Palestinos perderam o líder histórico
Yasser Arafat morreu hoje às 3:30 hs da manhã, no hospital militar de Percy, perto de Paris, onde estava hospitalizado desde 29 de outubro. Arafat tinha 75 anos.
A suíça Annick Tonti da Divisão de Ajuda ao Desenvolvimento e Cooperação (DDC), conheceu bem Arafat e afirma que “ele tinha uma profunda admiração pela Suíça”.
Entre 1994 e 2001, Annick Tonti estava em Jerusalém, encarregada de uma dupla missão: dirigia a missão da DDC – agência suíça para o desenvolvimento e a cooperação – e era representante do governo suíço junto à Autoridade Palestina.
Ela encontrou o líder palestino várias vezes e observou os paradoxos de um homem afável, charmante que raramente permitia ser interrompido por seus interlocutures.
Qual foi sua primeira reação é morte de Yasser Arafat?
Annick Tonti:Acho que como muitos palestinos. Arafat era um homem muito criticado – sobretudo na última fase da vida – mas que todos lamentam a morte.
Percebe-se, no final das contas, que ele tinha um papel importante e, de repente, desaparece. É o mesmo sentimento do povo palestino, que perdeu alguém.
swissinfo: Em sua opinião, quem vai lamentar mais a morte dele?
A.T: Inicialmente todos os palestinos e também seus maiores inimigos. É que Arafat era muito carismático e, mesmo se o detestavam, ele representava uma certa unidade do povo palestino.
Um dos meus amigos palestinos me disse: “vamos todos lamentar mas também é uma chance para a Palestina começar algo de novo”. Acho que muita gente pensa da mesma maneira na Palestina.
swissinfo: A sra. acha que poderá haver caos nos territórios palestinos?
A.T.: Em todo caso, no início não. Na sociedade muçulmana, há 40 dias de luto em que o povo palestino ficará unido. Depois, poderá haver um período de luta pelo poder e aí todas as forças que estivera um pouco ocultas poderão ressurgir.
Mas também poderá ser mantida uma aparência de unidade, em memória de Arafat, pelo menos para os exterior.
swissinfo: A sra. esteve com ele várias vezes. Que imagem a sra. conserva do líder palestino?
A.T.: Era um homem extremamente carismático, caloroso, com uma gentileza natural para receber as pessoas. Depois da primeira impressão … após uma hora de discussão, era uma pessoa que não ouvia mais ninguém e mantinha sua própria linha de pensamento.
Quando a gente ia até ele para transmitir uma mensagem, no final das contas era ele quem transmitia a mensagem dele.
A sra. tem uma lembrança especial desses encontros?
A.T.: Tenho várias, mas particularmente uma, difícil para mim. Em nome da Suíça, eu devia falar da situação dos direitos humanos nas prisões palestinas.
Ele me ouviu o tempo todo em silêncio, como uma criança que recebia uma punição. Tinha realmente a impressão que ele me olhava de maneira inferior, como se uma criança que ouve a mãe.
Quando terminei o que tinha a dizer, ele me abraçou e me disse: “oukhti (irmã, em árabe), eu escutei isso mas não que não quero mais escutar. Acabou”. Ele me disse isso com a mesma gentileza habitual.
Percebi então que, apesar de todos os meus esforços, ele havia me ouvido gentilmente… mas minha mensagem não havia passado.
O que Arafat achava da Suíça e do papel que o país desempenhava na região?
A.T.: É difícil saber, porque ele era homem de confessar seus pensamentos filosóficos nem suas opiniões, principalmente aos interlocutores estrangeiros.
Mas eu acho que ele tinha um profundo respeito pela Suíça. Ele me repetia semmpre: “Vocês podem nos compreender. Vocês também são um pouco isolados no meio da Europa, um país de línguas, culturas e religiões diferentes”.
Ele tinha uma certa admiração pelao Suíça e dizia que gostaria de tomá-la como modelo. Ele disse várias vezes que apreciava o papel que a Suíça desempenhava na região porque não tentava influenciar suas decisões mas apoiar as causas que pareciam justas.
Arafat dizia ainda que a Suíça poderia servir de modelo porque não tinha a etiqueta de antiga potência colonial.
Ele considerava a cooperação suíça na Palestina como suficientemente ativa?
A.T.: Sim. Ele sempre agradeceu e felicitou a Suíça, pequeno país que sempre esteve entre os principais doadores. Ele repetiu isso quando das visitas de delegações parlementárias e de dois ministros das Relações Exteriores, Flávio Cotti e Joseph Deiss.
Como Arafat viu a Iniciativa de Genebra?
A.T.: Inicialmente muito mal. Ele foi informado tardiamente, quando o processo já havia começado. Reagiu então como uma autoridade ignorada, ferida. Questionou
a validade de uma nova iniciativa e o fato de ter sido ignorado, quando alguns de seus ex-ministros participavam das discussões.
Apesar disso tudo, ele enviou um representante à cerimônia de lançamento da Iniciativa, em Genebra. Era uma maneira de dizer que a reconhecia, mesmo ser estar presente pessoalmente porque se sentia ofendido.
Mas a Suíça sentiu-se no dever de explicar-lhe, através do atual ministro palestino das Relações Exteriores, Nabi Chaath, que veio à Suíça e informou Arafat pessoalmente.
Depois disso, Arafat aceitou a Inicitiva de Genebra. Ele o fez, embora de maneira não muito engajada, mas sua saúde já estava em declínio.
Entrevista swissinfo: Kamel Dhif
tradução: Claudinê Gonçalves
Arafat nasceu em 24 de agosto de 1929, no Cairo.
2 anos depois da derrota na Guerra dos 6 Dias (1967), criou a Organização de Libertação da Palestina (OLP).
Em 1988, renunciou à luta armada, iniciando o processo que levou ao acordo de Oslo, em 1993.
Em 1994, ganhou o Nobel da Paz junto com o então primeiro ministro israelense Ytzhak Rabin.
– Annick Tonti (53 anos) dirige o seção Oriente Médio e África do Norte da Agência de Desenvolvimento e Cooperação do governo suíço (DDC).
– De 1983 a 1987, foi coordenadora de programas da DDC em Bangladesh.
– Em 1994 a 2000, dirigiu a representação da DDC em Jerusalém e foi representante do governo suíço junto à Autoridade Palestina.
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