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Plebiscitos de 29 de novembro de 2020

Multinacionais suíças: gigantes ativas em setores de alto risco

A Suíça abriga a sede de várias multinacionais do setor de comercialização de matérias-primas, dentre elas a Glencore, sediada no cantão de Zug. Keystone / Alessandro Della Bella

A densidade de sedes de grandes multinacionais na Suíça é uma das mais altas do mundo. Entre elas figuram gigantes nas indústrias de matérias primas, alimentos e química. Estas empresas são poderosas, e face a esse poder, o povo suíço decidirá em 29 de novembro se elas deverão ser mais responsáveis.

Este conteúdo foi publicado em 09. novembro 2020 - 10:00

As multinacionais suíças devem ser responsabilizadas pelas ações de suas subsidiárias e parceiros no exterior? Esta é uma das questões que os cidadãos suíços terão de decidir no próximo plebiscito federal, em 29 de novembro de 2020.

A inciativa denominada "Por Empresas Responsáveis - pelo povo e meio-ambiente" tem o objetivo de submeter as empresas internacionais com "sede social, administração central ou principal local de negócios na Suíça" à obrigação de devida diligência (due dilligence, em inglês) no que diz respeito ao cumprimento dos direitos humanos e das normas ambientais internacionalmente reconhecidas. Em caso de não cumprimento, as empresas poderiam ser responsabilizadas em juízo por possíveis violações cometidas por suas subsidiárias ou por estabelecimentos por elas controlados no exterior.

O Parlamento preparou uma contraproposta indireta, que entrará em vigor se a iniciativa for rejeitada. Seu texto prevê novas obrigações para as empresas, mas nenhuma regra sobre sua responsabilidade.


O que é uma empresa multinacional, e quais seriam afetadas pela iniciativa?

O Departamento Federal de Estatística (OFS, na sigla em francês) distingue entre "multinacionais suíças", que têm sua sede na Suíça, e "multinacionais estrangeiras", que estão presentes no território, mas são controladas por uma entidade externa.

Não existe uma definição universal e estritamente delimitada de multinacionais. Na mente da maioria das pessoas, as multinacionais são as grandes empresas internacionais, listadas na bolsa de valores e conhecidas do público em geral.

Isto é apenas uma parte da realidade. De acordo com o Eurostat, o OFS considera um grupo empresarial como multinacional se tiver pelo menos duas pessoas jurídicas localizadas em países diferentes. De acordo com esta definição, as pequenas ou médias empresas (PME) podem, portanto, ser multinacionais.

Os opositores da iniciativa a ser votada temem que essas PMEs também possam ser abrangidas. No entanto, o texto prevê que o ônus da devida diligência está condicionado ao tamanho das empresas e que as PMEs serão excluídas, a menos que elas atuem em setores de alto risco. São as grandes companhias que devem, portanto, estar mais preocupadas.

O texto só diz respeito às empresas "que têm fortes ramificações em países onde o contexto regulatório, em termos de direitos humanos e meio ambiente, está abaixo dos padrões internacionalmente aceitos", diz Paul Dembinski, professor de economia da Universidade de Friburgo e diretor do Observatório Financeiro. "Em resumo, são empresas que têm uma atividade baseada em países em desenvolvimento".

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A maior densidade de empresas entre as “Global 500”

Qual é a dimensão das multinacionais suíças? As multinacionais desempenham um papel importante na economia suíça como fornecedoras de receitas fiscais e de empregos. Em 2018, o OFS contabilizou um total de cerca de 29 mil multinacionais, empregando cerca de 1,4 milhões de pessoas.

Mais de 16 mil delas, representando quase 920.000 empregos, tinham uma sede corporativa suíça. Muitas empresas estrangeiras também têm sedes europeias, ou unidades-chave de negócios, em solo federal.

E internacionalmente, algumas dessas multinacionais também são grandes atores. Quatorze empresas sediadas na Suíça estão incluídas no último ranking mundial da Fortune  listando as 500 maiores empresas de todos os setores. Elas empregam mais de 1,2 milhões de pessoas em todo o mundo.

E outras grandes multinacionais suíças estariam no topo da lista se tornassem públicas todos seus números contáveis. Um exemplo é a Vitol, com vendas anuais de 225 bilhões de dólares (205 bilhões de francos suíços). A título de comparação, se Vitol fosse um país, ele seria a 52ª maior economia do mundo, entre o Peru e a Grécia.

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Metade dos lugares neste ranking são ocupados por empresas chinesas e americanas, mas a Suíça é o lar da maior concentração de empresas entre as "Global 500", dada sua população.

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Para grandes empresas, a Suíça oferece muitas vantagens: estabilidade econômica, um centro financeiro forte, uma força de trabalho qualificada, uma localização central no coração das redes de transporte, bem como condições fiscais favoráveis e regulamentações flexíveis.

Os gigantes mundiais de commodities estão na Suíça

Com mais de 500 empresas ativas neste setor, a pequena nação alpina em particular é uma das principais plataformas mundiais no comércio de matérias primas, sejam elas petróleo, metais, minerais ou produtos agrícolas. Aqui estão sediadas líderes mundiais do setor como Vitol, GlencoreTrafiguraMercuria e Gunvor, que juntas empregam cerca de 180.000 pessoas em todo o mundo e estão ativas em dezenas de países em todos os continentes.

Outros gigantes do setor também estão presentes na Suíça, tais como Cargill International, BHP, Koch, Bunge e Louis Dreyfus Company. A maioria dessas empresas não se limita ao comércio e diversificou suas atividades ao se envolverem em toda a cadeia de fornecimento, por exemplo, comprando minas ou licenças de exploração.

Embora exista uma tradição comercial suíça que remonta à primeira metade do século 19, o país também atraiu novas grandes firmas mais recentemente graças a "uma abordagem de incentivos por parte das autoridades de certos cantões, notadamente Zug e Genebra, nos últimos vinte anos", explica Paul Dembinski, professor de economia da Universidade de Friburgo. E hoje, essas multinacionais em expansão estão no topo da lista das maiores empresas da Suíça.

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Gigantes das indústrias alimentícia e farmacêutica

Entre as maiores multinacionais suíças estão também pesos-pesados globais em outras áreas. Este é o caso da Nestlé, que é a empresa líder mundial em alimentos e bebidas há vários anos. A Roche e a Novartis também estão entre os líderes da indústria farmacêutica, entre as top 10 do mundo, em qualquer quesito. O mesmo se aplica à Lafarge Holcim no setor de materiais de construção e à ABB no setor de máquinas.

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Os conglomerados suíços Richemont e Swatch Group estão entre os dez maiores grupos de artigos de luxo do mundo, de acordo com o relatório "Global Powers of Luxury Goods", elaborado pela empresa Deloitte. A Suíça também abriga a segunda maior empresa de empregos temporários do mundo (Adecco), a segunda maior empresa marinha mercante do mundo (MSC Mediterranean Shipping Company) e o segundo maior fornecedor de logística do mundo (Kühne + Nagel International).

Coop e Migros estão entre os 50 primeiros no ranking da Deloitte dos 250 maiores varejistas do mundo. Na indústria química global, a Syngenta está em 29º lugar, e em primeiro no segmento de pesticidas.

Alguns setores de risco

Algumas dessas grandes empresas estão mais expostas que outras ao risco de violar os direitos humanos ou as normas ambientais. Os escândalos revelados pela ONG Public Eye nos últimos anos envolveram, por exemplo, filiais da Glencore, LafargeHolcim ou Syngenta na África, América do Sul ou Ásia.

"Os riscos estão concentrados principalmente em dois níveis: a natureza das atividades e os contextos em que as multinacionais operam", diz Géraldine Viret, porta-voz da organização que apoia a iniciativa que será submetida a votação em 29 de novembro.

"O setor de matérias-primas é particularmente sensível", assim como os agroquímicos, de acordo com a especialista. O ranking anual do Instituto de Direitos Humanos e Negócios (ver quadro abaixo) acrescenta a indústria têxtil e a fabricação de produtos de informática e comunicação à lista de setores sensíveis.

Além dos "devastadores" problemas ambientais ligados a estas atividades, "trata-se frequentemente de países frágeis, onde a população vive em grande pobreza apesar da riqueza de seu solo, e onde o Estado não é capaz de proteger seus cidadãos, explica Géraldine Viret. “A isto se soma [o] poder econômico [dessas multinacionais] e sua influência, que muitas vezes excede a dos estados em que operam.”

Como lar dos gigantes nos setores de alto risco, a Public Eye acredita que a Suíça tem um papel central a desempenhar na introdução de legislação sobre responsabilidade corporativa. Para a ONG, é uma questão de alinhar as responsabilidades dessas empresas com seu poder.

Adaptação: DvSperling

Poucas multinacionais atendem aos requisitos básicos, de acordo com um relatório da Public Eye.

O Instituto de Direitos Humanos e Negócios (IHRB) avalia anualmente 200 das maiores empresas de capital aberto do mundo em um conjunto de indicadores de direitos humanos. Ele se concentra em quatro setores de "alto risco": produtos agrícolas, vestuário, indústrias extrativas e a fabricação de produtos de tecnologia da informação e comunicação. De acordo com seu relatório anual de avaliação, muitas grandes empresas não conseguem demonstrar que atendem aos requisitos básicos de direitos humanos da ONU. Quatro multinacionais suíças estão listadas no relatório e têm pontuação medíocre ou até mesmo ruim. Na melhor colocação está a Nestlé (55/100), seguida por Glencore (46/100), Lindt & Spruengli (6/100) e TE Connectivity (menos de 5/100).

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