Crise do cacau abre espaço para Brasil vender à Suíça
A alta histórica do cacau após quebras de safra na África Ocidental expôs a dependência da indústria suíça de chocolate de poucos fornecedores e abriu espaço para países como o Brasil.
Após duas colheitas consecutivas de cacau decepcionantes na África Ocidental, em 2023-2024 e 2025-2026, a indústria suíça do chocolate foi obrigada a enfrentar uma vulnerabilidade antiga: sua dependência de um pequeno número de fornecedores para uma de suas principais matérias-primas.
A produção de cacau na Costa do Marfim e em Gana, que juntos respondem por cerca de 60% da oferta mundial, foi duramente afetada por condições climáticas adversas, pragas e doenças. A safra de 2023-2024 ainda sofreu os efeitos do fenômeno climático El Niño, que provocou secas, chuvas excessivas e temperaturas excepcionalmente elevadas, reduzindo a produtividade e agravando a incidência de doenças.
Como resultado, a matéria-prima do mais famoso produto culinário de exportação da Suíça viu seu preço médio no mercado internacional subir de cerca de 2.500 d´ólares por tonelada, em 2022, para o recorde de mais de 10 mil dólares por tonelada, em 2024, segundo dados de futuros da Intercontinental Exchange (ICE). Embora os preços tenham recuado desde então, eles permanecem altamente voláteis, à medida que o mercado continua reagindo às incertezas em relação à oferta global.
O choque nos preços do cacau também afetou as principais empresas suíças. Barry CallebautLink externo, a maior fabricante de chocolate do mundo, registrou queda no volume de vendas à medida que os preços do cacau dispararam em 2025.
“O aumento dos preços registrado nos últimos anos fez a indústria perceber que há uma enorme dependência da África Ocidental, particularmente da Costa do Marfim”, afirma Christian Robin, diretor-geral da Plataforma Suíça para o Cacau Sustentável. “Acredito que, nos próximos anos, a África continuará sendo extremamente relevante. Mas, naturalmente, as empresas estão tentando diversificar mais suas fontes de abastecimento. Essa é uma tendência clara, que inclui países como Peru, Equador e, evidentemente, o Brasil.”
A importância da questão para a Suíça vai muito além do simbolismo do chocolate. De acordo com a Chocosuisse (Associação Suíça dos Fabricantes de Chocolate), o setor gera cerca de 2,2 bilhões de francos (US$ 2,7 bilhões) por ano, e o país exporta mais de 70% de sua produção nacional.
Dados da Plataforma Suíça para o Cacau Sustentável indicam que o país processa aproximadamente 57 mil toneladas de cacau por ano, matéria-prima importada da África, da América Latina e do Caribe. Assim, as quebras de safra que afetaram os principais produtores nos últimos anos rapidamente se tornaram motivo de preocupação para uma das indústrias mais tradicionais da Suíça.
Neste ano, os preços do cacau recuaram com a melhora das condições climáticas. Ainda assim, permanecem muito acima dos níveis observados antes da crise na África Ocidental, o que indica que o mercado ainda enfrenta pressões estruturais.
Crise expõe vulnerabilidades
Segundo Robert Finger, professor de Economia e Política Agrícola da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH), a queda das colheitas de cacau na África reflete alguns dos crescentes desafios de resiliência enfrentados pelos sistemas agrícolas e alimentares, impulsionados, entre outros fatores, pela crescente incidência de eventos climáticos extremos e pelas perdas de safra deles decorrentes, bem como por riscos de mercado e institucionais.
O cacau é particularmente vulnerável às mudanças climáticas porque depende de condições relativamente estáveis de temperatura e precipitação, além de estar concentrado em uma estreita faixa tropical.
Para Finger, as empresas suíças de chocolate terão de se adaptar e buscar novos fornecedores, mesmo que isso implique custos mais elevados.
“A diversificação da produção, das fontes de abastecimento e das fontes de renda é, certamente, uma estratégia viável para enfrentar esses desafios. No entanto, a diversificação sempre tem um custo. Quando as atividades são diversificadas, as vantagens de custo, em geral, não podem ser plenamente aproveitadas, e os custos de transação aumentam”, afirma.
Diversificação no Brasil
Durante grande parte do século 20, o país figurou entre os maiores produtores de cacau do mundo. Concentrada no sul do estado da Bahia, o cultivo do cacau transformou a economia regional e fez do Brasil o segundo maior produtor mundial, atrás apenas da Costa do Marfim.
Entretanto, a partir do fim da década de 1980, a propagação da doença conhecida como vassoura-de-bruxa, que ataca os cacaueiros, provocou uma forte queda na produção e reduziu a importância do Brasil nos mercados internacionais.
Hoje, o Brasil ainda figura entre os dez maiores produtores mundiais de cacau, com uma produção de cerca de 200 mil toneladas por ano. Ainda assim, permanece muito atrás da Costa do Marfim e de Gana, que juntos produzem 2,4 milhões de toneladas anuais, segundo a Organização Internacional do Cacau (ICCO).
“As fragilidades estruturais, especialmente na África Ocidental, devem de fato criar oportunidades duradouras e estruturais para o Brasil nos próximos anos, sobretudo diante da crescente percepção de que o cacau pode se tornar uma cultura mais rentável do que foi no passado”, afirma Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da StoneX, empresa global de serviços financeiros e consultoria de mercado.
O Brasil ainda desempenha um papel apenas marginal nas importações suíças de cacau.
Dados da alfândega suíça mostram que as importações de grãos de cacau brasileiros aumentaram de 64 toneladas em 2023 para 99 toneladas em 2024, um crescimento de quase 55%. Mesmo assim, o Brasil respondeu por menos de 1% das importações suíças de grãos de cacau, o que evidencia que qualquer expansão ainda está em estágio inicial, já que os compradores suíços continuam dependendo principalmente de fornecedores da África Ocidental e da América Latina.
Como resultado, o governo brasileiro definiu como meta de curto prazo aumentar a produção nacional de cacau para 300 mil toneladas.
Buscando recuperar relevância no mercado internacional, produtores do estado da Bahia já procuram atrair investimentos da Suíça para ampliar seu acesso ao mercado suíço.
“Nosso importador suíço levantou a possibilidade de certificar nossas fazendas. Pretendemos propor uma parceria na qual o importador possa ajudar a financiar a certificação e oferecer maiores incentivos aos produtores”, afirma Orlantildes Santos, produtor de cacau da Bahia e presidente da Coopercabruca, Cooperativa dos Produtores de Cacau do Sul da Bahia. Segundo ele, a cooperativa produz 550 toneladas de cacau por ano e exporta cerca de 20% desse volume para a Suíça.
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O chocolate sem cacau chega à Suíça
Mesmo diante das novas oportunidades, Santos ressalta que desafios macroeconômicos, como a taxa básica de juros do Brasil, atualmente em 14,25% ao ano, têm limitado os investimentos voltados à expansão da produção.
“O volume de investimentos está diretamente ligado ao preço das amêndoas de cacau, que é desafiador e volátil. Isso faz com que os níveis de investimento permaneçam baixos. Soma-se a isso a escassez de financiamento disponível por parte dos bancos”, afirma.
Sustentabilidade como fator de diferenciação
A certificação mencionada por Santos tem como objetivo atender a uma demanda crescente por cacau de maior qualidade e com menores impactos sociais e ambientais.
“A rastreabilidade é importante para saber de onde vem o cacau e em que condições ele foi produzido. Existe, por assim dizer, a pegada climática, a pegada econômica, mas também os riscos relacionados aos direitos humanos. A tendência de maior transparência, maior rastreabilidade, controles mais rigorosos sobre os riscos aos direitos humanos, garantia de que o cacau não provenha de áreas desmatadas e promoção de modelos de produção mais regenerativos, favoráveis ao clima e neutros em carbono é, certamente, uma tendência de longo prazo”, afirma Christian Robin, da Plataforma Suíça para o Cacau Sustentável.
É justamente aí que o Brasil enxerga sua oportunidade. Segundo Thiago Guedes, diretor do Comitê Executivo do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), órgão vinculado ao Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil, é pouco provável que o país reproduza o modelo de produção extensiva adotado em alguns países africanos. Em vez disso, a estratégia brasileira deverá ser mais sofisticada, combinando expansão da escala de produção com agregação de valor e sustentabilidade.
“É importante entender que o mercado mundial de cacau está passando por uma transformação. A tendência é que o Brasil consolide uma posição híbrida: relevante em termos de volume, mas especialmente forte em sustentabilidade, qualidade e rastreabilidade”, afirma.
As decisões sobre o abastecimento são tomadas de forma independente por cada fabricante de chocolate e dependem de fatores como qualidade, disponibilidade, padrões de sustentabilidade, rastreabilidade, confiabilidade e preço.
Barry Callebaut afirma adotar um modelo de precificação baseado no sistema cost-plus (custo-mais), a fim de mitigar a volatilidade das matérias-primas. Ainda assim, o choque nos preços do cacau afetou a demanda. Em seus resultados do primeiro semestre do exercício fiscal de 2024/25, a empresa informou que os preços do cacau haviam subido 95% em relação ao ano anterior e que a desorganização do mercado levou a uma queda de 4,7% no volume total de vendas. A companhia também declarou que os aumentos expressivos no preço das amêndoas de cacau afetaram negativamente a demanda em sua divisão Global Cocoa.
A empresa não respondeu aos pedidos de comentário sobre eventuais planos de ampliar suas compras de cacau do Brasil.
Apesar do crescente interesse, analistas e especialistas do setor observam que o Brasil enfrenta custos de produção mais elevados e forte concorrência de outras culturas agrícolas, fatores que podem limitar uma rápida expansão da oferta. O país é um dos maiores produtores mundiais de soja, café, cana-de-açúcar, milho, laranja e carne bovina, mas o cacau representa apenas uma pequena parcela de sua produção agrícola.
“No Brasil, há muitas culturas concorrentes. E o país é forte em todas elas. Portanto, tudo depende dos níveis de preços. Se os preços do cacau se mantiverem consistentemente elevados durante vários anos, acredito que o Brasil poderá voltar a ser um importante produtor”, afirma Robin, da Plataforma Suíça para o Cacau Sustentável.
Edição: Virginie Mangin/ds
Adaptação: Karleno Bocarro
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