The Swiss voice in the world since 1935
Principais artigos
Debate
Newsletter

Suíça ajuda a combater incêndios na Europa, mas cooperação oficial permanece incerta

Socorrista exausta: uma bombeira na zona afetada pelo incêndio florestal a oeste de Madrid.
Exausto: um bombeiro a oeste de Madrid, 26 de julho de 2026. Copyright 2026 The Associated Press. All Rights Reserved

Enquanto incêndios florestais assolam a Europa, a Suíça ajuda a apagá-los. Mas, se precisar de ajuda, Berna pode ficar no fim da fila – sobretudo se os recursos da União Europeia já estiverem no limite.

“O que estamos vivendo agora na Europa é o início de uma nova era de incêndios florestais e eventos climáticos extremos”, diz Christine Eriksen, pesquisadora sênior do Centro de Estudos de Segurança do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zurique).

Em julho, grandes incêndios florestais na França e na Espanha já haviam afetado mais de 220 mil hectares de terra – dez vezes a área do Lago de Neuchâtel, o maior lago totalmente suíço.

Preparando-se para o futuro

A principal área de atuação de Eriksen é o estudo dos incêndios florestais e de como a sociedade pode se tornar mais resiliente a eles. Para ela, é evidente que a Suíça também terá de enfrentar incêndios no futuro. “Se reunirmos conhecimento agora, estaremos mais bem preparados para o que vier”, afirma.

Conteúdo externo

A escala dos incêndios na Europa não é o único desafio. “A gravidade e a duração das ondas de calor também são inéditas”, afirma Eriksen.

França e Espanha, em particular, vêm aprimorando sua preparação para incêndios florestais, acrescenta a pesquisadora. Nesse ponto, o Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia desempenha um papel importante. Já em 2001, a União Europeia (UE) começou a integrar recursos de resposta a emergências. Desde então, os Estados-membros têm se ajudado a reagir a grandes desastres naturais.

Além dos Estados-membros da UE, outros dez países também participam do mecanismo, incluindo Noruega e Islândia, integrantes do Espaço Econômico Europeu (EEE), e todos os países candidatos à adesão à UE, como Albânia, Sérvia e Turquia.

>> Por que tantos incêndios estão surgindo em 2026 e o que pode ser feito para evitá-los?

Mostrar mais
incêndio florestal

Mostrar mais

Adaptação climática

Como prevenir incêndios florestais na Suíça e na Europa

Este conteúdo foi publicado em Com várias regiões da Suíça sob alto risco de incêndios florestais, especialista explica por que este ano a temporada do fogo começou mais cedo na Europa e o que pode ajudar a amenizar a situação.

ler mais Como prevenir incêndios florestais na Suíça e na Europa

Berna à margem

A Suíça, no entanto, permanece à margem do sistema até hoje. Se os recursos de emergência no continente se tornassem escassos e houvesse uma disputa pela distribuição, é provável que Berna ficasse atrás dos Estados-membros da UE e dos países parceiros na lista de prioridades.

Mas, desta vez, esse isolamento suíço não é resultado de decisões políticas: em 2023, o parlamento chegou a aprovar uma moçãoLink externo pedindo ao governo que aderisse ao Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia (UCPM, na sigla em inglês). Os ministros agiramLink externo e os preparativos estão em curso – mas a Suíça continua na sala de esperaLink externo.

O problema é que as regras da UE não foram criadas para acomodar países de fora do bloco, como a Suíça, o que significa que o país não pode aderir oficialmente ao mecanismo por enquanto. Isso pode mudar se o Parlamento Europeu seguir a proposta da Comissão de alterar a legislação – mas isso só aconteceria em 2027, na melhor das hipóteses.

Helicópteros suíços na Europa

Até lá, a Suíça ainda consegue cooperar em certa medida com seus vizinhos graças a um acordo técnico, a exercícios de treinamentoLink externo multilaterais e, sobretudo, a atos de solidariedade, como o envio de helicópteros e equipes de combate a incêndios para ajudar na resposta a desastres.

Por exemplo, três helicópteros Super Puma do Exército suíço estão atualmente em ação na Córsega. Lá, eles voam sete horas por dia, e cada helicóptero realiza mais de 20 descargas de água. “Combatemos incêndios que estão apenas começando, o que significa que conseguimos proteger a tempo pessoas, infraestrutura e a natureza”, conta David Sochor, líder da equipe da missão, à Swissinfo.

A contribuição da Suíça para a sustentabilidade dos serviços de emergência locais: um Super Puma do Exército Suíço em ação na Córsega, a 30 de julho de 2026.
Um Super Puma do Exército Suíço em ação na Córsega, a 30 de julho de 2026. EDA

Em 2021 e 2023, helicópteros e equipes especializadas suíços ajudaram a combater incêndios na Grécia; em 2017, foram enviados à Itália, a Portugal e a Montenegro. Neste ano, a Suíça também enviou pela primeira vez uma unidade de bombeiros à região francesa em torno de Bordeaux.

Por outro lado, a Suíça já viveu sua primeira emergência envolvendo o UCPM, mecanismo que qualquer país atingido por uma catástrofe, na Europa ou fora dela, pode acionar oficialmente. Após o incêndio de Ano Novo em Crans-Montana, neste ano, Berna acionou o mecanismo, e vários países da UE ofereceram ajuda rapidamente e sem burocracia, principalmente com transporte especial e vagas hospitalares para vítimas de queimaduras.

Estudo de caso da eficiência

“Crans-Montana nos mostrou que, quando precisamos de recursos especiais – como ambulâncias aéreas –, não temos o suficiente”, diz Roland Bollin, chefe da Unidade de Assuntos Internacionais do Escritório Federal de Proteção Civil (FOCP, na sigla em inglês). “Também vimos como esse mecanismo de solidariedade [da UE] funciona de forma eficiente”, acrescenta.

Para o especialista em proteção civil, o conjunto de recursos da UE é um exemplo de como a ajuda transfronteiriça pode superar em muito a capacidade de um único país: a União Europeia mantém hoje uma reserva estratégica de 22 aeronaves de combate a incêndios e resgate, além de cinco helicópteros. Outros doze aviões já foram encomendados, mas há atrasos na entrega.

Sete aeronaves de combate a incêndios e quatro helicópteros de cerca de sete países, da Suécia à Turquia, estão atualmente mobilizados no combate aos incêndios florestais na França.

Conteúdo externo

Comprar aviões próprios?

A Suíça poderia comprar suas próprias aeronaves para combater incêndios? Segundo Bollin, isso hoje “não é prático”. Essa foi a conclusão de um relatório produzido por especialistas e publicado pelo governo em 2022, em resposta a uma moção parlamentarLink externo. Para o relatório, o risco é claro: “temperaturas mais altas combinadas com períodos secos mais longos aumentam a probabilidade de incêndios florestais mais frequentes e intensos na Suíça”. No entanto, acrescenta o documento, “a opinião dos especialistas envolvidos no relatório é de que a Suíça não deveria adquirir aeronaves de combate aéreo a incêndios”.

Em vez disso, sugeriram, o acesso a recursos internacionais deveria ser esclarecido: “Os recursos disponíveis por meio do UCPM, como aviões ou helicópteros de combate a incêndios, deveriam ser considerados”.

Sistema de emergência sob pressão

Mas, enquanto a Suíça não for membro do mecanismo da UE, não fica claro como o bloco responderia a um pedido de ajuda de Berna em caso de incêndio florestal – sobretudo em agosto ou setembro, quando os recursos já estão no limite devido à demanda ao redor do Mediterrâneo.

O UCPM já está sob pressão e, se os recursos de combate a incêndios forem insuficientes, será preciso fazer uma triagem. “No caso de pedidos concorrentes [de ajuda], a questão é onde podemos ter mais impacto”, disse um funcionário da UE à imprensa no final de julho.

Não é uma opção para a Suíça: um avião especializado no combate a incêndios da marca Canadair em ação perto de Bordéus, a 28 de julho de 2026.
Um avião Canadair de combate a incêndios em ação perto de Bordeaux, na França, em 28 de julho de 2026. Keystone

Para Eriksen, especialista da ETH Zurique, o desastre de Crans-Montana mostrou que a Suíça pode recorrer ao UCPM. Mas e se Bruxelas tivesse de escolher entre ajudar um Estado parceiro ou a Suíça em caso de incêndio florestal? “Nesse caso, eu imagino que um Estado parceiro teria prioridade”, diz ela – suposição compartilhada por Bollin, do Escritório Federal de Proteção Civil.

No fim, tudo se resume à solidariedade. Os países do UCPM pagam uma contribuição baseada na força econômica de cada um. Para a Suíça, isso significaria hoje cerca de 11 milhões de francos suíços (US$ 13,6 milhões) por ano. Em troca, a ajuda aos países é coberta, descontada uma franquia de 10% a 25%.

Aprendendo na prática

Em um estudo de 2021Link externo encomendado pelo Escritório Federal de Proteção Civil, Eriksen avaliou os prós e contras de uma parceria suíça com o UCPM. As vantagens são claras: acesso ao conjunto de recursos, a programas de capacitação e treinamento, e à experiência operacional. “Os bombeiros da Suíça francófona que foram à região de Bordeaux não estão apenas prestando ajuda. Eles também estão ganhando experiência valiosa”, diz Eriksen.

Bollin concorda. “Se quisermos desenvolver ainda mais a proteção civil, precisamos nos conectar mais internacionalmente. Só temos a aprender”, afirma. Ele acrescenta que o conjunto de recursos da UE tem “capacidades incríveis” e que as equipes de emergência são altamente especializadas. Além disso, o conjunto amplia suas capacidades a cada ano e a cada operação; o UCPM é acionado quase semanalmente.

Mas a Suíça também poderia dar uma contribuição importante. “Ela traz uma enorme experiência na área de ajuda humanitária”, diz Eriksen. Bollin destaca o know-how suíço em eventos nucleares, biológicos e químicos, além da proteção de infraestrutura crítica. “A Suíça também é muito forte na área de prevenção”, afirma.

Melhor prevenir do que remediar

No momento, com a devastação ligada às mudanças climáticas afetando a Europa, os esforços de prevenção estão se tornando mais importantes.

>> O gráfico abaixo mostra como os incêndios florestais têm se tornado mais graves na França na última década:

Conteúdo externo

Segundo o jornal alemão Frankfurter Allgemeine ZeitungLink externo, um funcionário da UE disse esta semana que os Estados-membros precisam fazer mais em termos de prevenção. “Caso contrário, não conseguiremos responder no futuro, mesmo que tenhamos 100 vezes mais aeronaves”, afirmou.

A Europa está entrando em uma nova era de incêndios florestais. As equipes suíças vêm ganhando experiência na Córsega, em Bordeaux e em outras partes do continente. A questão crucial é saber se o país poderá contar com ajuda no próximo grande incêndio.

Edição: Pauline Turuban/fh
Adaptação: Clarice Dominguez

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR