. O fato de os artistas terem um transtorno psíquico não significa que não percebam o mundo ao seu redor. Algumas obras expostas ao final do percurso poderiam muito bem ter saído de ateliês de artistas formados ou de designers gráficos sem diagnóstico psiquiátrico.
É o caso das pinturas acrílicas de Clemens Wild. O artista suíço pinta, sobre papel de embrulho e em tamanho quase natural, mulheres vestindo jalecos de trabalho – profissionais de limpeza, artesãs – e acrescenta pequenos textos nos quais as personagens fictícias se apresentam. As representações estilizadas parecem realistas e poderiam facilmente ser imaginadas em uma graphic novel ou em um cartaz publicitário.
Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos
“Arte Bruta na Suíça” pode ser visitada até 27 de setembro de 2026 no museuLink externo em Lausanne.
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