Solidariedade suíça no raio x
Os suíços decidem por voto - caso único no mundo - o que fazer com reservas de ouro desnecessárias do banco central do país.
Um terço dessas reservas poderia servir para projetos de solidariedade. Ocasião de ver se a propalada solidariedade suíça é mito ou realidade.
Com aprovação de voto popular, no domingo 22/9, entre 200 e 250 milhões de francos seriam atribuídos anualmente, por 3 décadas, a Fundação Suíça Solidária.
Essa entidade financiaria, em base eqüitativa, projetos na Suíça e no exterior.
Trata-se de um plano original porque é a primeira vez no mundo que se realiza um plebiscito sobre utilização de fortuna nacional.
O que se pode questionar é se o projeto de uma fundação solidária ainda é necessária num País em que as pessoas já têm diferentes maneiras de mostrar solidariedade. Mas seja ou não supérfluo esse novo projeto, vale indagar se tão comentada solidariedade de que os suíços são muito ciosos é verdadeira ou puro mito.
Na Suíça, a solidariedade acontece em 3 níveis:
– ajuda das autoridades municipais, estaduais e federais a indivíduos em necessidade
– ajuda caritativa destinada a abrandar catástrofes de todos os tipos: fome, epidemias, inundações, terremotos…
– e ajuda pública ao desenvolvimento, a mais conhecida internacionalmente.
Quanto à primeira, é difícil avaliar o montante dada a complexidade do sistema suíço. No entanto, mesmo havendo muitas exigências e bastante burocracia, as pessoas que “estão na pior” acabam recebendo o indispensável para viver.
Para a ajuda de tipo caritativo as cifras são disponíveis e impressionam num país de apenas 7.2 milhões de habitantes como é o caso da Suíça. Mas, como veremos, está na média de países com padrão de vida semelhante.
Segundo os últimos dados disponíveis – os do ano passado – as organizações de ajuda receberam doações que totalizaram 930 milhões de francos. O que representa 540 francos por lar.
“Ajuda ao desenvolvimento”
Já a chamada ajuda pública ao desenvolvimento – aquela que é fornecida pela maioria dos países ricos e menos ricos aos mais pobres e que quase sempre traz retornos interessantes – é a ajuda mais conhecida.
A rica Suíça não é a mais generosa em “ajuda ao desenvolvimento”, mas não precisa se envergonhar. O País está bem na frente dos Estados Unidos e mesmo de potências como Alemanha, França e Grã-Bretanha (veja texto anexo).
A Suíça concede 0.34% de seu produto interno bruto a esse gênero de ajuda o que o coloca em sétimo lugar no mundo. (A recomendação da ONU é que a contribuição seja de 0.7% do PIB. Apenas 5 dos países a aplicam).
Com uma contribuição de aproximadamente 1 bilhão e meio de francos – mais mais de 1 bilhão de euros – a Suíça figura em 14° lugar quando comparada a outros países.
Ajuda-emoção
Detalhando as doações de tipo caritativo (as que vêm de contribuições individuais em caso de calamidade pública), elas atingem somas que, pelo menos de início, impressionam. No ano passado foram de 930 milhões – € 634 – o que corresponde por lar 540 francos – € 368.
Mas num país de alto poder aquisitivo é preciso relativizar um pouco. Em média, cada lar suíço gasta, por exemplo, 480 francos anualmente em cigarros, 720 em bebidas alcoólicas e 1.400 francos em produtos de higiene.
Além disso, esse tipo de ajuda caritativa depende bastante das circunstâncias do momento. E desastres espetaculares como catástrofes naturais e imagens fortes, como as de crianças esquálidas morrendo de fome, são mais suscetíveis de fazer as pessoas levarem a mão ao bolso.
A generosidade é ainda muito mais expressiva quando ocorrem catástrofes na própria Suíça. O exemplo mais evidente foi uma catástrofe num vilarejo alpino (Gondo), no estado de Valais, em 2000. Em poucos dias, Chaîne du Bonheur (rede da felicidade), braço humanitário da TV Suíça coletou 40 milhões de francos – € 27 milhões, recorde absoluto.
Generosidade “ma non troppo”
A generosidade suíça é bastante elogiada e os próprios suíços estão muito ciosos dessa virtude, mesmo não havendo estatísticas confiáveis para provar essa suposta qualidade do povo.
Segundo um dos poucos estudos mais ou menos recentes sobre o assunto realizado pelo International Commitee on Fundraising Organisations – ICFO – os doadores particulares suíços não se destacam como pensam. Apenas se colocam na média, em relação a países com o mesmo nível de vida.
Doando 145 euros por ano, os suíços deixam para trás os franceses ( 40 €), os suecos (70 €) e os alemães (140 €).
São, no entanto, menos generosos que os britânicos (200 €), os canadenses (182 €) e os austríacos (180 €).
Liderança
Aqui é necessário relativizar novamente. Nessas cifras não se têm em consideração fatores importantes como estímulos fiscais, poder aquisitivo ou contribuições públicas…
Mas tendo em conta o número de doadores e a população total, a Suíça é líder absoluto.
Segundo André Rothebühler que pesquisou o assunto, “nos últimos dois anos, mais de 70% dos suíços fizeram doações”.
Ora as cifras fornecidas pelo ICFO indicam que a média em outros países se situa a pouco acima de 50%.
swissinfo/J.Gabriel Barbosa, em colaboração com Olivier Panchaud e Armando Mombelli.
Em média, em cada lar suíço despendem-se:
480 francos para cigaros
540 para obras de solidariedade
720 para bebidas alcoólicas e
1.400 para produtos de higiene.
Os suíços se consideram um povo muito solidário
Uma qualidade que as estatísticas não provam claramente.
A Suíça concede 0.34% do PIB em “ajuda do desenvolvimento”.
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