Transição é arriscada no Iraque
O presidente Barack Obama anunciou terça-feira (31), em Washington, que estavam oficialmente encerradas as operações de combate de tropas norte-americanas no Iraque. Cumpria assim sua promessa de campanha, pois tinha sido contra a guerra nesse país.
O cientista político suíço, Hasni Abidi, em entrevista à swissinfo.ch, sublinha as fragilidades e as ambiguidades dessa transição.
Sete anos depois da invasão abusivamente justificada pela guerra contra Al-Qaïda, mas que permitiu derrubar a ditadura de Saddam Hussein, o exército norte-americano encerra oficialmente suas operações de combate no Iraque. A transição solene foi anunciada terça-feira (31) pelo presidente dos Estados Unidos.
Cinquenta mil soldados permanecem no Iraque para “aconselhar e ajudar” o exército iraquiano. Segundo o calendário anunciado por Barack Obama quando assumiu o cargo, eles também deverão partir no final de 2011.
Cientista político especialista do mundo árabe, Hasni Abidi dirige o Centro de Estudos e Pesquisa sobre o Mundo Árabe e Mediterrâeno (Cermam), em Genebra. Ele sublinha os desafios que terão pela frente a república iraquiana, agora com sua soberania restaurada.
swissinfo.ch: O que significa esse anúncio do presidente Obama? Isso trará uma mudança real no Iraque?
Hasni Abidi: O presidente Obama respeita assim o compromisso que assumiu no início de seu mandato. Sua administração chegou à conclusão que uma presença mais duradoura no Iraque não mudaria a política no Iraque, um país que não é mais uma ameaça para a segurança dos Estados Unidos. O Afeganistão tornou-se uma prioridade mais importante.
Mas os Estados Unidos mantém importantes bases militares e 50 mil soldados no país, ou seja, quase 25% dos efetivos do exército iraquiano. De fato, eles continuarão sem dúvida a participar de operações de combate.
swissinfo.ch: Os partidos iraquianos têm meios e vontade de se expandir ou os riscos de implosão do país continuam grandes?
H.A.: Visto desse ângulo, o anúncio do presidente Obama pode ser interpretado com errôneo porque o governo iraquiano encarregado de administrar essa transição não tem legitimidade para isso. Cinco meses depois das eleições, não há um novo governo e as negociações entre as diferentes facções estão paradas. Esse retirada das tropas norte-americanas é um vitória porque o Iraque retoma sua independência, mas tem um gosto amargo.
swissinfo.ch:Não existe nas forças políticas iraquianas a vontade assumir o destino do país?
H.A.: Alguns consideram que com os norte-americanos, os iraquianos não conseguiram formar um governo. A população está cada vez mais decepcionada e começa a perder a paciência e a confiança na democracia, embora as eleições tenham ocorrido sem problemas.
A esperança é, portanto, que a retirada de Washington incite as forças políticas iraquianas a se entenderem para assumir o destino do país. Mas o páreo é arriscado porque só os Estados Unidos tinham capacidade de influenciar as principais forças políticas, sejam curdas, xiitas ou sunitas, evitando a implosão do país. Esse risco é real.
Um exemplo é que o governo do Curdistão iraquiano está assinando acordos com companhias estrangeiras para a exploração de petróleo e gás. Isso, contra a vontade de Bagdá.
swissinfo.ch:A economia iraquiana está crescendo? Existe uma classe média emergente?
H.A.: Os Estados Unidos apostaram muito no desenvolvimento do empresariado no Iraque. Mas, dadas as condições de insegurança e instabilidade entre a classe dirigente, a criação de uma economia real – afora o setor petroleiro – ainda vai levar muito tempo.
Mesmo assim, o nível de vida de uma parte da população melhorou, embora o Estado seja praticamente o único criador de empregos. A taxa de desemprego é muito alta, com um êxodo cada vez maior de pessoas competentes.
swissinfo.ch:A democratização do país depois da queda de Saddam Hussein permitiu a emergência de uma sociedade civil iraquiana?
H.A.:Há um início de democracia no Iraque, é inegável. O país tem uma constituição pluralista como, por exemplo, cotas para minorias religiosas e a representação das mulheres. É único no mundo árabe.
A sociedade civil iraquiana existe, como a tentativa de garantir uma justiça independente que possa, entre outras, sancionar a corrupção endêmica no país.
As eleições de 2005 e de 2010 mostraram um alto grau de maturidade política da população iraquiana. Mas essa aspiração democrática da população está em total decalagem com as principais forças políticas, muito dogmáticas e próximas dos mentores iraquianos, que são os sauditas e outros.
swissinfo.ch : As conversações entre israelenses e palestinos começam amanhã (2) em Washington. Existe uma coordenação no Oriente Médio, uma estratégia global tem o Irã na linha de mira?
H.A.: É verdade que calendário é interessante. Enquanto uma transição importante começa no Iraque, dois dias depois começam negociações entre israelenses e palestinos. Washington também anunciou que quer reforçar as sanções contra o Irã.
Se houver um ataque militar contra o Irã, as milícias sob influência iraniana no Iraque certamente atacariam as tropas norte-americanas. Então é melhor ter 50 mil soldados no Iraque do que 150 mil.
O paradoxo, aliás, é ver responsáveis sunitas – fervorosos defensores da partida dos norte-americanos – pedindo que eles fiquem. Certos líderes políticos temem os vizinhos, sobretudo o Irã, que poderia aproveitar do vazio provocado pela partida das tropas norte-americanas.
Frédéric Burnand, Genève, swissinfo.ch
(Adaptação : Claudinê Gonçalves)
Defendidos pelos diplomadas norte-americanos até 1914 e, a partir de 1936 por um consulado suíço em Bagdá, os interesses helvéticos no Iraque foram modestos até 1950.
No plano diplomático, a Suíça a Suíça representa os interesses da Alemanha no Iraque de 1939 a 1945, os interesses do Iraque nos países do Eixo ou ocupados, os da França (1956-1963), dos do Iraque na Alemanha Ocidental (1965-1970).
Desde o final dos anos 1950, empresas suíças se instalam no Iraque. As exportações suíças passam de 25,5 milhões de francos em 1970 a 680,4 em 1982.
Dese 1961, a administração federal autoriza vendas de material de guerra. Ela posteriormente é acusada de não controlar essas exportações utilizadas pelo regime de Saddam Hussein, notadamente contra os curdos.
Depois da invasão do Koweit pelo Iraque, o governo federal adere às sanções econômicas decididas na ONU.
Em 2003, o Iraque foi invadido por uma coalizão dirigida pelos Estados Unidos. Como a maioria dos membros da ONU, a Suíça não apóia a invasão, o que suscita divergências entre Berna e Washington.
Aberto em novembro de 2000, o escritório de ligação da Suíça em Bagdá coordena as atividades humanitárias e favorece as trocas com um país de forte potencial econômico, apesar das destruições causadas por mais de 20 anos de conflitos internacionais e internos.
Fonte: Dicionário histórico da Suíça
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