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Líderes do BRICS são vistos juntos durante cúpula em Durban, em 27 de março de 2013

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A VI cúpula do BRICS acontece nesta semana no Brasil em meio ao isolamento da Rússia por parte dos países ocidentais, o que reforçaria a diplomacia multipolar defendida pelos países emergentes.

Os presidentes do Brasil, Dilma Rousseff; da China, Xi Jinping; e da África do Sul, Jacob Zuma, e o primeiro ministro indiano, Narendra Modi, encontrarão - na terça-feira, em Fortaleza, e na quarta-feira, em Brasília - o presidente russo, Vladimir Putin, excluído do G8 e isolado na comunidade internacional devido à crise na Ucrânia.

"O BRICS tem demostrado que o ocidente não pode definir os passos dos emergentes, inclusive em temas geopolíticos cruciais", afirmou à AFP Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo.

"Negaram-se a participar nos esforços empreendidos para isolar a Rússia. Mostraram que não acreditam nas sanções", explicou Stuenkel, que lembrou que os países do BRICS "conseguiram evitar a exclusão da Rússia do G20", clube de países desenvolvidos e emergentes.

Em contexto de forte tensão entre Moscou e Kiev, com violentos confrontos, a cúpula dos BRICS pode evocar o tema na declaração final do encontro.

"Os presidentes não ignoram o contexto atual. É possível que se faça uma menção à crise na Ucrânia", comentou um representante do governo brasileiro em um encontro com a imprensa.

A previsão é de que o grupo alcance uma postura comum que vá na mesma direção da adotada pela ONU, onde em março os BRICS se abstiveram de votar contra a anexação da Crimeia à Rússia.

- "Consolidação e aliança" -

Na época da votação na ONU, Vadim Lukov, coordenador do ministério russo de Assuntos Exteriores para os BRICS, assegurou que o caso ucraniano "contribuiu para a consolidação da aliança", em uma declaração à agência de notícias russa RIA Novosti.

"Para Putin é uma satisfação ver, antes da cúpula dos BRICS, que, em meio a certa solidariedade ocidental, há uma clara diferença entre seus aliados", disse à AFP Bertrand Badie, pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas Internacionais (Ceri) de Paris.

O cientista político destaca a "neutralidade" da China, acostumada a ser "muito meticulosa em matéria de integridade territorial, enquanto Brasil e Índia são mais discretos, assim como a África do Sul". Matizes que ilustram os interesses de cada país em sua relação bilateral com a Rússia.

Stuenkel ressalta que não existe "nenhuma pressão interna no BRICS para a adoção de uma posição comum".

A convergência é simples: preservar um parceiro fundamental, tanto para China como para Índia, opondo-se a uma hegemonia ocidental no plano diplomático.

"O BRICS foi muito claro sobretudo em sua oposição às sanções dos Estados Unidos e da União Europeia contra a Rússia", disse à AFP Mark Weisbrot, co-diretor do Centro de Pesquisa em Economia e Política (CEPR) em Washington.

"Não podem obrigar Washington a mudar sua política externa, mas podem forçar o país a pagar um preço político e econômico", insistiu.

- "Revanche financeira" -

Durante a cúpula, o BRICS pretende lançar seu próprio banco de desenvolvimento e um fundo de reserva, o que demonstra uma vontade comum de autonomia frente às instituições internacionais.

"Há um pouco de revanche financeira dos países do sul e do oriente em relação à predominância ocidental", opina Abadie.

"Isso representaria o início da construção de um mundo financeiro multipolar, seguindo o mundo geopolítico multipolar desejado por Putin", disse à AFP Charles Movit, responsável pela Europa oriental para o gabinete do conselho anglo-saxão HIS.

Entretanto, este banco do BRICS não poderia responder ao impacto de sanções mais duras sobre "as atividades financeiras cotidianas de Rússia", completou.

O ex-presidente do Conselho Rússia-Estados Unidos de Comércio, Edward Verona, disse à AFP que, no caso de sanções anti-russas sobre "tecnologias", os países do BRICS seriam "incapazes de fornecer assistência no setor".

Esta deficiência lembra que a diplomacia multipolar pode tropeçar nas realidades econômicas.

AFP