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Vista do porto do Reno em Basileia
Agitação colorida no Triângulo das Três Nações: o porto de Basileia-Kleinhüningen em julho de 1965. ETH-Bildarchiv

A maior parte das mercadorias comercializadas no mundo viaja por mar. Embora não tenha acesso direto ao oceano, a Suíça está integrada às rotas globais do comércio marítimo por meio do rio Reno. Nesse cenário, o porto do Reno na Basileia desempenham um papel estratégico: por eles passam cerca de 10% de todas as importações do país.

swissinfo.ch publica regularmente artigos provenientes do blog do Museu Nacional da SuíçaLink externo, dedicados a assuntos históricos. Esses artigos estão sempre disponíveis em alemão e, geralmente, também em francês e inglês.

Já na Antiguidade, o Reno era uma importante via de transporte e circulação. A forma como as embarcações navegavam rio acima e rio abaixo mudou significativamente ao longo do tempo. Utilizavam-se remos e velas, praticava-se o transporte por jangadas, empregava-se o impulso com vara – técnica em que uma embarcação era empurradaLink externo para a frente com uma longa vara apoiada no leito do rio -, bem como o reboqueLink externo a partir da margem, no qual pessoas, animais ou máquinas puxavam as embarcações.

A invenção da máquina a vapor, no século 19, permitiu, com o navio a vapor, uma forma de deslocamento independente do vento e das condições climáticas. Naquela época, o Reno ainda apresentava um curso bastante sinuoso: pequenas ilhas emergiam do rio, e as cheias alteravam repetidamente a paisagem. As obras de correção e retificação do rio tinham como objetivo fixar o Reno em um leito permanente para favorecer a navegação.

Até hoje, a base jurídica da navegação no Reno é o Ato Revisado de Navegação do Reno, assinado em 1868, conhecido como Ato de Mannheim. Esse acordo de direito internacional garante a livre navegação no rio. A guardiã desse tratado é a Comissão Central para a Navegação do Reno (ZKR, na sigla em alemão). Atualmente, fazem parte da comissão os Países Baixos, a Alemanha, a Bélgica, a França e a Suíça. A ZKR remonta ao Congresso de Viena de 1815, e é considerada a mais antiga organização internacional ainda em funcionamento no mundo.

O primeiro comboio rebocado, composto pelo rebocador a vapor «Johann Knipscheer IX» e pela barcaça «Christina», chegou a Basileia a 2 de junho de 1904.
A 2 de junho de 1904, chegava à Basileia o rebocador a vapor “Johann Knipscheer IX” com a barcaça de carga “Christina”. Hafenmuseum Basel
o navio de navegação interior «Säntis»
Na década de 1920, o motor diesel fez a sua entrada na navegação no Reno: o navio de carga a motor “Säntis” junto a Kaub, com o castelo de Pfalzgrafenstein (em baixo) e o castelo de Gutenfels (em cima) ao fundo, em 1929. Swiss Ships/MB Archiv

O primeiro comboio de reboque chega a Basileia

Até o início do século 20, o trecho do Alto Reno entre Estrasburgo e Basileia era considerado intransitável para a moderna navegação de grande porte. Rudolf Gelpke (1873–1940), engenheiro da Basiléia, contestou essa avaliação e publicou, em 1902, o estudo “A extensão da navegação de grande porte no Reno de Estrasburgo a Basileia”. Um ano depois, apresentou a prova prática ao navegar com o navio a vapor de hélice Justitia até a Ponte Central (Mittlere Brücke).

Em 1904, o primeiro comboio de reboque chegou a Basileia, composto pelo rebocador a vapor Knipscheer 9 e pela barcaça rebocada Christina, carregada com 300 toneladas de carvão. A navegação por reboque, na qual uma embarcação motorizada puxa uma ou mais barcaças de carga, era amplamente utilizada no Reno. Depois da Basileia ter contado, até o século 19, apenas com simples pontos de atracação e transbordo, iniciou-se, em 1906, a construção do primeiro porto fluvial no bairro de St. Johann. Atualmente, nesse local encontra-se o campus da empresa química Novartis.

Guindastes de transbordo no Reno
No porto de St. Johann, as gruas transferem as mercadorias dos navios para os vagões de mercadorias, em 1919. Wikimédia, Schweizerische Rheinhäfen
Carregamento de carvão num porto do Reno
Até à década de 1960, os grandes armazéns de carvão dominavam o porto de Basileia-Kleinhüningen. CFF Historic

Ampliação dos portos do Reno para uma grande variedade de mercadorias

O aumento do transporte de mercadorias tornou necessária a ampliação das instalações portuárias. A partir de 1919 teve início a escavação do porto de Basel-Kleinhüningen; entre 1936 e 1941 foram construídas as instalações portuárias de Birsfelden e o porto de Auhafen, em Muttenz. Pelo Reno chegavam a Basileia cereais, carvão, cascalho, fertilizantes, produtos químicos, petróleo e diversos outros produtos.

Essa diversidade refletia-se na infraestrutura portuária. Foram construídos silos para cereais, depósitos livres para carvão, guindastes portuários, estradas, linhas ferroviárias da ferrovia portuária, parques de armazenamento de combustíveis e a central de controle da área portuária para monitorar a movimentação das embarcações. À navegação era atribuída grande importância para o abastecimento nacional. Em 1941, o Conselho Federal (n.r.: o corpo de sete ministros que governa o país e forma o Poder Executivo)decidiu, com base no direito de emergência em tempos de guerra, adquirir navios de alto-mar – a Suíça tornou-se uma nação marítimaLink externo.

Paralelamente, desenvolveu-se a navegação de passageiros na Basileia, e a região da fronteira tríplice transformou-se, na década de 1950, em um destino popular para excursões. Com o aumento da importação de bens de consumo, um número cada vez maior de navios porta-contêineres passou a chegar a Basileia a partir da década de 1980. Os contêineres tornaram-se o símbolo do transporte global de mercadorias e possibilitaram a movimentação eficiente entre navio, ferrovia e caminhão. A Basileia desenvolveu-se como um importante ponto de conexão do eixo de transporte Norte–Sul entre Roterdã e Gênova.

Responsável pela torre de controlo de um porto do Reno
O manuseamento de mercadorias exige grande capacidade de coordenação: um funcionário portuário numa central de comando em Basileia-Kleinhüningen, em 1966. ETH-Bildarchiv

O porto e as pessoas que o mantêm em funcionamento

Inúmeras pessoas e diferentes profissões garantem que a navegação no Reno e as operações portuárias funcionem ininterruptamente, vinte e quatro horas por dia. Como os navegantes do Reno frequentemente permaneciam semanas em viagem, conciliar a profissão com a vida familiar representava um grande desafio. Muitos de seus filhos passaram parte da infância no Lar para Filhos de Navegantes da Basileia.

Crianças que observam a agitação num porto do Reno
Em 1959, as crianças observam o que se passa na doca n.º 1 do porto de Kleinhüningen. CFF Historic
Duas crianças ao lado de um barco num porto do Reno
Crianças a brincar em frente ao barco a motor «Lällekönig» no porto de Basileia-Kleinhüningen, 1955. ETH-Bildarchiv

A partir de 1939, quem desejava construir sua carreira profissional no Reno realizava a formação de marinheiro, a bordo do navio-escola Leventina. Essa formação era reservada aos jovens do sexo masculino; disciplina militar e uso de uniforme faziam parte do programa, assim como aulas teóricas e práticas, educação física, natação, culinária, além do aprendizado de francês e holandês.

A profissão de navegante frequentemente marca toda uma vida, e muitos marinheiros permanecem ligados entre si por meio de associações, do Clube dos Marinheiros, da revista Flaschenpost (mensagem na garrafa, em tradução livre), da Associação dos Navegantes ou do Coral dos Marinheiros.

Vídeo “Como se tornar um marinheiro?”, exibido no programa “Zytglogge” de 9 de junho de 1961, a bordo do navio-escola “Leventina” (YouTube/Arquivo da SRF):

Conteúdo externo

As funções dos portos estão em constante transformação. Enquanto os grandes depósitos de carvão desapareceram e a participação do petróleo vem diminuindo, ganham importância a economia circular, a logística digitalmente integrada e as fontes alternativas de energia. Há muito tempo, mulheres também ocupam o comando das embarcações como capitãs.

O patrimônio náutico da Suíça pode ser observado especialmente no bairro de Kleinhüningen, na Basileia. Além da intensa atividade portuária, encontram-se ali o Museu do Porto, edificações impressionantes, restaurantes e tabernas portuárias com nomes como “Âncora Enferrujada”, “Navio” e “Adega do Marinheiro”.

Ainda hoje, a Suíça permanece ativa na navegação do Reno. Em 2026 e 2027, o país exerce a presidência da Comissão Central para a Navegação do Reno, tornando-se, de certo modo, a guardiã do Ato de Mannheim.

Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

Jean-Luc Rickenbacher é historiador e curador do Museu dos Transportes em Lucerna.

Link para o artigo original publicado no blog do Museu Nacional SuíçoLink externo

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