Empresas suíças exportaram produtos de potencial uso militar para Israel durante o conflito em Gaza
Documentos analisados pela emissora pública suíça RTS mostram que entre 2024 e 2025, cerca de 20 empresas suíças continuaram a vender para Israel produtos potencialmente utilizados para fins militares, apesar da condenação da ONU à ofensiva em Gaza.
Mais de 24 milhões de francos suíços (30,8 milhões de dólares) em bens de dupla utilização ou bens militares específicos foram exportados para Israel após os ataques de 7 de outubro de 2023, de acordo com licenças de exportação datadas até março de 2025, consultadas pela RTS. O aumento nas vendas foi particularmente acentuado desde o primeiro trimestre de 2024, com quase 6 milhões de francos suíços em bens de dupla utilização exportados para Israel, em comparação com 238 mil francos suíços nos últimos três meses de 2023. Essa tendência já havia sido relatada em agosto de 2024.
O volume grande de exportações de bens “sensíveis” para Israel está em conformidade com o marco regulatório, afirmou a Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos (SECO), responsável pela emissão das licenças de exportação. No entanto, essa interpretação da lei é contestada. O contexto mais amplo também levanta questões. As exportações ocorreram após, em novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional (TPI) ter emitido mandados de prisão contra figuras importantes do governo israelense, e, após abril de 2024, uma resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU ter exigido um embargo de armas a Israel. A mesma resolução também pedia especificamente maior monitoramento e atenção nas vendas de bens potencialmente de dupla utilização.
Vendas para empresas de armamento
Entre os produtos suíços exportados durante 2024 e 2025 estão componentes destinados à empresa de armas Elbit, ao Ministério da Defesa de Israel (por meio de uma filial na Alemanha) e a uma empresa conhecida por produzir fósforo branco para uso militar. Cerca de 20 empresas estão envolvidas.
As informações foram consultadas nas licenças de exportação referentes ao período de 2019 a 2025, divulgadas de acordo com a lei de transparência da Suíça após um pedido da RTS e de dois outros veículos de comunicação envolvidos na investigação: o semanário Wochenzeitung e o coletivo de investigação WAV.
Demanda por ferramentas de precisão
Os fabricantes de ferramentas de precisão representam uma parcela significativa das exportações. A TRUMPF Schweiz AG, com sede em Graubünden (na região leste do país), exportou várias máquinas de corte a laser para Israel, incluindo três modelos destinados ao Ministério da Defesa israelense pelo valor de CHF 1.315.032. As vendas foram realizadas com o apoio de uma filial da empresa suíça sediada em Ditzingen, na Alemanha.
O corte a laser pode ser usado para preparar peças metálicas para veículos blindados, por exemplo. Os componentes usinados “servem para melhorar a segurança pessoal, por exemplo, reforçando as estruturas dos veículos. Eles são usados exclusivamente para soluções defensivas, de acordo com os estatutos da nossa empresa”, disse a porta-voz da TRUMPF, Kira Unger.
As exportações cumprem “todas as disposições legais aplicáveis”
Outra grande empresa do setor é a StarragTornos. A partir de sua unidade de produção em Vuadens, no cantão (estado) de Friburgo, a empresa exportou dois centros de usinagem de alta precisão no valor de CHF 1.429.570 para empresas israelenses atuantes no setor de defesa.
Uma delas é a Ricor, que desenvolve resfriadores em miniatura para detectores infravermelhos usados em drones, mísseis e sistemas de alerta de mísseis. A Ricor também é proprietária da Netzer Precision Position Sensors, que produz sensores de posição para os tanques Merkava e os veículos de transporte de tropas Namer e Eitan do exército israelense.
Quando contatada pela RTS, a StarragTornos afirmou estar agindo dentro da lei, observando que suas exportações cumprem “todas as disposições legais aplicáveis e as decisões da Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos”. Questionada sobre o uso final de seus produtos, a empresa disse ter obtido a documentação necessária dos importadores israelenses, mas se recusou a fornecer mais detalhes para investigação.
A StarragTornos não é a única empresa suíça que faz negócios com a Ricor. A Metallux, com sede em Mendrisio, no cantão (estado) do Ticino, e especializada em equipamentos eletrônicos avançados, obteve uma licença de exportação em abril de 2024 para vender 500 circuitos híbridos à mesma empresa israelense. Dois meses depois, a Metallux recebeu outra licença que lhe permite exportar circuitos híbridos adicionais para a empresa israelense Semiconductor Devices Ltd, que é propriedade das empresas de armamento israelenses Rafael e Elbit. A Metallux não respondeu aos pedidos de comentário da RTS.
Tinta para uso militar…
A Mipa Coatings Schweiz AG, outra empresa que aparece várias vezes nas licenças de exportação analisadas, atua no setor de tintas e vernizes. Com sede em Islikon, no cantão (estado) de Thurgau, a empresa exportou tinta para uso militar – com preços entre CHF 200 e CHF 11.000, dependendo da quantidade – para várias empresas israelenses ativas no setor de defesa.
Entre elas estavam três empresas que produzem radares militares e sistemas de ventilação para veículos blindados, bem como um dos maiores fornecedores do Ministério da Defesa de Israel, a fabricante de armas Elbit.
Questionada sobre essas exportações, a empresa afirmou estar em conformidade com todas as regulamentações legais e limitou-se a declarar que as tintas e vernizes eram “destinadas ao revestimento de superfícies e objetos metálicos”. Não foram fornecidos mais detalhes.
…e sistemas de tubulação
A Georg Fischer AG, com sede em Schaffhausen e especializada em sistemas de tubulação para transporte de água, produtos químicos e gás, exportou várias válvulas – com custo entre CHF 100 e CHF 500 cada – utilizadas para regular o fluxo de fluidos. Os equipamentos foram fornecidos, em particular, à refinaria israelense em Ashdod, cujos clientes incluem empresas ligadas ao Ministério da Defesa de Israel, de acordo com um relatório da ONG holandesa SOMO.
Outro cliente israelense da Georg Fischer é a Israel Chemical, que várias ONGs acusam de produzir fósforo branco para fins militares, particularmente para armas incendiárias. Embora seu uso seja legal em alguns contextos, o produto químico é altamente controverso.
Contatada pela RTS, a Georg Fischer afirmou que cumpre todas as sanções ou restrições comerciais impostas pelos órgãos reguladores, que não se aplicam neste caso.
“Se a SECO emite as licenças, consideramos que tudo está em ordem”, afirmou a empresa em uma troca de e-mails com a equipe de investigação da RTS.
A lei sobre bens para uso civil e militar estipula que uma exportação pode ser recusada se o país importador estiver sujeito a sanções ou a um embargo internacional, ou se houver ligações comprovadas com o crime organizado ou o terrorismo, o que não é o caso aqui.
“No caso de Israel, os pedidos de exportação também são rejeitados se houver motivos para acreditar que os bens exportados da Suíça seriam utilizados em conflitos em curso ou por Israel em conexão com a ocupação ilegal dos territórios palestinos. Esse não foi o caso dos pedidos aprovados”, afirmou a Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos (SECO), que emite as licenças de exportação.
Evelyne Schmid, professora de direito internacional na Universidade de Lausanne, discorda: “Também é preciso analisar o contexto geral. Essas atividades permitem que Israel mantenha uma ofensiva claramente contrária ao direito internacional? Se a resposta for sim, então essas exportações são extremamente problemáticas. E, na minha opinião, esse é o caso.”
A Liga Suíça para os Direitos Humanos, uma ONG composta por advogados, também obteve as licenças de exportação consultadas pela RTS e está considerando tomar medidas legais contra algumas das empresas envolvidas.
Tentativa de manter os documentos em segredo
Oito empresas se opuseram à divulgação de toda ou parte da informação relativa às próprias empresas nas licenças de exportação que a RTS examinou, graças à Lei da Transparência. As empresas explicaram que temiam danos à sua reputação ou ao sigilo comercial. Uma empresa chegou a solicitar que o acesso aos documentos fosse adiado “até que a conclusão de um acordo de paz internacionalmente reconhecido ponha fim ao conflito israelo-palestino e israelo-iraniano”.
O assunto foi encaminhado ao Encarregado da Proteção de Dados. Ele decidiu a favor da publicação dos documentos, considerando que a transparência se justificava por um interesse público maior.
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Adaptação: Clarissa Levy
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