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Aquarelas e desenhos reais

Aguarela representando o Titlis, pintada pela rainha Vitória
Original da rainha Vitória, pintado a 2 de setembro de 1868: vista do Titlis a partir de Engelberg. Royal Collection Trust

A rainha Vitória foi, em sua época, a mulher mais poderosa do mundo. Em 1868, ela veio descansar na Suíça e realizou numerosos desenhos e pinturas de paisagens, muitos dos quais ainda podem ser admirados hoje.

swissinfo.ch publica regularmente artigos provenientes do blog do Museu Nacional da SuíçaLink externo, dedicados a assuntos históricos. Esses artigos estão sempre disponíveis em alemão e, geralmente, também em francês e inglês.

Os camponeses do planalto alpino Seebodenalp, aos pés do Rigi, provavelmente não acreditaram no que viam quando avistaram um grande grupo de viajantes anglófonos, carregados de cestos e sacolas, descendo do cume da montanha em direção às pastagens alpinas, acompanhados de seus cavalos. Em seguida, viram criados desdobrarem cadeiras e instalarem um cavalete diante de um modesto estábulo. Uma pequena mulher então se sentou e começou a pintar.

A cena ocorreu na tarde de 27 de agosto de 1868. 45 minutos depois, o grupo recolheu seus pertences e prosseguiu o caminho, “uma descida íngreme por trilhas sinuosas, ladeadas por árvores frutíferas até onde a vista alcançava. […] Todos nós tínhamos a sensação de que o dia havia sido excelente”.

A pessoa que se instalara para pintar no Seebodenalp e que mais tarde relatou o episódio em seu diário não era outra senão Vitória, rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. Ela era, na época, a mulher mais poderosa do mundo. À frente de um império com mais de um bilhão de súditos, teve nove filhos, esteve envolvida em 229 guerras e revoltas e sobreviveu a sete atentados e 21 governos. A “avó da Europa” teve 40 netos, 88 bisnetos e deu seu nome à sua época: a “era vitoriana”. A rainha Vitória reinou por 63 anos.

A rainha Vitória, por volta de 1868.
A rainha Vitória por volta de 1868: na altura, era a mulher mais poderosa do mundo. Historisches Museum Luzern
Aguarela da rainha Vitória
Aguarela pintada à hora do chá: o estábulo na Seebodenalp, no sopé do Rigi. Royal Collection Trust

Quando empreendeu sua viagem à Suíça em 1868, Vitória era, contudo, uma mulher abatida, uma rainha ferida e desamparada. Na realidade, ele fugia das pesadas responsabilidades e das numerosas obrigações que lhe cabiam como soberana do Império Britânico.

Após a morte de sua mãe e, mais ainda, a de seu marido, o príncipe Alberto, a rainha Vitória mergulhou em uma profunda depressão. Sofria daquilo que hoje chamaríamos de esgotamento acentuado (burn-out). Sua viagem de quatro semanas pela Suíça deveria permitir-lhe descansar e se recompor.

A comitiva real chegou a Lucerna em agosto de 1868. Para encontrar a calma e a tranquilidade a que tanto aspirava, Vitória viajava sob o nome de “Condessa de Kent”, dando assim a entender que não desejava ser recebida como rainha, mas que estava na Suíça em caráter particular. A pensão Wallis, onde se hospedava em Lucerna, oferecia uma vista panorâmica deslumbrante, como ela relatou entusiasmada em seu diário:

Vista do Rigi pintada pela rainha Vitória
Vista do Rigi a partir de Lucerna, onde ela estava hospedada. Royal Collection Trust

A vista […] sobre a cidade, tendo o lago como pano de fundo, cercada por magníficas montanhas e, em primeiro plano, uma vegetação exuberante, é ideal. Era exatamente aquilo com que eu havia sonhado, mas mal podia acreditar que esse sonho tivesse se realizado!

Rainha Vitória, 1868.

Cena de pesca pintada pela rainha Vitória
Uma cena encantadora: quatro pescadores a remar no Lago dos Quatro Cantões. Royal Collection Trust

O chá sempre servido na hora certa

Nos dias e semanas que se seguiram, ela percorreu toda a Suíça Central, demonstrando uma energia surpreendente para uma monarca debilitada: Vitória visitou a Capela de Tell, desembarcou em Brunnen e Küssnacht, dirigiu-se aos Mythen, a Goldau, a Zug, ao monte Pilatus, à igreja de peregrinação de Hergiswald, ao passo de Brünig e a Engelberg, sem esquecer Rigi-Kulm e a Seebodenalp.

Onde quer que os viajantes estivessem, havia um ritual imutável: como mandava a tradição inglesa, o chá deveria ser servido pontualmente às 17 horas, tarefa que às vezes era bastante complicada para os criados. A rainha passeava, montava os cavalos que trouxera da Inglaterra, escrevia, descansava e se alimentava.

Ela encontrava sempre tempo para desenhar e pintar em aquarela as paisagens suíças, nas quais mergulhava por completo. A descrição do Lago dos Quatro Cantões registrada em seu diário testemunha seu olhar apurado para a pintura:

“O lago, magnífica extensão azul-safira e verde-esmeralda, passa de uma cor a outra. […] A vista é suntuosa, e nada pode superar a beleza do lago, qualquer que seja o ângulo de visão.”

O Pilatos pintado pela rainha Vitória
Com predominância de roxo: o Pilatos, representado pela rainha, apresenta traços impressionistas. Royal Collection Trust
O lago de Zug, pintado pela rainha Vitória
O lago de Zug sob uma perspetiva inédita: a rainha Vitória estava em Cham quando pintou esta aguarela. Royal Collection Trust

A rainha passou mais de um mês na Suíça Central. Durante sua estadia, realizou cerca de 59 desenhos e aquarelas, hoje conservados na famosa Royal CollectionLink externo, em Londres. A monarca havia, de fato, começado a ter aulas de desenho e pintura aos oito anos de idade, inclusive com artistas renomados. Numerosos trabalhos, entre eles suas paisagens da Suíça, atestam seu talento.

O indispensável cavalete na bagagem

Durante as andanças da rainha pela Suíça Central, sua comitiva precisava sempre levar um cavalete, pincéis, tintas ou, no mínimo, um caderno de esboços. A soberana então se sentava, fazia desenhos a lápis e carvão ou pintava diretamente em aquarela.

Entre os trabalhos realizados pela rainha, destacam-se as panorâmicas sobre o Titlis e os Spannörter vistas de Engelberg, bem como as paisagens sobre o Pilatus, o Rigi e os lagos de Alpnach, Lauerz e Zug. Vitória, contudo, não se limitava às vistas panorâmicas. Ela também desenhou ou pintou um abrigo na Seebodenalp, um barco de pescadores no Lago dos Quatro Cantões, uma fazenda em Schwarzenberg e a Ponte do Diabo, no cantão de Uri.

Os trabalhos que realizou durante sua viagem à Suíça revelam um aguçado senso de observação, uma escolha criteriosa das composições cromáticas e um traço sereno e paciente.

O lago de Alpnach, pintado pela rainha Vitória
Um toque de fiorde norueguês: o lago de Alpnach pintado pela rainha. Royal Collection Trust
A Furka pintada pela rainha Vitória
A Victoria tinha ficado encantada com o tempo tão variável: o seu quadro da região de Furka. Royal Collection Trust

O calor, cada vez mais intenso e quase sufocante, que então atingia a Suíça acabou, contudo, por fatigar a soberana, que estava acima do peso. O esgotamento que sentira no Reino Unido voltou a se manifestar. Aquele verão foi, de fato, o mais quente de que se tinha memória. A rainha escreveu a respeito dessa onda de calor:

“Este clima é terrível… tão úmido e abafado, quando não faz um calor escaldante, que me sinto terrivelmente cansada, sofro de dores de cabeça constantes e quase não tenho apetite.”

Em busca de um pouco de frescor, a comitiva atravessou o Lago dos Quatro Cantões até Flüelen e, em seguida, percorreu o cantão de Uri até Urseren. Por fim, chegou ao passo da Furka, onde fez uma parada em uma “miserável estalagem, com quartos pequenos, antiquados e mal mobiliados”, como lamentou a rainha em seu diário.

No passo da Furka, Vitória encontrou um tempo mais nebuloso e frio do que desejaria. Ela tremia de frio! Caía granizo e até alguns flocos de neve. De repente, o sol reapareceu, oferecendo aos turistas ingleses um espetáculo suntuoso que inspirou à rainha uma aquarela. Ela maravilhou-se diante da geleira do Ródano:

“A vista é tão extraordinária que parece quase irreal!”

Ela se instalou e realizou uma pintura em grande formato dos blocos de gelo recortados, enquanto, naturalmente, saboreava seu tradicional chá da tarde.

O longo reinado da rainha Vitória deixou um legado político, marcado sobretudo pela expansão das colônias e pelo “esplêndido isolamento”, mas também um legado cultural. Sua expressão artística e seu entusiasmo permitiram que os panoramas das montanhas suíças dessem a volta ao mundo.

Adaptação: Karleno Bocarro

Michael van Orsouw é doutor em história, poeta e escritor. Ele publica regularmente obras históricas.

Link para o artigo original publicado no blog do Museu Nacional SuíçoLink externo

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