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Davos: um modelo de turismo de qualidade

Paul Ammann em seu apartamento em Natal, RN, Brasil. swissinfo.ch

A estação alpina não é conhecida somente pelo Fórum Econômico Mundial.

O turismo representa um setor econômico com altas taxas de crescimento real e potencial. Sobretudo nos países emergentes a receita em dólares gerada pelo turismo cresce a taxas elevadíssimas.

Por Paul Ammann, Natal, Brasil

No Rio Grande do Norte, por exemplo, Estado do Nordeste do Brasil, empresas brasileiras e estrangeiras investem maciçamente na construção de complexos hoteleiros ao longo dos 400 km de praia do Estado bem como no transporte aéreo, criando ligações diretas entre Natal e as capitais européias.

O turismo, entretanto, quando praticado sem planejamento social e ecológico de longo horizonte, pode causar impactos negativos na sociedade.

O turismo de massa pode destruir o meio-ambiente e as paisagens que são a própria razão da atração do turista. O turismo do sexo pode prejudicar a saúde e a moral de toda uma comunidade, como aconteceu na Tailândia.

Para evitar efeitos colaterais indesejáveis do turismo, a cidade de Davos investe em turismo ligado ao desenvolvimento da saúde e do esporte, da ciência, educação e cultura.

Turismo de qualidade há 130 anos

A cidade de Davos venceu, desde a descoberta – no século 19 – de sua vocação turística e de seu clima favorável à saúde, uma série de desafios. O primeiro era garantir o acesso a Davos que é a cidade mais alta dos Alpes, naquele tempo com apenas 8.000 habitantes. A prefeitura decidiu construir uma estrada de ferro.

A mais alta estação situa-se a 1630 metros acima do nível do mar. A superação dessas alturas exigiu a construção de grande número de túneis e viadutos bem como obras contra avalanches. A ferrovia foi inaugurada em 1909, oferecendo conforto e segurança aos passageiros. A própria viagem de trem já representa uma atração turística.

Outro desafio foi a proteção dos turistas e da população local contra o excesso de neve que desliza nas montanhas em forma de avalanches destruindo florestas e casas. Para evitá-lo, o governo construiu barreiras no topo e nas encostas das montanhas que retêm as massas de neve.

Um Instituto de Pesquisa da Neve e das Avalanches monitora dia e noite a possível formação de avalanches e avisa os esquiadores.
Além disso, quando está nevando, o Serviço de Turismo limpa e prepara mais de 300 km de trilhas e pistas para que os turistas possam caminhar ou esquiar à vontade e com segurança.

Infra-estrutura completa para cuidar da saúde e relaxar

Davos ficou mundialmente conhecido pela infra-estrutura moderna para cuidar da saúde em geral e para curar as doenças pulmonares em particular. Já no início do século 20 foram concebidos hospitais com o maior conforto possível – os chamados sanatórios – com largas varandas onde os pacientes repousaram respirando o ar puro das montanhas. Centenas de médicos, profissionais para-médicos, laboratoristas, nutricionistas e pesquisadores cuidaram dos pacientes.

A prefeitura, junto com o corpo médico e a comunidade local, ofereceu aos pacientes e a seus acompanhantes o acesso a bibliotecas, ludotecas, concertos de música clássica, museus, galerias de arte e conferências de renomados professores universitários e cientistas, tais como Albert Einstein.

O resultado do atendimento à saúde foi tão positivo que outros países, como Alemanha, Inglaterra e Holanda construíram seus próprios sanatórios em Davos.

Entretanto, com a descoberta de remédios artificiais, como os antibióticos, não era mais necessário repousar no ar puro. Em conseqüência os sanatórios perderam os pacientes e tiveram que fechar, um por um. Os profissionais da saúde foram demitidos.
Felizmente a economia de Davos não é do tipo monocultura que dependeu unicamente dos sanatórios.

A prefeitura passou, assim, a desenvolver mais o turismo de esporte, de congressos, de ciência e cultura. Destarte muitos sanatórios foram transformados em hotéis e a economia começou a crescer novamente.

Inovação permanente nos esportes de inverno

Há 100 anos Davos oferece tecnologias de ponta no que se refere à infra-estrutura para os esportes ligados à neve e ao gelo. Já na primeira metade do século 20, a cidade possuía o maior campo de patinação da Europa.

A qualidade do gelo contribuiu para o bom desempenho dos atletas e numerosos recordes mundiais de patinação de velocidade e artística foram conquistados. Muitos jovens aprendem a jogar hockey sobre gelo, um esporte duríssimo, de modo que o time oficial – o famoso Hockey Club Davos – HCD – pode selecionar cada ano os melhores atletas; não é de se admirar que esse clube foi campeão suíço 27 vezes. Os jogos daquele time atraem milhares de turistas.

Quanto à infra-estrutura para os esquiadores, as empresas turísticas inovaram tanto com variados tipos de transporte que os 55 teleféricos e bondes existentes conseguem transportar 64.000 esquiadores por hora, evitando, assim, a formação de maiores filas de espera.

São preparadas 85 descidas com cinco diferentes graus de dificuldade, perfazendo um total de 305 km de pistas marcadas. A qualidade, tanto do transporte dos esquiadores ao topo das montanhas, quanto da descida segura dos mesmos, autoriza a realização de campeonatos de todos os níveis, inclusive mundiais.

Cidade da ciência e das artes

Em 1928, quando Davos tinha 9.000 habitantes, o cientista Albert Einstein inaugurou os “Cursos Universitários de Davos”, que contou com 45 professores, 360 estudantes e 400 ouvintes convidados. Estes cursos sobreviveram à segunda guerra mundial e são realizados até hoje, sob o nome de JuniorCom (veja o link abaixo).

Os cursos universitários, juntamente com os dois colégios de nível médio, a Academia de Redação Alemã (Textakademie) e os quatro Institutos de Pesquisa Científica (da Alergologia e do Astma, da Osteosíntese e Experimental Surgery, da Irradiação Solar e Cósmica, da Neve e das Avalanches) renderam à cidade o título de City of Science, promovido pelos governos federal, estadual e municipal. Estas instituições fundamentam o turismo de alta qualidade, o das ciências, da educação e dos congressos.

O World Economic Fórum é atualmente o congresso mais conhecido, atraindo participantes de praticamente todos os países do mundo.

Em 1919, os amadores da arte em parceria com a prefeitura fundaram a “Sociedade da Arte de Davos”. A Sociedade patrocina exposições, concertos, teatro, conferências, cursos e cuida do nível cultural da cidade.

Hoje Davos, com 13.000 habitantes, dispõe de seis galerias de arte e de cinco museus o que, talvez, constitua um recorde mundial em termos de número de museus por habitante. Entre eles destaca-se o Kirchner Museum com mais de 10.000 peças, entre pinturas, desenhos, esculturas, litografias e gravuras.

Paul Ammann nasceu em Davos, naturalizado brasileiro, é economista e sociólogo, trabalhou nos Ministérios do Trabalho do Brasil e da Suíça, nas Secretarias de Saúde Pública de Berna e do Rio Grande do Norte, no CNPq e SENAI em Brasília, publicou livros no Brasil e artigos na Suíça e no Brasil.

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