Suíça enfrenta pressão por mais gastos militares
A Suíça sofre pressão internacional para fortalecer sua defesa diante de ataques híbridos atribuídos à Rússia. Mesmo com ciberataques frequentes a infraestruturas críticas, o país investe apenas 0,7% do PIB no Exército e enfrenta resistência interna a ampliar os gastos.
Quatro anos após a invasão da Ucrânia pela Rússia, os ataques híbridos russos passaram a atingir também a Suíça. Embora Berna se recuse a atribuir a autoria das atividades identificadas a um Estado especificamente, especialistas do Exército suíço não têm dúvidas de que a Rússia já cometeu graves ciberataques à infraestrutura pública do país.
Desde abril de 2025, a Suíça vem registrando ataques a infraestruturas estratégicas: hospitais, usinas elétricas, bancos. O país contabiliza, em média, um ciberataque por dia. Observa-se também muita desinformação, como por exemplo a interferênciaLink externo da RT, plataforma de mídia financiada pelo Kremlin, na campanha de votação sobre o financiamento da emissora pública suíça SRG.
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Os sete grandes problemas do Exército suíço
“Coração da Europa é vulnerável”
Em outubro de 2025, várias pessoas avistaram um drone grande sobre a central europeia de alta tensão, a “Estrela de Laufenburg”, no cantão de Argóvia. A população não deu muita atenção ao incidente, mas círculos de segurança mantêm-se em estado de alerta desde então.
A estação de transformação de Laufenburg é um dos pontos mais vulneráveis da Suíça, sendo também fundamental para o abastecimento de energia elétrica dos países vizinhos. “A Suíça é tão afetada pela guerra híbrida da Rússia quanto o resto da Europa”, escreveuLink externo o jornal NZZ em uma análise sobre o assunto. Pois o país, com sua infraestrutura, é o coração da região economicamente mais forte da Europa.
Em entrevista, Georg Häsler, jornalista especializado em questões de segurança do NZZ, acrescenta: “Precisamos entender que não se trata mais apenas da defesa nacional suíça, mas da defesa da rede”. Häsler considera que a Suíça tem o dever de proteger sua infraestrutura estratégica, que inclui especialmente o transporte e o abastecimento de energia – justamente porque a Europa depende dela.
“Nossa neutralidade se tornou um risco para a segurança do resto da Europa. A aposta da Suíça de poder garantir sua segurança através da não participação e da indiferença já não vale mais nada”, acrescenta o especialista.
“Neutralidade leva ao isolamento”
Marcel Berni, professor de Estudos Estratégicos da Academia Militar da Escola Politécnica Federeal de Zurique (ETH), constata: “O fato de a Suíça não poder defender a infraestrutura estratégica em seu próprio território deixa os países vizinhos consternados”. Berni menciona também uma crise da neutralidade: “A Suíça finge para si mesma que é neutra, embora nem a Rússia nem a Otan a considerem neutra”. Nessas alturas, acrescenta o especialista, o país, em consequência de sua compreensão restritiva da neutralidade, acabou caminhando para o isolamento.
Isso fica evidente quando se olha para os países vizinhos. As nações europeias estão aumentando seus orçamentos de defesa – 5% dos orçamentos estatais devem fluir para essa pasta. Foi este o acordo selado entre os países europeus depois que o recuo dos EUA da Otan começou a tomar forma.
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Exército suíço participa de maior simulação militar já feita no exterior
Entretanto, a Suíça gasta hoje apenas 0,7% do seu PIB com as Forças Armadas. Em seis anos, esse montante deverá subir para 1% do PIB. Martin Pfister, ministro da Defesa, é obrigado a justificar, com cada vez mais frequência, essa modéstia de recursos a seus colegas europeus de pasta, como aconteceuLink externo recentemente durante a Conferência de Segurança de Munique. “Há incompreensão”, admitiu Pfister na ocasião.
Pressão por parte dos países vizinhos
Em uma entrevista coletiva para a imprensa, o ministro reagiu à pergunta da Swissinfo acerca de uma possível pressão exercida pela Europa sobre a Suíça: “As expectativas na Europa são grandes. Espera-se que a Suíça seja pelo menos capaz de se defender e não precise de ajuda”. E acrescentou: “Se queremos ser neutros, essa é uma obrigação”.
Por isso, Pfister defende um aumento do imposto sobre valor agregado no total de 0,8 ponto percentual – de 8,1% para 8,9%, por um período limitado de dez anos. Ao longo de todo esse período, isso renderia 31 bilhões de francos aos cofres federais. O ministro da Defesa conseguiu convencer o Conselho Federal (n.r.: o corpo de sete ministros que governa o país e forma o Poder Executivo), mas o Parlamento já sinalizou que não está disposto a aprovar a medida. Apenas o próprio partido de Pfister, o Partido do Centro (PC), apoia seu plano.
A população está ainda mais cética que o Parlamento. Em uma pesquisaLink externo representativa realizada no início de fevereiro, 76% dos entrevistados se opunham a um aumento do imposto sobre valor agregado.
De acordo com essa pesquisa, nenhuma das outras opções de financiamento propostas obteve maioria.
Isso leva a uma única conclusão: a população suíça não está disposta a conceder recursos adicionais ao Exército. Em uma democracia direta, isso significa que o Exército não receberá dinheiro até que a maioria reconheça que isso teria utilidade.
População reage com perplexidade
A que se deve essa distância da população suíça em relação ao aparato de defesa do Estado? Essa é uma consequência das falhas do passado: uma aquisição de drones fracassou; a compra do novo caça F-35 saiu de controle; o sistema operacional digital foi se tornando cada vez mais desastroso. Além disso, para onde quer que se olhe, há custos extraordinários e atrasos. E essas são apenas as discrepâncias mais visíveis que causam perplexidade na população.
“Não estamos dispostos a dar mais dinheiro a um setor marcado por tantos escândalos e má gestão”, declarou Samira Marti, líder do Partido Socialista (PS), à SRF. Seu partido menciona uma “crise de confiança” na Defesa, que precisaria ser resolvida. Antes disso, segundo a parlamentar, não haverá dinheiro. “Destinar mais recursos para este Exército não significa, atualmente, mais segurança”, sugere a deputada.
Levantamento minucioso e desalentador
Esse é inclusive o dilema de Martin Pfister, titular da pasta da Defesa: quando se tornou membro do Conselho Federal, há pouco menos de um ano, ele prometeu transparência e melhor comunicação. E trouxe para sua equipe um auditor financeiro, com fama de ser o mais rigoroso de todos, para sanear o pântano das aquisições, organizar a situação e restabelecer a confiança.
Desde então, Pfister informa a população trimestralmente sobre as más notícias, ou seja, sobre projetos do passado que ultrapassaram o ponto de não retorno e agora precisam ser liquidados a um custo elevado ou concluídos com recursos adicionais. A busca por maior confiança resulta, pelo menos por enquanto, em desalento.
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Exército suíço abre mão da elegância para comprar armas
Desconfiança e interrogações
Enquanto isso, o tempo se esgota. Os prazos de aquisição, já longos, estão sendo prorrogados mais uma vez, pois, no momento, todos os países querem armas e a Suíça, em sua condição de isolamento, não tem prioridade nesse mercado altamente interligado. Um exemplo evidente foi o caso do sistema de defesa aérea Patriot dos EUA. Apesar de ter feito um pagamento inicial de 700 milhões de francos, a Suíça continua na fila e os EUA estão dando preferência para outros países. “Podemos perguntar sete vezes, mas se não obtivermos resposta…”, declarou recentemente o diretor do programa de defesa aérea à mídia.
As revoluções tecnológicas visíveis na guerra contra a Ucrânia causam ainda mais incerteza na população. A Suíça conseguiria acompanhar uma guerra com drones? Faz sentido adquirir um novo caça? Armas convencionais, como tanques, parecem ultrapassadas. Os sistemas de armas dos EUA geram desconfiança. No que diz respeito à tecnologia de drones, o Exército suíço dá ainda seus primeiros passos. E, quanto à ciberdefesa, ainda não conseguiu explicar de que forma recursos adicionais na casa dos bilhões fariam diferença. Nessas alturas, qualquer arma parece ser questionável.
Tudo isso acentua a desconfiança e torna o Exército ainda mais distante da população. “Falta consciência de que esse é o nosso Exército, aquele que garante a nossa segurança”, afirma Christian Brändli, editor-chefe do jornal militar suíço Allgemeine Schweizer MilitärzeitungLink externo. “Além disso, o público não tem consciência do quanto estamos em perigo”, continua. Brändli considera que deixar isso claro é uma tarefa que caberia ao Conselho Federal. “O governo deveria comunicar claramente o quão delicada é a situação”, pontua.
“Precisamos de muito dinheiro com muita rapidez”
Werner Salzmann, responsável por questões de segurança do Partido do Povo Suíço (SVP) e membro da câmara alta do Parlamento, tem uma opinião semelhante. Salzmann reivindica uma avaliação abrangente da política de segurança por parte do Conselho Federal. A seguir, sugere o parlamentar, o governo federal deveria se posicionar de forma coesa e explicar a situação de ameaça à população. Salzmann considera essa uma tarefa fundamental da liderança do governo: “Se o perigo não está na cabeça dos políticos, como poderia estar na cabeça do povo?”
Basicamente, Salzmann acredita que o Exército seja financiável por meios legítimos – sem recursos extraordinários ou dívidas. “Mas o problema é que agora necessitamos de muito dinheiro com muita rapidez, pois precisamos fazer encomendas urgentes e pagar adiantado”, afirma. Por isso, o político apresentou uma propostaLink externo solicitando a análise de um financiamento extraordinário – um empréstimo para a pasta da Defesa – e ficou surpreso ao ver que o Conselho Federal, em sua resposta, argumentou citando a “situação tensa do orçamento federal” – como se nada de excepcional estivesse acontecendo.
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Neutralidade: O que a Suíça faz em caso de guerra?
“Estamos nos paralisando”
A senadora Marianne Binder-Keller reivindicaLink externo para esse fim um fundo específico de recursos. Sendo assim, o governo teria que flexibilizar seu freio rígido da dívida. Binder-Keller menciona uma “guerra de agressão da Rússia na Europa” e vê aí uma situação extraordinária, que justificaria tal financiamento. “No momento, são os responsáveis pela política financeira, e não os especialistas em segurança, que avaliam a cenário de ameaças”, diz a senadora do partido O Centro. “Isso é um risco. Nós mesmos estamos nos paralisando”, constata.
Para Binder-Keller, a ameaça à Suíça reside nas “ações da guerra híbrida que partem da Rússia e em possíveis ataques terrestres”. Segundo ela, é também preocupante o “sinal enviado pelo governo federal de que a escalada na Europa não nos diz respeito”.
Entre políticas e políticos responsáveis pela segurança, circula agora uma piada, como relata a senadora: é possível entregar a Suíça a Putin – sem dívidas.
Edição: Samuel Jaberg
Adaptação: Soraia Vilela
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