Pesquisa liga ajuda suíça à chegada de ex-SS ao Brasil
Uma pesquisa do historiador suíço Peter Hug revela que ao menos 16 ex-integrantes da Waffen-SS foram incluídos em uma operação humanitária suíça que levou suábios do Danúbio ao Brasil depois da Segunda Guerra Mundial.
Atravessar o Atlântico em uma jornada de cerca de 10 mil quilômetros até o Brasil era uma empreitada longa, cara e difícil. Para cerca de 2.500 pessoas conhecidas como suábios do Danúbio, porém, a travessia tornou-se uma oportunidade de um novo começo. De origem e língua alemãs, essas pessoas haviam vivido durante gerações no que então era a Iugoslávia, mas, a após a Segunda Guerra Mundial, enfrentaram represálias, expropriações e expulsões, depois que parte da comunidade ter colaborado com o regime nazista.
Entre aqueles que decidiram deixar a Europa rumo ao Brasil estavam, contudo, pelo menos 16 ex-membros da Waffen-SS, o braço paramilitar do Partido Nazista, cujas unidades estiveram envolvidas em crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Esses homens não chegaram ao país sul-americano por conta própria. Vieram como beneficiários de uma operação humanitária suíça que mobilizou a Igreja Católica, organizações não governamentais e recursos do governo suíço, a fim de estabelecer uma nova colônia no estado brasileiro do Paraná, no sul do país.
“Sabia-se que criminosos de guerra nazistas estavam deixando a Europa pelas chamadas rotas de fuga, e era evidente que havia ali [dentro do projeto] homens que eram nazistas e membros da SS. Mesmo assim, ninguém fez perguntas”, afirma Peter Hug, historiador suíço especializado nas relações da Suíça com a Alemanha nazista e autor de Humanitäre Hilfe der Schweiz für SS-Kriegsverbrecher (Ajuda Humanitária Suíça a Criminosos de Guerra da SS), livro que revela essa história.
Publicada em maio de 2026, sua pesquisa documenta a presença de pelo menos 16 ex-membros da Waffen-SS entre os colonos enviados ao Brasil e reconstrói como organizações humanitárias e autoridades suíças ajudaram a viabilizar o reassentamento deles.
“Para a Suíça e o Vaticano, essa população tornou-se uma oportunidade de se apresentarem como defensores dos refugiados, depois de a Suíça ter estado muito próxima do regime alemão e de a Igreja nunca ter protestado formalmente contra os crimes nazistas. O fato de haver criminosos entre eles acabou sendo considerado menos importante”, acrescenta.
A criação da colônia, chamada Entre Rios, também afetou as populações que já viviam e trabalhavam nas fazendas destinadas aos europeus. Essas pessoas acabaram marginalizadas dentro da nova estrutura social, em meio à tentativa dos líderes do assentamento de preservar uma suposta superioridade cultural alemã.
Operação envolvendo vários atores
A operação que levou ex-membros da Waffen-SS ao Brasil começou a tomar forma nos anos imediatamente posteriores à guerra, por meio de uma articulação entre representantes da Igreja Católica na Áustria e no Vaticano e um grupo de suábios do Danúbio ligados ao antigo Estado Ustasha na Croácia, um Estado-fantoche fascista que existiu de 1941 a 1945.
“A ideia partiu de sacerdotes croatas próximos dos alemães e de Andreas Rohracher”, afirma Hug, referindo-se ao então arcebispo de Salzburgo e uma das figuras mais influentes da Igreja Católica austríaca, que, segundo Hug, era próximo do austrofascismo, o regime autoritário católico-conservador que governou a Áustria de 1934 a 1938.
“A partir de 1945, eles queriam criar assentamentos fechados para os suábios do Danúbio, onde a ideia de uma superioridade cultural alemã pudesse ser preservada mesmo depois da derrota na guerra”, afirma.
O projeto ganhou impulso com o envolvimento da Caritas, organização humanitária católica sem fins lucrativos com sede em Lucerna. Segundo Hug, a organização tinha uma vantagem fundamental: fazia parte de uma rede católica com presença global e capaz de abrir portas em diferentes países. “Foi uma operação gigantesca, que precisava ser coordenada globalmente em dois continentes”, afirma.
A dimensão do empreendimento, contudo, acabou superando a capacidade da Caritas. A partir de 1950, o projeto passou para as mãos da Schweizer Europahilfe, ou Ajuda Europeia Suíça, uma organização próxima do governo. Com ela vieram a diplomacia suíça, recursos e um envolvimento mais direto das autoridades do país na operação que acabaria escolhendo o interior do estado brasileiro do Paraná como destino.
A mudança não foi meramente administrativa. Na avaliação de Hug, o projeto se tornou uma operação que combinava interesses humanitários, diplomáticos e econômicos da Suíça. “O projeto começou no interior da Igreja Católica. Depois eles tiveram grandes problemas, e então o governo suíço e essas ONGs ligadas ao governo suíço assumiram o controle”, afirma Hug.
No centro da operação estava a Cooperativa Agrária, criada em 1951 para organizar o novo assentamento. Seu primeiro presidente, Michael Moor, havia ocupado cargos de liderança em organizações econômicas da comunidade alemã no Estado Ustasha da Croácia, aliado dos nazistas, e teve influência na escolha das terras e dos primeiros grupos enviados ao Brasil.
Colônia e sua memória coletiva
“Essas famílias viviam como refugiadas e apátridas na Europa depois de terem participado ativamente da Segunda Guerra Mundial ao lado da Alemanha. A principal diferença, que devemos enfatizar, é o fato de que alguns dos homens adultos enviados com suas famílias para Entre Rios haviam lutado na guerra como membros da Waffen-SS. Isso não os impediu de entrar no Brasil”, afirma Méri Frotscher, professora de História da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) e pesquisadora da imigração alemã.
No Brasil, os suábios chegaram em um momento em que o país voltava a abrir-se à imigração europeia e foram apresentados às autoridades como refugiados e agricultores qualificados, um perfil que se adequava à política de colonização do país.
Passado que desafia a neutralidade suíça
Para Hug, mais do que revelar falhas em uma operação humanitária específica, o caso de Entre Rios põe em questão a forma como a Suíça construiu e preservou sua própria memória da II Guerra Mundial. “Somos neutros. Somos humanitários. E somos os melhores do mundo”, diz Hug ironicamente, ao descrever essa narrativa. “A ilha de paz em um mundo de caos. E isso está errado.”
Mais de sete décadas depois, essa reavaliação começa a alcançar as organizações suíças envolvidas na operação, assim como o impacto que iniciativas como a criação da colônia de Entre Rios tiveram na Suíça e sobre as populações locais.
A SWISSAID, organização suíça de ajuda ao desenvolvimento, reconhece que a perspectiva das populações locais permanece, em grande parte, inexplorada e afirma estar procurando seus descendentes para conhecer o outro lado da história. “Atualmente, estamos no processo de estabelecer contato com os descendentes das comunidades afetadas na época”, afirmou a organização em declaração à Swissinfo.
A SWISSAID argumenta que essa reavaliação histórica não deve se restringir às organizações humanitárias. “Resta saber como essa história pode ser contada a partir de uma perspectiva do Sul. Talvez, e esperamos que sim, [o governo suíço] se interesse em confrontar essa parte da história.”
A Caritas Suíça também reconhece agora graves falhas na operação. A organização afirma que não houve uma verificação individual dos antecedentes dos colonos selecionados e lamenta que recursos destinados a fins humanitários tenham beneficiado membros da Waffen-SS.
“Lamentamos profundamente que, por meio deste projeto, recursos destinados a fins humanitários tenham beneficiado pessoas que eram membros da Waffen-SS”, afirmou a organização em um comunicado.
A Caritas também faz uma avaliação crítica do impacto sobre a população que já vivia na região, afirmando que seus direitos e necessidades não foram considerados no planejamento. Para a Caritas, a criação de uma colônia fechada de colonos europeus estava enraizada em uma lógica colonial e hoje serve como exemplo de como a ajuda humanitária pode produzir o efeito oposto ao pretendido.
“A abordagem adotada e o estabelecimento de uma colônia fechada de colonos no Brasil após a Segunda Guerra Mundial podem servir hoje como um alerta de como a ajuda pode se transformar em seu oposto”, afirmou a organização em um comunicado.
A Cooperativa Agrária não respondeu aos pedidos de comentário.
Edição: Virginie Mangin/ts
Adaptação: Karleno Bocarro
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