Jovens lideram nova onda democrática em vários países
Movimentos juvenis em Bangladesh, Nepal e Hungria reacenderam o debate sobre uma nova onda democrática global, ao desafiar governos autoritários e ampliar a participação política. Pesquisadores fazem a análise do fenômeno.
A juventude está derrubando governos em nome da democracia. E isso não há 10 ou 20 anos, mas na década de 2020 – enquanto homens como Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin dominam a política mundial.
Prathit Singh, da organização pela paz Interpeace, em Genebra, acompanha esses movimentos no Nepal, em Bangladesh e no Sri Lanka. Segundo ele, outras iniciativas seguiram nesta direção, mas não trouxeram a mudança esperada. “Meu interesse foi despertado quando isso começou em Bangladesh”, diz o responsável pelo programa Juventude e Democracia da Interpeace. A mudança, de acordo com ele, deixou de ser apenas um fator regional, para se tornar um fenômeno global. “Movimentos semelhantes surgiram na África Oriental e na América Latina”, completa.
Para Singh, esses protestos são diferentes de movimentos democráticos anteriores. Pois os governantes, a exemplo de Sheikh Hasina em Bangladesh, diziam que eles próprios e seus governos eram democráticos. Os jovens manifestantes exigiram, portanto, que esses governantes seguissem os princípios que eles próprios haviam definido.
Mostrar mais
Estudos apontam queda global da democracia em 2025
Singh ilustra: “Os movimentos juvenis compartilham a mesma frustração e o mesmo desejo de recuperar o controle das instituições”. Segundo ele, a dinâmica dos protestos em um país teria estimulado a de outro por meio das redes sociais. No entanto, os movimentos não mantêm praticamente nenhum contato direto – pelo menos até agora.
Movimentos democráticos podem ser bem-sucedidos
Esses protestos seguiram um padrão semelhante, observa Singh: primeiro, com uma exigência de prestação de contas por parte do governo, o que acabou gerando uma reação de repressão.
Este cenário desencadeou então uma reação imediata e muito mais intensa por parte dos jovens. Outro ponto em comum entre os diversos exemplos é que, nesses países, muitos jovens têm poucas perspectivas econômicas. “Desde a Primavera Árabe que não havia mais movimentos dessa magnitude. Ao contrário daquela época, muitos dos movimentos de hoje estão dando certo”, acrescenta Singh. Bangladesh elegeu a seguir um governo democrático. No Nepal, foram derrotadas nas urnas as forças que planejavam bloqueios à internet seguindo o modelo chinês. Recentemente, a Hungria derrubou Viktor Orbán, que transformou o país em uma “democracia iliberal”. Isso mostra que os movimentos democráticos podem ter sucesso também nos dias de hoje.
Há mais de 20 anos, vem crescendo o número de ditaduras. Em alguns lugares, governos militares assumem o poder após um golpe; em outros, as instituições de Estados outrora democráticos estão se desintegrando. Pesquisadores falam de uma terceira onda de autocratização. Alguns situam o início dessa onda após a crise financeira de 2010, outros já acreditam que tudo começou em 1994.
De acordo com o estudoLink externo do Instituto sueco V-Dem (Variedades da Democracia) de 2026, não há previsões para o fim da autocratização: atualmente, apenas 18 países estão se tornando mais democráticos. Enquanto isso, 44 países, um número maior do que nunca, estão caminhando na direção oposta. E 3,4 bilhões de pessoas vivem em Estados que estão se tornando mais autocráticos.
Muitos dos atuais detentores do poder são relativamente idosos. Quem se frustra com o contexto político talvez pense que os autocratas um dia vão morrer. No entanto, é uma falácia esperar que isso seja revertido em mais democracia. “As evidências apontam para o contrário”, explica a cientista política Erica Frantz, professora da Universidade de Michigan, nos EUA. “Na grande maioria dos casos, o regime permanece quando os líderes autocráticos morrem”, afirma a pesquisadora.
Segundo Frantz, a probabilidade de ocorrer uma mudança é ligeiramente maior quando o poder está fortemente concentrado em uma única pessoa. E, até assim, na maioria das vezes, o regime sobrevive à morte do líder. Frantz atribui isso ao fato de que, em Estados autoritários, a elite da sociedade tem incentivos para apoiar um sucessor. Isso porque muitos membros dessa elite estiveram envolvidos em “repressão, corrupção e outros comportamentos condenáveis”. O medo de sofrer represálias em caso de mudança os leva a apoiar o status quo.
Quanto menos violência, maior o êxito
Seja como for, as tentativas de combater fogo com fogo costumam fracassar. É o que indica a pesquisa de Frantz: raramente um golpe de Estado leva um país à democracia.
Os dados mostram que, quanto menor for o uso da violência, maior será o sucesso de um movimento democrático ou de uma revolta popular. Da mesma forma, pode ser vantajoso para os movimentos democráticos oferecer aos autocratas uma saída para o exílio, pois estes tendem a evitar a repressão violenta quando não correm risco de prisão ou morte.
De modo geral, Frantz considera que não usar violência seja essencial para a democracia: “Para que uma democracia se mantenha saudável em longo prazo, a paz deve ser o caminho para o poder”. Segundo ela, os dados comprovam isso claramente.
No Nepal e em Bangladesh, os protestos da Geração Z responderam com violência à repressão praticada pelas forças de segurança. No Nepal, por exemplo, o principal prédio do governo foi incendiado. E, ainda assim, os protestos foram bem-sucedidos. Singh, que estuda movimentos de protesto juvenis, ressalta, contudo, que, dentro deles, grupos importantes se posicionaram contra a escalada e o uso da violência.
“Grupos da Geração Z, como no Nepal, têm se empenhado seriamente contra o uso da violência. Um ponto central desses movimentos é o fato de pessoas jovens atuarem como mediadoras. Não se tratava de assumir diretamente o poder, mas de fazer com que as reivindicações da juventude fossem transmitidas e colocadas”, explica Singh. De qualquer forma, seria errado entender os protestos simplesmente como um conflito geracional.
Singh lembra que o movimento da Geração Z no Nepal havia proclamado uma mulher de 73 anos como chefe interina de governo por meio da plataforma online Discord.
Mostrar mais
Nepal constrói paz após guerra com apoio da Suíça
Cada vez mais protestos, mas cada vez menos resultados
As redes sociais podem ser úteis, embora haja motivos suficientes para duvidar que elas contribuam de fato para a mudança. Frantz elucida que há cada vez mais protestos em todo o mundo – no entanto, esses protestos fracassam cada vez mais. “Achamos que isso pode ocorrer em função das redes sociais”, explica. Segundo ela, embora seja possível mobilizar melhor as pessoas, os movimentos democráticos digitais têm “menos chances” de construir uma organização de base, o que é decisivo para o sucesso em longo prazo.
Frantz tem, de maneira geral, a impressão de que o “ambiente midiático em transformação” possibilitou “a ascensão de partidos personalistas”. Como exemplo de partidos baseados no culto à personalidade, ela cita o de Nayib Bukele em El Salvador e o de Viktor Orbán na Hungria.
Na Hungria, as eleições recentes representaram a esperança de uma mudança democrática. Há quem tenha comparado essa evolução ao fim do comunismo no país em 1989. Segundo Frantz, há paralelos: “Em ambos os casos, um regime autoritário perdeu o poder por meio de uma eleição. Quando regimes autoritários perdem eleições, quase sempre vem depois uma democracia”.
Hoje, eleições são normalidade mesmo em Estados autoritários. Como elucida Frantz, a maioria dos países afirma atualmente ser democrática. “Há boas comprovações de que, na maioria dos lugares do mundo, cidadãs e cidadãos preferem a forma de governo democrática”, acrescenta a especialista. Por isso, faz sentido para líderes autocráticos simular uma democracia: “A grande maioria das ditaduras realiza hoje eleições regulares com vários partidos”, aponta. Essas eleições não são, contudo, livres nem justas – e são justamente as eleições livres e justas que caracterizam as democracias.
Frantz vê ainda um paralelo entre as primeiras eleições livres na Hungria, em 1990, e a derrota de Orbán nas urnas em 2026: em ambos os casos, o “influente legado do regime anterior” será provavelmente sentido. Ou seja, os danos causados à sociedade húngara não serão fáceis de serem reparados, completa a especialista.
Não há uma cultura da democracia na Hungria?
O suíço-húngaro Ödön Szabo concorda, embora diga que gostaria de ser mais otimista. As revoluções democráticas na Hungria marcaram sua vida. Há 70 anos – em 1956 –, ocorreu uma revolta popular democrática na Hungria comunista. A ditadura de partido único foi substituída por um governo de transição com representantes de diferentes correntes políticas. Em poucos dias, o país declarou sua neutralidade e manifestou intenção de deixar o Pacto de Varsóvia. Pouco depois, o Exército soviético invadiu a Hungria e sufocou a revolta popular.
Na época, quando fugiu com a família para a Suíça, Szabo tinha onze anos. Há aproximadamente quatro décadas, ele fez um discurso em uma associação húngara na Suíça. “Eu disse que o comunismo e o domínio mundial do comunismo estavam chegando ao fim. Um amigo do meu pai veio até mim e falou: ‘Você é jovem. Isso nunca vai acontecer’. Alguns anos depois, aconteceu”.
Mostrar mais
Exilados húngaros na Suíça avaliam 30 anos de democracia
Depois de 1989, Szabo trabalhou como executivo dirigindo empresas na Hungria. Naquele momento, ele afirma ter se deparado com uma visão maniqueísta do mundo. “Sob um regime comunista, as pessoas tendem a ver tudo em preto ou branco: ou a favor ou contra”, relembra.
Quem se opunha, fazia isso em silêncio. E, após o fim do comunismo, “não surgiu uma verdadeira cultura da democracia, mas simplesmente um sistema capitalista”. Por isso, segundo ele, na década de 1990, as pessoas continuaram céticas com relação às instituições estatais e concentraram seus esforços nas tentativas de enriquecer.
Nos últimos anos, Szabo não voltou mais à Hungria, pois ficava cada vez mais frustrado com a forma como Orbán estava minando a democracia no país. Mas o que virá depois dele? Szabo não prevê um bom desfecho, caso a população húngara comece a perceber simplesmente uma nova força chegando ao poder e dominando as instituições.
“O que importa é conseguir nivelar a correlação de forças. Isso só é possível se três ou quatro partidos, com base eleitoral real, conseguirem se manter no poder de forma duradoura e se o financiamento partidário for controlado pelo Estado de maneira transparente”, complementa Szabo, que vê a democracia suíça – com a participação de todos os campos no governo – como modelo ideal. Só assim, segundo ele, é possível que uma ampla consciência democrática seja constituída.
Há algo que conecta a Hungria aos movimentos democráticos na Ásia, na África e na América Latina, observados por Prathit Singh: na noite seguinte à derrota eleitoral de Orbán, foram sobretudo os jovens que comemoraram.
Edição: Reto Gysi von Wartburg
Adaptação: Soraia Vilela
Mostrar mais
Nosso boletim informativo sobre a democracia
Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!
Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.