“Sem ETA não haveria conflito basco”
O intelectual basco Javier Elorrieta, vice-presidente da Fundação para a Liberdade, que combate o terrorismo, reúne-se nesta terça-feira (9/3) em Berna com parlamentares suíços. No mês passado, foi criado o Grupo Parlamentar Suíça-País Basco.
Elorrieta foi membro da ETA (“País Basco e Liberdade”, em língua basca) na época do franquismo (1939-1975). Ele esteve preso e exilado na França. Foi membro do Parlamento basco e cronista dos diários El País e El Mundo. Antes de vir a Berna, ele deu entrevista exclusiva, por telefone, à swissinfo.ch.
Há dez anos que Elorrieta vive sob escolta policial permanente por sua oposição ao nacionalismo. Ele afirma que, em sua terra, há 30 anos existe falta de liberdade por causa do terrorismo e um medo que provoca a fuga de muitas pessoas do País Basco.
swissinfo.ch: O que o senhor quer transmitir aos parlamentares suíços?
Javier Elorrieta: Que conheçam a realidade. O único conflito basco é a existência da ETA, sem ETA não haveria conflito. O terrorismo supõe uma grande alteração nos direitos humanos. Seus métodos e projeto foram considerados como antidemocráticos pela Corte Europeia dos Direitos Humanos em Estrasburgo, na França. Não se entende que, em uma visão democrática, se possa apoiar um grupo terrorista, o último da Europa.
Não é algo que tenha a ver com a liberdade, a autonomia ou a democracia. Estas estão plenamente garantidas pela constituição espanhola e pelo Estatuto de Guernica. Não há negociação política possível. Nenhum Estado democrático negocia politicamente com terroristas.
swissinfo.ch: Como o senhor entrou na ETA?
J.E: Foi em 1965, aos 16 anos. Eu era um rapazinho. Fazia um trabalho de propaganda e fui preso em 1968 e 1969. Depois participei da única fuga exitosa no franquismo, em Basauri. A ETA era um grupo antifranquista com posições muito radicais. Por sorte, nunca disparei contra ninguém nem fui ferido. Eu tinha uma pistola, mas só para me defender. Depois, a vida, a experiência e o conhecimento te orientam para outro caminho. A vida é um equívoco constante.
Nesses anos nunca houve um atentado mortal. O aspecto da crueldade começou com a democracia. Nos meus tempos de ETA não existiam. Só me lembro do assassinato de um chefe da polícia franquista em Guipúzcoa. Salvo este, nunca houve vontade de atentar contra ninguém. Inclusive dizia-se que não era necessária a independência, talvez uma certa autonomia. É algo que muito poucos na atual ETA sabem. E hoje é uma absoluta loucura de radicalismo.
swissinfo.ch: Nesses anos, com o regime de Franco, a ETA gozava de uma certa simpatia das pessoas. O que sobrou hoje da organização que o senhor conheceu por dentro?
J.E: Desde a chegada da democracia à Espanha, ela tornou-se uma organização terrorista, um projeto com uma ideologia nacional-socialista em que o nacionalismo prima acima de tudo. A democracia não faz parte de seus valores. Ademais, não têm suporte histórico. Exceto durante dois meses na Guerra Civil, antes da Constituição de 1978, nunca houve unidade política entre as províncias do País Basco.
swissinfo.ch: Qual é a realidade no País Basco?
J.E: Existe uma falta de liberdade evidente há 30 anos, desde que começou o terrorismo amparado no nacionalismo institucional. Há uma perseguição real dos democratas e dos não nacionalistas. Há medo e repressão, um incômodo vital. Muita gente tem que ir embora da região: jornalistas, juízes, intelectuais, empresários. O nacionalismo pretende criar uma sociedade homogênea, algo inadmissível em uma democracia e na Espanha da pluralidade e da liberdade.
swissinfo.ch: Como se vive escondido e escoltado 24 horas por dia e por tanto tempo?
J.E: As chamadas por telefone e as ameaças começaram quando escrevi artigos de opinião contrários ao nacionalismo nas edições regionais do El País e do El Mundo. A ETA matou em quatro meses dois amigos meus, um deles jornalista. Até 2001 também fui parlamentar basco. É uma situação muito incômoda, sobretudo para minha família. Tive que mudar para outra região e ter vários domicílios simultaneamente.
Agora tenho acesso direto à rua e não há latas de lixo para evitar bombas. Além disso, fico sempre em casa até que as escoltas cheguem para me pegar. Vive-se de uma maneira totalmente esquizofrênica. Não tenho carro particular para evitar riscos para a família e tenho que evitar as rotinas.
swissinfo.ch: O deputado federal suíço Joseph Zisyadis, um dos mentores do grupo parlamentar com o País Basco, disse que a Suíça poderia transmitir sua experiência em descentralização.
J.E: No país basco só dependemos da administração central para obter um passaporte e a pensão de aposentado. Não tenho mais contato com o governo central. Somos uma confederação autônoma e temos uma autonomia quase infinita. Contamos com nossa própria polícia, que depende do Executivo basco, e duas línguas oficiais, além de administrar nossos próprios impostos.
O norte-irlandês John Hume, que recebeu o Nobel da Paz por seus esforços para resolver o conflito na Irlanda do Norte, disse-nos que não encontrava em lugar nenhum o chamado conflito em nossa terra.
Iván Turmo, swissinfo.ch
(Adaptação: Claudinê Gonçalves)
O Grupo Parlamentar Suíça-País Basco foi criado em janeiro passado. Ele é presidido pelos deputados federais Joseph Zisyadis (Partido do Trabalho) e Daniel Vischer (Partido Verde).
“Este grupo de amizade entre a Suíça e o País Basco tem como finalidade reforçar os laços entre ambos os territórios e contribuir para uma solução pacífica do conflito basco”, explicou Zisyadis à swissinfo.ch.
Depois da criação do grupo, a Fundação para a Liberdade (de luta contra o terrorismo) enviou uma carta ao Parlamento e ao governo suíços, em que expressava sua inquietude e advertia para “os perigos desse grupo, impulsionado por Batasuna, partido separatista basco muito próximo do grupo terrorista ETA”.
Membro da ETA de 1965 até 1971. Preso em 1968 e 1969.
Seis anos de exílio na França até 1977, quando foi aprovada, em outubro, a última anistia geral que libertava os últimos presos políticos do regime franquista.
Vice-presidente da Fundação para a Liberdade. Em 2009, Elorrieta, em nome da fundação, denunciou na ONU, em Genebra, “a violência da perseguição do terrorismo de ETA-Batasuna”.
No próximo 12 de março, a fundação pedirá diante do Conselho dos Direitos Humanos na ONU, em Genebra, a nomeação de um relator especial para proteger os direitos humanos e as liberdades fundamentais nas sociedades ameaçadas pelo terrorismo.
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