Centro suíço em Paris reabre com foco em arte contemporânea
Após quatro anos de obras, o Centro Cultural Suíço de Paris reabre com espaços modernizados e maior integração com o público. A instituição mantém o foco na arte contemporânea e aposta em uma programação diversa para reforçar sua presença na cena cultural francesa.
Uma semana antes da reabertura, ainda faltava a placa “Centre Culturel Suisse” na fachada da filial parisiense da Pro Helvetia, a organização encarregada de promover a cultura suíça no exterior. “Houve um erro de tipografia, tivemos que devolvê-la ao fornecedor”, confidencia Claire Hoffmann, responsável pelas artes visuais na instituição.
Claire Hoffmann teria todos os motivos para estar nervosa, diante do amontoado de caixas e entulho, da livraria ainda vazia, dos últimos retoques de pintura, mas mantém um sorriso imperturbável ao apresentar aos visitantes o Centro Cultural Suíço de ParisLink externo (CCS), reformado após quatro anos de obras.
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Até então, o Centro, fundado em 1985, não tinha realmente visibilidade direta para a rua. A entrada dava para um beco com grandes paralelepípedos pouco práticos. Ao fim do beco, era preciso ainda atravessar uma porta imponente, sem vidro, para finalmente entrar no pequeno hall de recepção da instituição parisiense.
Tornar o espaço mais fluido
Mudança completa. O cenário permanece o mesmo: o Hôtel Poussepin, um encantador edifício do século 12 no bairro turístico do Marais. Mas a entrada agora será feita pela livraria, que dá para a movimentada rua des Francs-Bourgeois.
Será, portanto, por entre livros que se passará a entrar na cultura helvética. Livros de arte, design gráfico e arquitetura – pontos fortes tradicionais da Suíça – mas também de literatura. A partir da livraria, uma rampa conduz aos espaços de exposição. “O desafio para os arquitetos era suavizar os ambientes, para que a circulação fosse a mais agradável possível para os visitantes e acessível a todos os públicos”, destaca Claire Hoffmann.
Eliminar divisórias e dar fluidez são, portanto, as palavras-chave do novo Centro e de seus arquitetos, a agência parisiense Architecture Studio Bœnders Raynaud e o escritório Truwant+Rodet+. A sala de espetáculos poderá agora se abrir para o antigo hall de entrada e até para o charmoso pátio interno, o que é muito prático para grandes vernissages, happenings ou outras performances.
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Ancorado no presente
Se a entrada mudou e a circulação está mais fluida, o que dizer do conteúdo? O CCS continua sendo a vitrine da arte contemporânea helvética — das vanguardas um tanto conceituais, diriam as vozes mais críticas? Há cerca de vinte anos, seu diretor Michel Ritter (1949–2007) iniciou uma guinada fortemente voltada para a arte contemporânea e deu à instituição uma forte visibilidade midiática com exposições que suscitaram polêmica, como “Swiss-Swiss Democracy”, do artista Thomas Hirschhorn.
Seus sucessores, Jean-Paul Felley e Olivier Kaeser, depois Jean-Marc Diébold, apoiado por Claire Hoffmann desde 2019, mantiveram essa linha, ao mesmo tempo em que diversificaram as atividades do Centro. “Expor artistas contemporâneos é a missão que nos foi confiada pela Pro HelvetiaLink externo”, lembra Claire Hoffmann. “O Centro se interessa por artistas vivos, mas não se limita às vanguardas ou aos criadores emergentes”, acrescenta Jean-Marc Diébold. “Aliás, uma das especificidades da criação suíça é estar muito ancorada no presente. No teatro, por exemplo, não temos na Suíça essa tradição de repertório clássico. Os artistas se interessam pela realidade atual. Daí a qualidade do nosso teatro e do nosso cinema documental.”
Os parisienses já entenderam: não é no CCS que irão admirar obras de Albert Anker ou assistir a uma adaptação de Derborence, de Charles-Ferdinand Ramuz, enquanto degustam chocolate.
Uma Suíça aberta, diversa
“Ao contrário da maioria dos centros culturais estrangeiros em Paris, não dependemos da rede diplomática”, celebra Jean-Marc Diébold. Portanto, nada de cursos de idioma, promoção cultural clássica — em suma, nada de “soft power”, bandeiras suíças ou queijo de vaca friburguês. “Uma vantagem que muitos outros institutos nos invejam”, afirma ele.
Em outras palavras, o Centro não representa a Suíça, mas expõe e promove artistas ativos no país alpino, e o passaporte importa menos do que um vínculo forte com o país de Friedrich Dürrenmatt. “Por meio de nossa programação, damos uma certa imagem da Suíça”, reconhece Jean-Marc Diébold: “aberta, diversa, afastada dos clichês”.
É exatamente o caso das três exposições escolhidas para a reabertura: três mulheres, três gerações, três regiões linguísticas. Ao entrar pela livraria, o visitante é impactado pelas fotografias de flores de Akosua Viktoria Adu-Sanyah, jovem artista germano-ganesa radicada em Zurique – flores esvaziadas de substância, em homenagem a seu pai, vítima de erro médico. No pátio e no andar superior, sob a claraboia, a genebrina de quarenta e poucos anos Mai-Thu Perret apresenta suas esculturas, nas quais se julga reconhecer inspirações – romana? egípcia? asteca? – até perceber que ela mistura tudo com ironia. Por fim, a tessinesa de adoção Ingeborg Lüscher, de 89 anos, nos faz reviver os loucos anos 1970, quando ela incendiava suas esculturas de poliestireno.
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Após quatro anos de obras e de exposições itinerantes pela França, o CCS não se tornou mais comedido. Ele multiplica as colaborações com outros espaços culturais parisienses, ao mesmo tempo em que mantém a promoção de artistas suíços como o centro de sua atuação. “Veja o artista de circo lucernense Julian Vogel: nós o apresentamos no Centro em 2019, por ocasião do nosso primeiro foco em circo. Hoje, ele faz uma turnê de cem apresentações na França!”, comemora Jean-Marc Diébold.
No momento da reabertura, a questão da afluência de público está em todas as conversas. Os parisienses voltarão depois desses anos de obras? Darão o passo da livraria para as salas de exposição? Otimistas, Jean-Marc Diébold e seus colegas contrataram dois mediadores para estreitar o vínculo com o público.
O Centro Cultural Suíço reabre suas portas no dia 26 de março. Uma festa de reaberturaLink externo está prevista de 26 a 29 de março. Exposições de Akosua Viktoria Adu-Sanyah, Mai-Thu Perret e Ingeborg Lüscher poderão ser visitadas até 26 de julho.
Edição: Samuel Jaberg
Adaptação: Karleno Bocarro
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