The Swiss voice in the world since 1935

Ex-presidentes do Fed denunciam ataque contra independência do banco central

afp_tickers

Os ex-presidentes do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos), criticaram, em uma declaração conjunta, a investigação criminal contra seu atual dirigente, Jerome Powell, que consideraram uma tentativa de “minar” a independência do órgão. 

“A investigação criminal contra o presidente do Federal Reserve, Jay Powell, é uma tentativa sem precedentes de usar ataques processuais para minar a independência” da instituição, que define a política monetária americana, diz a declaração também assinada por outros ex-funcionários de alto escalão do setor econômico.

Entre os signatários estão os ex-presidentes do Fed Alan Greenspan, Ben Bernanke e Janet Yellen. 

Powell informou no domingo que a instituição recebeu uma intimação do Departamento de Justiça e enquadrou a decisão na campanha de pressão do presidente Donald Trump. 

Em comunicado, o atual dirigente disse que o banco central recebeu na sexta-feira intimações relacionadas a seu depoimento no Senado em junho, quando falou sobre um grande projeto de reforma dos prédios do Fed. 

Ele, no entanto, minimizou a possível ameaça de uma acusação penal por seu depoimento ou pelo projeto em si. 

“A ameaça de acusações penais é consequência de o Federal Reserve fixar as taxas de juros com base em nossa melhor avaliação do que atende ao público, em vez de seguir as preferências do presidente” Trump, afirmou Powell no comunicado. 

Para o dirigente do banco central americano, a intimação ocorre em meio às pressões do mandatário republicano sobre a instituição para que reduza drasticamente as taxas de juros, enquanto a inflação segue acima da meta de 2%. 

Trump criticou Powell diversas vezes, chamando-o de “cabeça oca” ou “imbecil”. 

Nesta segunda-feira, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse à Fox News que Powell “demonstrou que não é muito bom no que faz”. 

“Quanto a saber se ele é um criminoso, essa é uma resposta que o Departamento de Justiça terá que encontrar”, afirmou.

– Jogo perigoso –

Para David Wessel, pesquisador da Brookings Institution, “Trump percebeu que os americanos estavam preocupados com o custo de vida e faz tudo o que é possível para demonstrar que busca melhorar as coisas”, em particular por meio da promessa de juros mais baixos.

Se Trump conseguir influenciar o Fed, a economia dos Estados Unidos poderá experimentar “mais inflação, e a disposição dos investidores globais de emprestar dinheiro ao Tesouro diminuirá em certa medida”, disse Wessel à AFP, em alusão a rendimentos mais baixos dos títulos da dívida da maior potência mundial.

É um jogo perigoso, avaliou o especialista, na medida em que os mercados, assim como o próprio Partido Republicano, podem se rebelar. 

Apesar das preocupações geradas pela investigação, os índices da Bolsa de Nova York fecharam em níveis recorde nesta segunda. 

“O fato de as expectativas de inflação do mercado terem permanecido calmas indica que os mercados estão descartando a investigação como tendo pouco ou nenhum impacto sobre a independência do Fed”, disse Bernard Yaros, economista-chefe para os Estados Unidos na Oxford Economics. 

O Fed, independente, tem um duplo mandato: manter a estabilidade dos preços e o desemprego baixo. Sua principal ferramenta é o estabelecimento de uma taxa de juros de referência que tem influencia no preço dos títulos do Tesouro americano e nos custos de endividamento.

– Tensões entre republicanos –

Vários parlamentares republicanos começaram a manifestar publicamente sua desaprovação sobre esta situação, em um partido governista que, até o momento, ofereceu pouca resistência às iniciativas da Casa Branca.

“Os riscos são altos demais para ignorarmos: se o Federal Reserve perder sua independência, a estabilidade de nossos mercados e da economia como um todo sofrerá”, escreveu a senadora do Alasca Lisa Murkowski no X.

Assim como seu colega Tom Tillis, ela também adverte que não apoiará um candidato de Trump para o cargo no Fed enquanto este assunto persistir.

O chefe de Estado deve anunciar o nome da pessoa que deseja como sucessor de Powell, cujo mandato à frente do banco central termina em maio.

Desde que voltou ao poder em janeiro de 2025, Trump vem defendendo os cortes de juros para reduzir os custos de endividamento e sustentar o crescimento. O magnata considera infundados os temores sobre a inflação.

bys/mlm/mr/val/mvl/mel/yr/mvv/ic/rpr

Mais lidos

Os mais discutidos

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR