Ciência supera governo em confiança pública na Suíça
A ciência tornou-se a instituição mais confiável para a população suíça, à frente da polícia, do governo e do Parlamento, segundo o estudo anual “Segurança”, da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH).
Durante muitos anos, a polícia foi a instituição na qual a população suíça mais confiava. É o que mostra o estudo “SicherheitLink externo” (“Segurança”), publicado anualmente pela Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH). Hoje, outra instituição ocupa o primeiro lugar: a ciência.
Uma boa notícia, na avaliação da historiadora da ciência Naomi Oreskes, da Universidade Harvard. Para ela, isso demonstra que o público suíço valoriza “informações de alta qualidade” mais do que o público dos Estados Unidos.
O estudo “SicherheitLink externo” investiga a confiança na ciência desde 2018 e justificou, na época, a introdução dessa categoria pelas tendências observadas “especialmente nos Estados Unidos”.
O problema de “seguir a ciência”
Em países como a Suíça, a pandemia de Covid-19 transformou, entre outros fatores, o papel da ciência na sociedade em uma questão de disputa política.
A retórica adotada no início da pandemia fez soar seus “alarmes pessoais”, afirma a cientista política Eri Bertsou. Pesquisadora da Universidade de St. Gallen, ela estuda, entre outros temas, a tecnocracia – a ideia de que as decisões políticas deveriam basear-se mais fortemente no conhecimento especializado.
Na primavera de 2020, o então primeiro-ministro britânico Boris Johnson justificou decisões do governo com o slogan “Follow the Science” (“Siga a Ciência”). “Naquele momento pensei: meu Deus, isso não é nada bom”, diz. O que chamou sua atenção foi o artigo definido, e não a política adotada. “A ciência, como se existisse uma única resposta científica que pudesse ser seguida. Ela não existia naquele momento.”
Novos dados eram incorporados continuamente, e as hipóteses eram ajustadas. “Consequentemente, as avaliações e os modelos científicos mudaram ao longo da pandemia”, explica Bertsou. Quando os governos passaram a alterar suas políticas sanitárias, a ciência acabou sendo responsabilizada por essas mudanças. “Justamente porque os governos haviam afirmado anteriormente que estavam seguindo a ciência.”
A ideia de que a ciência pode oferecer respostas inequívocas para questões politicamente complexas é sedutora. No entanto, segundo Bertsou, o papel da ciência é apresentar seus conhecimentos como base para o debate democrático: “A decisão deve caber àqueles que terão de viver com suas consequências.”
O slogan “siga a ciência”, porém, transmitiu a impressão de que decisões políticas podem ser derivadas diretamente de descobertas científicas. “Isso apagou a fronteira entre o aconselhamento científico e a responsabilidade política”, explica Bertsou.
Ela observa, em muitos lugares, uma forte polarização das atitudes da população em relação à ciência. Essas posições são “específicas de cada contexto”. No Leste Europeu, após o fim da Guerra Fria, eram sobretudo setores da esquerda política que demonstravam ceticismo científico. Hoje, essas atitudes aproximaram-se mais das observadas na Europa Ocidental. Ali e nos Estados Unidos, são principalmente os setores da direita que se mostram mais céticos. O mesmo vale para a Suíça: o estudo “Sicherheit” revela que a confiança diminui “quanto mais à direita” se posiciona o indivíduo politicamente.
O fato de a população suíça, em seu conjunto, confiar mais na ciência do que em qualquer outra instituição não surpreende Bertsou. “Minha hipótese é a de que, em um mundo repleto de incertezas, existe uma necessidade adicional de encontrar algo que sirva de referência.”
Dados de um estudoLink externo realizado em 68 países – do qual Bertsou participou – mostram que muitas pessoas desejam que cientistas participem mais ativamente da vida política.
A confiança costuma ser considerada um recurso em desaparecimento. Diante da redução da confiança nas instituições em muitos países, diversas pessoas manifestaram preocupação nos últimos anos.
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Porém, Bertsou argumenta que a confiança não desaparece – ela apenas muda de lugar, como na lei da conservação da energia: “A confiança é relativa; ela precisa ser direcionada a algum lugar.” Quem perde a confiança na política pode depositá-la em uma figura populista – ou justamente na ciência. Quando a política é percebida como corrupta, algumas pessoas passam a depositar esperança em especialistas, vistos como estando fora do sistema.
A tecnocracia – ou o apelo “siga a ciência” – apoia-se justamente na promessa de que existiria uma política objetivamente correta e cientificamente fundamentada.
Quando a ciência serve ao Estado autoritário
Nas ditaduras não existe uma tensão crítica entre ciência e governo, afirma o cientista político Ralph Weber, pesquisador da Universidade da Basileia, especializado em China. “Pelo contrário: na China, espera-se que a ciência ajude o Partido a exercer seu poder.”
Segundo ele, não é coincidência que governos autoritários frequentemente adotem uma concepção tecnocrática da ciência: a ideia de que existe uma única melhor solução está intimamente ligada ao governo autocrático.
Em alguns casos, isso pode ser eficiente. Ao mesmo tempo, justamente a abertura do debate constitui uma das maiores forças da ciência nas democracias. “Podemos discutir qual é, de fato, o problema. Os Estados autoritários pulam essa etapa. Os regimes decidem de cima para baixo: o problema já está definido”, diz Weber.
Por causa de suas pesquisas e de sua atuação como consultor de “diversos atores científicos”, Weber é frequentemente confrontado com a questão de com quem e de que maneira é possível cooperar. Afinal, a ciência moderna é internacionalmente conectada – e o fato de que a ela desempenha funções e possui uma compreensão distinta de si mesma em Estados autoritários representa desafios para países democráticos como a Suíça.
Por um lado, trata-se de “continuar participando da competição global pelo conhecimento e pela inovação”, afirma Weber. Por outro, é preciso evitar que, nesse processo, se contribua, a longo prazo, para enfraquecer ainda mais a democracia.
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Para Weber, isso significa preservar a abertura sem ser ingênuo. É necessário investir em “uma cooperação científica maximamente informada”. Ou seja, promover intercâmbio, pesquisa e colaboração, mas com consciência dos riscos. “Se alguém pesquisa hidráulica em cooperação com a China, deve ser capaz de avaliar o que significa, para o projeto, a ausência de uma separação entre pesquisa civil e militar.” Ninguém deveria descobrir apenas depois que suas próprias descobertas contribuíram para a construção de mísseis de longo alcance.
Quando Weber fala dos desafios da cooperação científica, já não pensa apenas em Estados autoritários como a China, mas também, em escala global, em democracias que enfrentam “fortes desafios autoritários internos”, como Índia ou Estados Unidos. Nas últimas décadas, a proporção de democracias no mundo diminuiu.
Como muitos outros pesquisadores, Weber acompanha com preocupação a situação nos Estados Unidos: “Estamos assistindo, de forma muito clara, à transformação de um parceiro científico tradicionalmente forte.”
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Desafios para as universidades – do YouTube a Trump
O elevado nível de confiança das suíças e suíços na ciência surpreende Weber.
Segundo ele, “não menos como consequência da digitalização”, o ceticismo em relação à ciência aumentou. Enquanto na época em que era estudante ele teria hesitado em contradizer um professor, hoje as pessoas, graças aos canais digitais, questionam muito mais rapidamente as autoridades sociais. “Mas isso também vem acompanhado de uma permeabilidade entre opinião e conhecimento. No pior dos casos, procuro no universo do YouTube algo que reforce minha opinião e depois passo a chamar isso de conhecimento.”
Isso coloca as universidades sob pressão. “Elas precisam demonstrar seu valor para a sociedade e encontrar a altitude certa para explicar como o conhecimento científico é produzido”, afirma Weber. Isso inclui mostrar que as ciências humanas e sociais frequentemente produzem um tipo de conhecimento diferente daquele obtido por uma prova laboratorial, ou explicar a diferença entre conhecimento objetivo e uma interpretação fundamentada.
Comunicar melhor aquilo que a ciência oferece ao conjunto da sociedade é também a reivindicação da historiadora de Harvard Naomi Oreskes. Ela observa, entre muitos cientistas, uma dificuldade em lidar com a crescente polarização e com a perda de confiança de parte da população norte-americana na ciência.
Segundo Oreskes, a “liderança das comunidades científicas” deveria dialogar com disciplinas como sociologia e ciência política para refletir sobre como a ciência pode estar mais presente “para atender às necessidades humanas” e demonstrar “como nosso trabalho ajuda as sociedades nas quais vivemos”.
Ela vê a ciência como uma força contrária ao autoritarismo: “A ciência, como empreendimento, representa uma ameaça aos governos autoritários porque é uma fonte de pensamento independente e, potencialmente, uma fonte de voz independente.” Ainda que, naturalmente, nem todos os cientistas, em todas as épocas, tenham defendido princípios democráticos.
Oreskes afirma que, como um todo, a ciência é um empreendimento orientado por valores. Seu princípio mais importante continua sendo a busca pela verdade.
O elevado grau de confiança na ciência é justificado porque ela “dispõe de uma estratégia para detectar e corrigir erros”. Essa confiança também é necessária, acrescenta, “porque a ciência levanta questões complexas que nenhum de nós pode responder sozinho”.
No estudo “Sicherheit”, os índices de confiança na ciência foram, em todos os anos, superiores aos atribuídos ao governo suíço.
Edição: Meret Michel
Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos
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