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A nobreza suíça e a paixão de fazer vinhos premiados

A vinha mais ocidental da Europa fica nas encostas da praia da Adraga e na orla costeira da Serra de Sintra, a aproximadamente 35 Km de Lisboa. Cortesia Casal Sta. Maria

É num território cuja história se perde nos confins dos tempos e onde as águas azuis do Oceano Atlântico servem de pano de fundo que, atualmente, em Portugal, se produzem alguns dos vinhos mais reconhecidos pela sua qualidade e originalidade.

Este conteúdo foi publicado em 26. julho 2021 - 12:00
Luís Guita

O ambiente de riqueza patrimonial e natural da Serra de Sintra que, em tempos, inspirou autores como Fernando Pessoa, Lord Byron, Eça de Queirós ou William Beckford, é o mesmo que inspirou o Barão Bodo von Bruemmer a trocar a Suíça por Portugal e instalar-se em Colares.

O reconhecimento da excelência dos vinhos que são produzidos no Casal de Sta. Maria é o resultado de grande paixão e do terroir único da vinha mais ocidental da Europa, a meio caminho entre o Cabo da Roca e Colares, nas encostas da praia da Adraga e na orla costeira da Serra de Sintra, a aproximadamente 35 Km de Lisboa.

Antes do vinho, a maior coudelaria de cavalos árabes na Península Ibérica

Os vários prémios que os vinhos do Casal Sta. Maria já conquistaram em Portugal e no estrangeiro são o reflexo de uma história. Foi nos anos 1960 que o Barão Bodo von Bruemmer, na altura com cinquenta anos, quando procurava um local para passar o final de vida, que, numa visita a Portugal, depois de se apaixonar pela propriedade, comprou o Casal de Sta. Maria, em 1962.

No início, as atividades principais eram a agricultura e a reconstrução das casas em ruínas. A casa principal tinha sido construída em 1720 e, surpreendentemente, conseguiu sobreviver ao terramoto de 1755 devido à estrutura granítica da Serra de Sintra.

Nicholas Barão von Bruemmer, o nosso anfitrião, neto do Barão Bodo von Bruemmer, conta que, nos anos 1970, o avô teve a ideia de iniciar a criação de cavalos árabes. Aquela que chegou a ser a maior coudelaria de cavalos árabes na Península Ibérica durou aproximadamente 20 anos mas teve um fim triste provocado pela Peste Equina Africana. A Peste, com uma taxa de mortalidade que pode chegar a 95% em algumas espécies como os cavalos, atingiu fortemente Portugal em 1989.

Aos 96 anos, acordar de uma operação e decidir produzir vinho

A produção de vinho no Casal de Sta. Maria teve início uns anos mais tarde, em 2006. Com orgulho, Nicholas conta que o avô, já com 96 anos, depois de acordar de uma operação cirúrgica complicada que realizou na Suíça, disse ao médico: “Já sei perfeitamente o que tenho de fazer! Tenho de fazer vinho no Casal!”. Apesar do médico apelar à calma e alertar para a idade avançada do Barão, “passados três ou quatro meses as primeiras vinhas já estavam plantadas.”

“O avô começou com muitas castas de vinhos, muito trabalho. É incrível a história! Com 96 anos, ter a força e a energia de começar com o negócio e a produção de vinhos não é normal! E ele, forte como sempre, dizia: vou avançar com isto. No final, trabalhou até ao final da sua vida, morreu com 105 anos.”

Uma segunda vida no Casal Sta. Maria

Antes de vir viver para Portugal, Nicholas visitava frequentemente o avô em Colares.  “Em conversas com o avô, ele dizia-me: vais ver que, um dia, Portugal vai ficar um país muito simpático na Europa. E, no dia em que eu morrer, espero que te mudes para Portugal com a tua família e continuem esta tradição. No dia em que o avô morreu, eu morava na Suíça e trabalhava no mundo financeiro (“asset management”). Após 48 horas, a minha mulher e eu tomámos a decisão de vir para Portugal e continuar o trabalho do avô.”

Os primeiros dois anos de Nicholas à frente do Casal Sta. Maria não foram fáceis. Apesar de ser um grande consumidor de bons vinhos, teve de falar muito com os enólogos e ir aprendendo a pouco e pouco. Paralelamente com a modernização dos processos de gestão, produção, venda e distribuição, aconteceu também a redução do número de castas.

Fazer a vindima à mão e conquistar um grande êxito

As uvas, vindimadas e selecionadas à mão, dão origem a vinhos que, tal como uma brisa marítima, são uma lufada de ar fresco. Atualmente, Malvasia, Pinot Noir e Sauvignon Blanc são a paixão dos enólogos; são variedades que se adaptaram especialmente bem ao terroir e ao microclima de Colares e receberam vários prémios. A paixão de Nicholas é o Mar de Rosas, um vinho único que foi premiado como o melhor Rosé de Portugal e reflete o quão fresco e complexo um Rosé pode ser.

“O Rosé (Mar de Rosas) é um projeto pessoal. É um grande êxito! Sou um apaixonado por Rosé há trinta ou quarenta anos. Eu perguntava-me: Como é possível que o avô não tenha feito um bom Rosé? É impossível encontrar em Espanha ou Portugal um Rosé bom ou similar aos típicos franceses. Falei com os enólogos e criámos a definição de um Rosé sofisticado, complexo e similar aos Rosés franceses. O lançamento foi em 2018 e, com grande surpresa, ganhou o prémio de melhor Rosé de Portugal. E no ano seguinte também. Foi um dos grandes êxitos do Casal Sta. Maria!”, revela, com particular orgulho, Nicholas Barão von Bruemmer.

As vinhas do Casal de Sta. Maria, dentro e fora de muros, ocupam uma área de aproximadamente 13 hectares (em 2016 eram 7 hectares) e produzem entre 60 a 80 mil garrafas por ano. A faturação, antes da pandemia de Covid-19, estava entre 700 mil e 1 milhão de euros, onde as atividades ligadas ao enoturismo, visitas, almoços e eventos representavam aproximadamente 30%/40%. Em 2020 registou-se uma quebra de 30% no volume total de faturação global e o enoturismo teve uma quebra de 90%. Em 2021, o enoturismo ainda deve ficar 70% abaixo do normal. As expectativas de Nicholas são que o volume de faturação do enoturismo no pré-pandemia só venha a ser recuperado em 2025. Para este ano, e ano que vem, as expectativas são que a faturação global atinja 1 milhão e 200 mil Euros. Atualmente, na Europa, os mercados mais importantes são Suíça, Holanda, Suécia e Inglaterra.

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