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O acordo comercial visto sem o filtro europeu

Bois no curral
Gado no Mercado Agrícola de Canuelas, Argentina, em 14 de janeiro de 2026. EPA/MATIAS MARTIN CAMPAYA

Às vezes, a melhor forma de entender um debate europeu é olhar para ele de fora. Nesta semana, a imprensa suíça francófona fez exatamente isso ao dar voz ao olhar latino-americano sobre o acordo UE–Mercosul.

Além disso, outros temas que ocuparam as manchetes na semana falam do cinema brasileiro, com prêmios e discussão política. Leia o artigo abaixo.

Revolta dos agricultores franceses vista dos países do Mercosul

Publicado no Le Temps, o jornal mais conceituado da Suíça francófona, o artigo do correspondente Jean-Claude Gerez analisa como os países da América Latina percebem o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul. O texto parte da iminente assinatura do tratado – negociado por mais de 25 anos – e observa que, do outro lado do Atlântico, as reações combinam a rejeição ao protecionismo europeu com a atenção às preocupações expressas por agricultores franceses, amplamente noticiadas pela imprensa sul-americana.

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Segundo o artigo, os meios de comunicação do Mercosul retrataram de forma factual as manifestações dos agricultores franceses, frequentemente associadas a imagens simbólicas de revolta, mas interpretadas como uma tentativa de erguer barreiras protecionistas. Economistas latino-americanos, como Marcela Cristini, ressaltam que os governos do bloco são majoritariamente favoráveis ao acordo e contestam a tese de “concorrência desleal”, argumentando que as diferenças decorrem de estruturas de custo mais eficientes, e não de padrões produtivos inferiores.

Agricultores franceses protestando
Agricultores franceses de sindicatos da agricultura e da indústria leiteira protestam contra o acordo UE-Mercosul, em frente à sede da Lidl, no subúrbio de Chatenay-Malabry, a sudoeste de Paris, em 15 de janeiro de 2026. EPA/MOHAMMED BADRA

Gerez destaca ainda que, na visão latino-americana, o acordo não beneficia apenas o Mercosul. A abertura comercial também facilitaria a exportação europeia de automóveis, máquinas, produtos químicos e farmacêuticos, além de favorecer setores agrícolas específicos – como vinhos, bebidas alcoólicas e queijos franceses – com a redução progressiva de tarifas. Essa leitura relativiza a narrativa de perdas unilaterais difundida por parte dos agricultores europeus.

Por fim, o artigo mostra que, dentro do próprio Mercosul, há divisões. Grandes produtores de monoculturas e criadores de gado tendem a apoiar o tratado, enquanto sindicatos rurais e movimentos como a Via Campesina alertam para riscos à agricultura familiar, à soberania alimentar e ao meio ambiente. No Brasil, em especial, o texto associa o aumento dos preços dos alimentos à priorização das exportações, sugerindo que a ampliação do acordo pode aprofundar tensões sociais e ambientais se não houver salvaguardas adequadas.

Fonte: Le Temps, 16/01/2026Link externo (francês) 

No Brasil, um homem que enfrenta tratamento arbitrário

Publicado no Le Temps, o artigo do jornalista cultural Norbert Creutz relata como O Agente SecretoLink externo, de Kléber Mendonça Filho, conquistou o prêmio de Melhor Filme Internacional no Globo de Ouro, após já ter sido amplamente reconhecido no Festival de Cannes. Creutz destaca o filme como uma obra de extraordinária complexidade formal e política, que revisita a ditadura militar brasileira com vigor estético, combinando realismo social, thriller, cinema de gênero e uma forte paixão cinéfila.

Segundo o texto, o longa se constrói como um thriller metafórico ambientado em 1977, acompanhando um pesquisador perseguido pelo aparelho repressivo do regime enquanto busca refúgio no Recife carnavalesco. A narrativa entrelaça violência, corrupção policial, paranoia política e imagens simbólicas – como cadáveres abandonados e lendas urbanas – para retratar um país onde ditadura e festa, realidade e delírio, convivem de forma inquietante. O autor ressalta a ambição do diretor em fundir múltiplas camadas narrativas, referências ao cinema dos anos 1970 e comentários contemporâneos sobre autoritarismo e poder.

Mulher e homem. Este segurando um troféu
Kleber Mendonça Filho (à direita) recebendo o prêmio de Melhor Ator em nome do ator Wagner Moura pelo filme “O Agente Secreto” das mãos de Rossy De Palma (à esquerda) durante a cerimônia de encerramento e premiação do 78º Festival de Cinema de Cannes, em Cannes, França, em 24 de maio de 2025. EPA/CLEMENS BILAN

Creutz conclui que o triunfo internacional do filme confirma Kléber Mendonça Filho como um cineasta de maturidade plena, capaz de transformar o próprio cinema em instrumento de resistência política e memória histórica. Mesmo longo, o filme se impõe pelo domínio formal e pelo impacto emocional, reafirmando a relevância do cinema brasileiro no debate global sobre democracia, violência de Estado e esquecimento coletivo.

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Homem com criança no colo assiste desfile militar

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Cultura

Festival exibe filmes que não são mais possíveis no Brasil

Este conteúdo foi publicado em O cinema brasileiro encontra-se em um momento de alta exposição internacional, unindo a maturidade técnica ao tratamento crítico de temas urgentes da conjuntura atual. Os brasileiros estão em Cannes, em Berlim, em Locarno, no Oscar, e seus realizadores aproveitam os holofotes para chamar a atenção internacional para o desmonte paulatino das instituições democráticas no país.…

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Fonte: Le Temps, 14/01/2026Link externo (francês)

Ascensão da China na América Latina é incomparável

Publicado no NZZ, o mais conceituado jornal da Suíça germanófona, o texto assinado por três jornalistas analisa de forma detalhada a ascensão da China na América Latina e a crescente rivalidade geopolítica com os Estados Unidos na região. A análise parte do pressuposto de que a América Latina se tornou estratégica para ambas as potências e argumenta que Washington, mesmo sob uma eventual volta de Donald Trump, não conseguirá simplesmente “expulsar” Pequim do continente.

O artigo mostra como, ao longo de mais de quinze anos, a China substituiu os EUA como principal parceiro comercial de países-chave como Brasil, Chile e Argentina, ampliando simultaneamente investimentos, crédito estatal e presença em infraestrutura. A relação baseia-se em uma troca estrutural: exportação latino-americana de commodities – petróleo, soja, cobre e lítio – em troca de bens industriais, tecnologia e grandes projetos logísticos, muitos deles vinculados à Iniciativa do Cinturão e Rota. Esse movimento reforçou a interdependência econômica regional com Pequim.

Ministros posando para uma foto
Representantes dos países dos BRICS posando para uma foto durante a reunião dos Ministros das Relações Exteriores do BRICS no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, Brasil, em 28 de abril de 2025. EPA/ANDRE COELHO

Os autores destacam que a disputa se intensifica no controle de recursos estratégicos e da logística. A América do Sul concentra reservas essenciais para a transição energética e a economia digital, como cobre e lítio, além de petróleo. A participação chinesa em minas, portos e corredores de transporte – incluindo projetos no Peru, no Brasil e no entorno do Canal do Panamá – é vista em Washington como um risco geoestratégico, sobretudo pelo envolvimento de empresas estatais alinhadas às diretrizes políticas de Pequim.

Por fim, o texto sustenta que, embora os EUA ainda mantenham forte influência financeira na região, a China avançou rapidamente como fonte de crédito e investimento direto. A análise conclui que a reação americana foi tardia e que a América Latina deverá viver uma fase de coexistência competitiva entre as duas potências. Essa rivalidade, se permanecer relativamente estável, tende a ser vista de forma pragmática por muitos países latino-americanos, que se beneficiam da concorrência em termos de comércio, investimento, inovação e margem de manobra política.

Fonte: nzz.ch, 12/01/2026Link externo (em alemão)

“Como Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão me deixa bastante otimista”

Publicado pelo Tages-Anzeiger, de Zurique, a entrevista conduzida pela correspondente Jan Heidtmann, radicada em Buenos Aires, traz um retrato aprofundado da cineasta brasileira Petra Costa, autora de dois documentários para a Netflix considerados centrais para compreender a crise política brasileira. Um deles, ““Democracia em Vertigem”Link externo, foi indicado ao Oscar; o outro, “Apocalipse nos TrópicosLink externo, aprofunda a análise do avanço da extrema direita no país.

Na conversa, Petra Costa explica que sua virada para o documentário político nasceu de um trauma pessoal: a percepção de que a democracia brasileira, que se consolidava durante sua infância após a ditadura militar, estava novamente sob ameaça. Essa vivência se entrelaça com a própria história familiar – marcada pela militância de seus pais contra o regime militar e, ao mesmo tempo, pelo sucesso empresarial de seus avós durante a ditadura -, o que, segundo ela, lhe permite carregar “os dois lados” da política brasileira em sua obra.

A diretora comenta seu acesso privilegiado a figuras centrais como Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva, retratados de forma humana em seus filmes, e oferece uma leitura menos caricatural de Jair Bolsonaro. Para Costa, Bolsonaro não é um grande estrategista, mas alguém dotado de um “charme popular” que o torna politicamente sedutor, ainda que fortemente influenciado por líderes evangélicos como Silas Malafaia. Ela sustenta que essa combinação ajudou a canalizar ressentimentos sociais contra instituições democráticas.

Por fim, Petra Costa avalia que a condenação de Bolsonaro representa um marco histórico e motivo de cauteloso otimismo, mas alerta que a extrema direita permanece forte e organizada. A cineasta critica a excessiva judicialização da política, reflete sobre o papel disfuncional de Brasília como capital distante da população e aponta as redes sociais como vetores centrais da radicalização política. Apesar do protagonismo de Lula, ela vê uma nova geração de líderes democráticos emergindo, ainda que ofuscada pela ausência de uma sucessão clara, e afirma que seus filmes são também uma metáfora global das pressões enfrentadas pelas democracias contemporâneas.

Fonte: Tages-Anzeiger, 12/01/2026Link externo (alemão)

>>Outros assuntos noticiados na Suíça:

Bolsonaro transferido para uma prisão “mais favorável”Link externo (16/01)

Candidato de extrema direita favorito na primeira rodada das eleições presidenciais em PortugalLink externo (16/01)

De Lausanne ao Brasil, passando por Crans, Pat Burgener escreve sua históriaLink externo (15/01)

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Publicaremos nossa próxima revista da imprensa suíça em 23 de janeiro de 2026. Enquanto isso, tenha um bom fim de semana e boa leitura!

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