Conta de hospital na Suíça expõe limites da transparência
A Suíça obriga hospitais e seguradoras de saúde a enviar aos pacientes cópias das faturas emitidas em seu nome, mas os documentos continuam difíceis de entender. Foi o que um italiano descobriu ao receber a conta de 67 mil francos por 15 horas de internação do filho.
Em 13 de abril de 2026 o italiano Umberto Marcucci recebeu uma fatura hospitalar de quase 67 mil francos pelas despesas médicas do filho, que ficou ferido no incêndio na noite de Réveillon em Crans-Montana.
Outros adolescentes envolvidos no incêndio, que também foram atendidos por poucas horas no mesmo hospital do Cantão do Valais, receberam cópias de faturas de cerca de 17 mil francos.
Na parte da fatura de Marcucci que deveria detalhar o custo, aparece apenas uma única rubrica tarifária: uma descrição técnica (“tratamento complexo de terapia intensiva…”), um código, uma sequência numérica e, por fim, o valor total do atendimento.
Documentos desse tipo chegam regularmente aos pacientes no país. Desde 2022, o artigo 42 da LAMal (Lei Federal sobre o Seguro-Saúde) obriga todos os prestadores de serviços de saúde a enviar ao paciente uma cópia da fatura encaminhada à seguradora. O objetivo declarado é a transparência: verificar os serviços faturados em seu nome, apontar erros e tomar consciência dos custos.
Marcucci pediu ao setor financeiro do hospital que lhe explicasse como se chegou àquela cifra por poucas horas de internação (o filho foi transferido para o hospital Niguarda, em Milão, após cerca de 15 horas de internação em Sion) e a razão da diferença em relação às faturas dos outros jovens, mas não obteve resposta. A esse respeito, o então chefe de governo do cantão do Valais também não lhe respondeu.
Até que ponto os pacientes podem realmente verificar uma fatura hospitalar? E o que podem fazer quando não concordam com ela? Em um país onde os gastos com saúde estão entre os mais altos do mundo e os prêmios dos seguros de saúde sobem continuamente, isso não é um mero detalhe técnico: os pacientes não podem ajudar a conter custos que não compreendem.
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Como nasce um valor
Na Suíça, desde 2012, as internações hospitalares agudas (ao contrário das internações psiquiátricas ou de reabilitação, que seguem outros sistemas) não são faturadas serviço por serviço, mas por uma taxa fixa por caso. Existem cerca de 1.070 grupos que reúnem casos clinicamente semelhantes. A atribuição de uma internação a um grupo “é um processo totalmente padronizado”, escreve Simon Hölzer, diretor da SwissDRG SA, a sociedade que desenvolve as tarifas em nome dos cantões, das seguradoras e dos hospitais.
Após a alta, codificadores especializados convertem os diagnósticos e as intervenções do paciente em códigos padronizados. A atribuição a um grupo é feita posteriormente por um software com base nesses códigos e em outros dados, como a idade. Cada grupo possui um custo pré-definido, que é multiplicado pela taxa básica do hospital (negociada anualmente com as seguradoras) para obter o valor final. Como as taxas básicas “variam de hospital para hospital”, escreve Hölzer, “o mesmo caso médico terá um custo diferente dependendo da instituição”.
O paciente vê apenas o produto final: o código, a descrição oficial e a multiplicação. “Para o paciente individual, a compreensão pode ser limitada”, escreve Hölzer. Consultando o catálogo do SwissDRG (o sistema de tarifas por grupos de diagnósticos), é possível verificar e reproduzir facilmente o cálculo final, mas não a classificação. A fatura não inclui os diagnósticos nem os procedimentos detalhados que levaram à atribuição daquele grupo e, portanto, daquele código. A omissão, explica Hölzer, é deliberada. Em parte, protege o sigilo médico, uma vez que “uma fatura é um documento administrativo, muitas vezes manuseado por pessoal não médico”; em parte, decorre do fato de o documento ser “projetado para exibir a unidade final de faturamento, e não os dados médicos detalhados”.
Duas internações que parecem idênticas do lado de fora podem gerar faturas diferentes por razões legítimas: complicações que transferem o caso para um grupo mais oneroso, pagamentos adicionais para “pacientes de alto risco e alto custo, incluindo queimados”, ou suplementos para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva), explica Hölzer. No entanto, esses fatores são absorvidos na codificação e não aparecem na fatura.
Transparente para quem?
“Oficialmente, a finalidade da cópia é permitir que o paciente verifique se ela está correta”, afirma Anne-Sylvie Dupont, professora de direito nas Universidades de Genebra e Neuchâtel e co-diretora do Instituto de Direito da Saúde. “Menos oficialmente, o motivo é também para que ele veja quanto custa ao sistema — e possa se sentir culpado”, já que os custos de cada um recaem sobre os prêmios de todos.
“Para mim, uma fatura é clara porque conheço o sistema muito bem. Mas para quem não o conhece, é impossível de entender”, afirma. Um erro grotesco – uma cirurgia cardíaca faturada para quem quebrou uma perna, por exemplo – chamaria a atenção. No entanto, determinar se o código correto foi utilizado é “muito, muito difícil”. Quando a escolha fica entre dois códigos semelhantes, acrescenta, a verificação é “em grande parte impossível”.
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Não é por acaso que as dúvidas sobre faturas são um tema recorrente nas consultas da Organização Suíça dos Pacientes (SPO), uma entidade sem fins lucrativos que oferece consultoria sobre os direitos dos pacientes. Uma porta-voz explicou que os pacientes geralmente reconhecem “a data do tratamento, mas não as rubricas tarifárias individuais, as abreviações ou o jargão técnico”.
Direitos dos pacientes e seus limites
O primeiro passo para quem não entende uma fatura é contatar o setor de faturamento do hospital, que pode explicar como ela foi gerada, informa a SwissDRG. O paciente também pode solicitar o relatório de codificação e o prontuário de alta médica.
Também é possível recorrer à seguradora de saúde e pedir que verifique o caso, explica a Prio.swiss, a associação das caixas de assistência médica suíças. Os pacientes podem conferir elementos concretos, como a duração da internação, mas a verificação técnica “exige competências especializadas”. As auditorias das seguradoras, por sua vez, costumam focar na cobertura, em possíveis “erros formais ou faturamento duplo” e na plausibilidade dos serviços prestados com base nos dados enviados pelo hospital.
“O sistema baseia-se em grande parte na confiança mútua”, confirma Dupont. “Se você recebe uma fatura por uma apendicectomia (cirurgia de remoção do apêndice), a seguradora não vai verificar se você realmente fez a operação. Em vez disso, ela busca padrões recorrentes, como um hospital com uma taxa de cesarianas muito acima da média”.
Quando as dúvidas persistem
“Existem pouquíssimas formas de contestar uma fatura se a sua seguradora diz: tudo bem, obrigado pela notificação, mas vamos pagar assim mesmo”, ressalta Dupont.
O paciente pode recorrer ao Órgão de Mediação do Seguro de Saúde, que oferece consultoria e mediação gratuitas, mas não emite decisões formais. Se desejar, pode exigir da seguradora uma decisão formal para contestar judicialmente. No entanto, para muitos pacientes, observa a SPO, não vale a pena: a parcela da fatura sob responsabilidade deles raramente é alta o suficiente para justificar a contratação de um advogado.
Correções acontecem, afirma a Prio.swiss, mas “frequentemente de forma discreta e nem sempre visível para os próprios segurados”. As seguradoras também podem denunciar um hospital às autoridades cantonais (governos estaduais), mas, de fora, é difícil saber o que acontece nesses casos. “Enquanto não houver uma decisão judicial, apenas os especialistas do setor sabem”, afirma Dupont.
“Opacidade disfarçada de transparência”
Um paciente residente no exterior geralmente não possui uma caixa de assistência médica suíça a quem recorrer. Seu “segurador”, segundo as regras de coordenação com a UE (União Europeia), é o sistema de saúde do seu país de origem, que ressarcirá a Suíça por meio de canais governamentais – um circuito sem interlocutores para o paciente. Para Marcucci, o envio da fatura é um caso de “opacidade disfarçada de transparência”.
Em resposta à Swissinfo, o governo do cantão do Valais informou que as questões de faturamento “não são de competência do governo” e que “são, em primeiro lugar, as seguradoras as responsáveis pela verificação das faturas”. O Hospital do Cantão do Valais declarou que a cópia “serve unicamente para informar o paciente sobre os serviços faturados à seguradora” e que não vem acompanhada de informações mais detalhadas. A instituição recusou-se a fazer qualquer comentário sobre o caso individual por razões de proteção de dados.
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Possíveis melhorias
Segundo Dupont, alguns cuidados adicionais poderiam ajudar os pacientes a interpretar as faturas hospitalares. “Poderiam ser adicionadas explicações no verso das cópias destinadas aos pacientes ou nos sites dos hospitais. O hospital cantonal de Turgóvia, por exemplo, publica um guia de leitura para as faturas no sistema DRG (grupo de diagnósticos homogêneos)”.
Os setores de ouvidoria e atendimento a reclamações, hoje comuns nos hospitais da Suíça francófona, também poderiam explicar as faturas, acrescenta. No entanto, o custo administrativo poderia superar o benefício. “Para mim, é bastante claro que o sistema não é transparente. Mas não tenho uma fórmula melhor para propor”, afirma.
Resta o outro objetivo da cópia: conscientizar sobre os custos para conter os gastos com a saúde. Mas Dupont também se mostra cética a esse respeito. “Há trinta anos vemos que isso não funciona”.
Edição: Daniele Mariani
Adaptação: Alexander Thoele
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