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Como a conquista do direito de voto para as mulheres na Suíça mudou o mundo

Eleitores colocam suas cédulas em urnas durante a eleição para o Conselho Municipal de Tripoli, Líbia, em 6 de fevereiro de 2021. Mahmud TURKIA / AFP

Na época de avanços na luta por igualdade de direitos, a Suíça era considerada retrógrada cinquenta anos atrás. Hoje, o país alpino é visto como pioneiro na garantia dos direitos da mulher.

Este conteúdo foi publicado em 30. março 2021 - 10:00

Sebha, uma localidade no centro da Líbia e capital do distrito com o mesmo nome, entrou para a história no início de março: durante uma assembleia comunitária, os participantes adotaram pela primeira vez um plano de ação para garantir a igualdade de direitos entre mulheres e homens na política local. Rachid Khechana contou que as mulheres representavam 45% dos votantes.

De acordo com esse correspondente de longa data e colaborador regular da SWI, nas últimas semanas foram realizadas com apoio do governo suíço assembleias semelhantes em 43 outros municípios líbios, nos quais se contou também com a presença de mulheres. Após vários anos de guerra civil, representantes da política, sociedade civil e da economia concordaram recentemente, em Genebra, em forma um novo governo de transição no país: com Najla Mangouch, como ministro das Relações Exteriores, e Halima Ibrahim Abderrahmane como ministro da Justiça. Isso significa: os principais ministérios serão ocupados por mulheres, a primeira vez na Líbia.

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"Em processos de paz, é crucial que as mulheres possam participar das discussões nas mesas de negociações. Elas fazem parte da sociedade civil e são representantes das diferentes partes em conflito e atuam como mediadoras", afirma Sara Hellmüller. A suíça é pesquisadora do Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais (IHEID, na sigla em inglês), em Genebra, e organizou um fórum da sociedade civil na capital Trípoli, uma semana após a morte do ditador Muammar Al-Gaddafi, em 2011.

Hellmüller trabalhava até 2019 no instituto de pesquisa "Swisspeace" e acompanhou processos de paz em regiões de conflito como Congo, Darfur e Síria: "Por sua natureza, as mulheres não são necessariamente mais pacíficas do que os homens, mas sua identidade comum pode ter um efeito unificador e contribuir para soluções novas e mais sustentáveis", enfatiza. Ela também é membro da rede Mulheres Suíças em Processos de Paz (SWiPPLink externo), do ministério suíço das Relações Exteriores (EDA), lançado no Dia Internacional da Mulher, em 8 de março de 2021.

Quinze suíças participam da nova rede. Elas trabalham como diplomatas ou funcionárias de ONGs internacionais em diferentes partes do globo, com a missão de promover a paz. É um exemplo de como a Suíça marca seu perfil no cenário internacional como pioneira em matéria da luta pela igualdade de direitos. Por exemplo, no âmbito da Comissão da Condição Jurídica e Social da Mulher (UNCSW), onde a Suíça abordou a desigualdade salarial de gênero na sessão atual em Nova Iorque. "Os direitos das mulheres são direitos humanos. E sem direitos humanos, a paz e o desenvolvimento permanecem promessas vazias", ressaltou o embaixador Simon Geissbühler, chefe da Divisão de Paz e Direitos Humanos no EDA. A este respeito, segundo Geissbühler, a Suíça se orienta pela "Resolução 1325 da ONU", considerada o pilar global de uma política externa feminista.

Este desenvolvimento também influencia os trabalhos no EDA. Hoje, por exemplo, quatro dos seis cargos superiores no ministério - e 22 dos 111 postos de embaixador - são ocupados por mulheres. A primeira embaixadora suíça, Francesca Pometta, representava o país na Itália em 1987.

Constituinte paritária

Dentre as ONGs internacionais apoiadas pela Suíça em questões de luta pela igualdade de direitos está a IDEA internacionalLink externo. "Apoiamos as autoridades eleitorais em todo o mundo para incluir as mulheres nos processos eleitorais", explica Rumbidzai Kandawasvika-Nhudu. Originária do Zimbábue, na África, ela chefia o departamento de "Direitos Políticos e Participação Cidadã" da IDEA, da qual fazem parte 33 países fundadores. "Com a ajuda da Suíça nos engajamos na participação igualitária de mulheres e homens na política". Kandawasvika-Nhudu cita o processo constitucional no Chile como exemplo. No país sul-americano, em 11 de abril, será eleita uma constituinte formada de forma paritária: metade mulheres e metade, homens.

Em Benin, na África Ocidental, o governo suíço apoia mulheres que concorrem a cargos políticos. Ali, a proporção de mulheres eleitas para as assembleias municipais dobrou nos últimos quatro anos, como mostra um relatórioLink externo da Agência Suíça de Cooperação para o Desenvolvimento (DEZA, na sigla em alemão).

Em outros lugares, a inclusão das mulheres é ainda mais difícil: Arábia Saudita. "Em nosso país, as tradições patriarcais restringem ainda hoje as liberdades e direitos das mulheres", diz a ativista saudita Hatoon al-Fassi. Ela é professora de história da mulher na Universidade do Rei Saud, em Riad, desde 2008.

Porém a Suíça também esbarra nos seus limites ao tentar promover os direitos humanos e das mulheres em estados autoritários, apesar da sua neutralidade. "Nesses casos, é necessária muita persistência e trabalho de bastidor. Por vezes temos que unir forças com outros países para dar o bom exemplo", explica o observador de direitos humanos, Simon Geissbühler. Após a prisão de ativistas como Hatoon Al-Fassi, no outono passado, a Suíça aderiu a uma resolução no Conselho de Direitos Humanos da ONU, condenando fortemente o regime saudita.

Em última análise, mesmo uma monarquia absoluta como a em vigor na Arábia Saudita não pode escapar completamente da pressão internacional. O governo em Riad também ratificou a Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra as mulheresLink externo. "Em combinação com os princípios islâmicos de igualdade e justiça, ela nos dá alguma vantagem", ressalta Hatoon Al-Fassi, cujo país de origem introduziu o sufrágio feminino em 2015, o último país do mundo a fazê-lo.

Adaptação: Alexander Thoele

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