The Swiss voice in the world since 1935
Principais artigos
Democracia suíça
Newsletter

Depois de Paris

Os ataques em Paris feitos por indivíduos associados ao Estado Islâmico, no seguimento dos atentados à bomba em Beirute, e do abate de um avião Russo sobre a Península do Sinai, reforçam a realidade de que a ameaça terrorista entrou numa fase nova e ainda mais perigosa.

Conteúdo externo

Apenas podemos conjecturar a razão pela qual o Estado Islâmico decidiu encenar agora os seus ataques; pode ser que esteja a tentar globalizar-se para compensar a sua recente perda de território no Iraque. Mas seja qual for o fundamento, o certo é que se justifica uma resposta clara.

Na verdade, o desafio colocado pelo Estado Islâmico requer várias respostas, já que nenhuma política única parece ser suficiente. São necessários vários esforços em vários domínios.

Um dos domínios é o militar. É crítico que ocorram ataques aéreos mais intensos contra os ativos militares, instalações petrolíferas e de gás, e líderes do Estado Islâmico. Mas nenhuma quantidade de poder aéreo, por si só, conseguirá concluir o trabalho. É necessária uma substancial componente terrestre para tomar território e mantê-lo.

Infelizmente, não há tempo para construir do zero uma força de parceria no terreno. Isto já se tentou e não resultou, e os estados Árabes não parecem conseguir ou estar dispostos a constituir uma tal força. O exército Iraquiano também é insuficiente. Milícias apoiadas pelo Irão só piorariam as coisas.

A melhor opção consiste em trabalhar mais estreitamente com as tropas Curdas, e em selecionar tribos Sunitas, tanto no Iraque como na Síria. Isto significa fornecer informações, armas, e uma disposição para enviar mais soldados – mais do que os 3.500 Americanos que já lá estão, e possivelmente na ordem dos 10.000 – para treinar, aconselhar, e ajudar a dirigir uma resposta militar.

Um tal esforço deve ser coletivo. Pode ser informal – uma “coligação de interessados” que incluiria os Estados Unidos, a França, o Reino Unido, os estados Árabes, e até a Rússia, nas circunstâncias certas – ou desenvolvido sob os auspícios da OTAN ou das Nações Unidas. A embalagem importa menos que os resultados. Declarações simbólicas de guerra, no entanto, devem ser encaradas com cautela, para que o Estado Islâmico não pareça estar a ganhar em todos os dias em que não perder.

Para qualquer reposta, uma componente diplomática é não menos essencial. O Presidente Sírio Bashar al-Assad é uma ferramenta de recrutamento para o Estado Islâmico e deverá ser afastado. Mas qualquer governo que lhe suceda deve ser capaz de manter a ordem, e não permitir que o Estado Islâmico explore um vazio de poder, como fez na Líbia.

Richard N. Haass é presidente do Conselho de Relações Exteriores e atuou anteriormente para o Departamento de Estado dos Estados Unidos como diretor de Planejamento de Políticas (2001-2003). Foi enviado especial para a Irlanda do Norte e coordenador de políticas para o Afeganistão no governo do presidente George W. Bush. Seu mais recente livro é intitulado “Política externa começa em casa: o caso de como colocar a América em ordem (The Case for Putting America’s House in Order).

Além disso, uma mudança política ordeira só pode acontecer com apoio Russo e Iraniano. Uma opção de curto prazo que vale a pena explorar será um governo de coligação que seja ainda chefiado por um representante da minoria Alauita, uma concessão que bem poderia ser o preço para afastar Assad do poder. Em princípio, e ao longo do tempo, poderia aparecer um governo nacional mais representativo, embora a ideia de realizar eleições daqui a 18 meses seja fantasiosa em qualquer cenário.

Mas chegar a um compromisso de acordo com estas condições pode revelar-se impossível. É por isso que é preciso um esforço militar acrescido, para permitir a constituição de enclaves maiores e mais seguros, que possam proteger melhor os civis e levar a luta para o Estado Islâmico. De qualquer maneira, a Síria não é um país normal, e não o será durante muito tempo, se alguma vez o for. Uma Síria de enclaves e cantões é um modelo mais realista para o futuro previsível.

Outros elementos indispensáveis para qualquer estratégia eficaz incluem alargar a ajuda ou pressionar a Turquia, no sentido de fazer muito mais para estancar o fluxo de recrutas para o Estado Islâmico. E a Turquia, bem como a Jordânia e o Líbano, precisam de mais assistência financeira, já que assumem o grosso do fardo dos refugiados. Os líderes Árabes e Muçulmanos podem fazer a sua parte, insurgindo-se para desafiar a visão do Estado Islâmico e retirar legitimidade ao seu comportamento.

Também existe uma dimensão doméstica para a política. A segurança interna e a aplicação da lei – aumentando a proteção tanto nas fronteiras como dentro delas – deverão ajustar-se à ameaça acrescida. Os terroristas – indivíduos ou pequenos grupos que levam a cabo ataques armados contra alvos frágeis em sociedades abertas – são extremamente difíceis de enfrentar. A ameaça e a realidade dos ataques obrigarão a uma maior resiliência social, e muito possivelmente a um reequilíbrio entre a privacidade individual e a segurança coletiva.

O que também é necessário é uma dose de realismo. A luta contra o Estado Islâmico não é uma guerra convencional. Não podemos erradicá-lo ou destruí-lo em breve, já que é tanto uma rede e uma ideia, como é também uma organização e um estado de facto que controla território e recursos.

Na verdade, o terrorismo é e continuará a ser um dos flagelos desta era. As boas notícias, todavia, são que a ameaça colocada pelo Estado Islâmico ao Médio Oriente e ao resto do mundo pode ser dramaticamente reduzida através de uma ação sustentada e concertada. A principal lição do ataque sobre Paris é que devemos estar preparados para agir simultaneamente sobre o tempo e o espaço.

(Artigo publicado originalmente no site Project SyndicateLink externo)

Ponto de vista

A nova série swissinfo.ch acolhe doravante contribuições exteriores escolhidas. Tratam-se de textos de especialistas, observadores privilegiados, a fim de apresentar pontos de vista originais sobre a Suíça ou sobre uma problemática que interessa à Suíça. A intenção é enriquecer o debate de ideias.

As opiniões expressas nesses artigos são da exclusiva responsabilidade dos autores e não refletem necessáriamente a opinião de swissinfo.ch. 

Tradução de António Chagas

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR