Um banco de dados para tradições centenárias
O que acontece quando um arqueólogo se preocupa com o desaparecimento de técnicas tradicionais de trabalho manual?
Ele se chama Simon Meyer e chegou até a montar um banco de dados para unir artesãos, pesquisadores e produtores. Para o suíço, as antigas técnicas terão um importante papel na era da automatização e da realidade virtual.
O objetivo de Simon Meyer ao criar o centro Werkzeitraum, cujo nome oficial é “Centro Suíço de Competência para os Ofícios Tradicionais”, é retomar técnicas tradicionais antes que elas desapareçam para sempre. Alguns exemplos são a fabricação de barricas, talha de madeira ou pedra, ou tecelagem.
Localizado em Schüpfheim, uma pequena cidade no cantão de Lucerna, o centro funciona no mesmo prédio de um museu dedicado às antigas técnicas de trabalho e ofícios. Para Meyer, porém, os velhos instrumentos exibidos nas vitrines representam muito mais do que curiosidades do passado.
Eles mostram como mestres de ofício contribuíram ao uso sustentável dos recursos naturais do país.
“Carpinteiros, por exemplo, utilizavam a mesma quantidade de madeira que aparecia no produto final. Eles usavam apenas o necessário em matéria-prima, pois sabiam o custo real da madeira, dando também preferência à local, mais apropriada para as circunstâncias climáticas da Suíça”, explica Meyer.
Para ilustrar o que ocorre com as mercadorias produzidas em massa, ele ressalta que “a energia de uma árvore inteira é gasta para produzir apenas um palito de dente no processo global de produção, incluindo também nesta conta o transporte”.
A lista de exemplos de como a automação substituiu os ofícios tradicionais é infinita. Porém Meyer acredita que ainda existe uma forte demanda para trabalhos manuais, sobretudo quando ele é de qualidade.
Mas antes de alcançar esse potencial, o suíço acredita que os artesãos precisam reconquistar o respeito, se organizar melhor e aprender como reviver as habilidades que eles perderam com o passar do tempo – a habilidade de comercializar seu talento e produtos.
Preços elevados
A indústria relojoeira da Suíça, particularmente companhias que produzes relógios mecânicos, conseguiu provar que o artesão tem o seu espaço na economia moderna ao mostrar que existe demanda por produtos de alto valor agregado como relógios de luxo.
Para fazer reviver as antigas habilidades, a Werkzeitraum está elaborando planos de treinamento e desenvolvendo estratégias de marketing para os ofícios tradicionais. O forte do centro é o seu banco de dados, que contém todos os tipos de ferramentas já utilizadas na Suíça em sua história e mais de mil endereços de artesãos, especialistas, produtores, pesquisadores e organizações.
O foco do centro em procurar um nicho futuro para os ofícios tradicionais já trouxe algumas interessantes idéias como fazer que pequenos artesãos adotem esquemas de leasing para a fabricação dos seus produtos, o que tornaria mais barato a longo prazo o acesso a uma mesa de madeira sólida ou um terno sob medida.
Meyer gostaria também de aprender com as comunidades tradicionais Amish e menonitas. Eles teriam preservado antigas tradições de artesanato e técnicas manuais, levadas para os Estados Unidos quando fugiram das perseguições religiosas na Suíça há duzentos séculos atrás.
Passado visionário
Outra idéia é abrir um museu para o “passado visionário” baseado no vilarejo fictício chamado de “Lugar Nenhum”. Completamente cortada do resto da civilização, os habitantes desenvolveram objetos do cotidiano de diferentes formas.
Os visitantes do “Lugar Nenhum” fariam o papel dos habitantes e reinventariam objetos com a ajuda de designers reais, mestres de ofício e artesãos.
Como responsável pelo centro Werkzeitraum, ele acredita que o aumento do custo da energia incentivará a consciência ecológica da sociedade e também a demanda por produtos “autênticos”, que têm uma origem clara.
Mas os esforços da Werkzeitraum, uma organização não lucrativa e parcialmente apoiada pelo dinheiro público, podem estar ocorrendo tarde demais e não em escala suficiente. “A humanidade está perdendo suas habilidades para fazer o que ela sempre fez: se adaptar às novas situações”, lamenta Meyer.
A existência do centro pode servir de pequena contribuição para preservar alguns valores. “Se não fizermos esse esforço, estamos perdendo algo de fundamental. Não seríamos o que somos atualmente se não fossemos capazes de nos expressar através das nossas habilidades”, conclui.
swissinfo, Dale Bechtel
O objetivo do Centro Suíço de Competência para os Ofícios Tradicionais é “pesquisar, preservar e transmitir formas tradicionais de trabalho manual”.
No banco de dados do centro foram introduzidos nomes de especialistas com diferentes competências. Como exemplo, alguns deles poderiam ser contatados para dar consultoria na reconstrução de um sistema hipocausto (antigo sistema romano de aquecimento central para termas e casas de luxo, durante o inverno, com fornalha subterrânea ou adjacente e condutos de tijolos furados para distribuir o calor) ou reparo da sela de cavalo.
A biblioteca do centro Werkzeitraum contém livros antigos, jornais, assim como esboços e manuais técnicos como um que descreve os métodos de fabricação de pergaminho.
O centro recebe apoio do governo federal suíço e é parceiro de diversas ONGs nacionais e internacionais e outras instituições como a Unesco.
A Convenção da UNESCO relativa à Salvaguarda do Patrimônio Cultural entrou em vigor em 2006.
Para a ONU, o patrimônio cultural envolve:
– tradições orais e expressões, incluindo a língua como veículo.
– arte (música tradicional, dança e teatro).
– práticas sociais, ritos e eventos festivos.
– conhecimentos e práticas relativas a ritos naturais e universais.
– artesanato e ofícios tradicionais.
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