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Um centro de pesquisas revolucionando o setor relojoeiro?

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No coração da indústria relojoeira suíça, o novo centro de pesquisas situado em Neuchatel, chamado de Microcity , tem a grande ambição de se tornar um centro mundial de microengenharia capaz de revolucionar a tecnologia relojoeira. Mas problemas na economia local poderiam impedir.

Este conteúdo foi publicado em 20. junho 2014 - 13:33
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Situado discretamente no centro de um dos novos laboratórios da Microcity, um pequeno cubo de metal gira silenciosamente sobre uma mesa ligada a fontes de energia e sensores.

Este protótipo pode não parecer tão especial, mas o Professor Simon Henein e sua equipe de laboratório têm grandes esperanças de que esta pesquisa possa revolucionar a eficiência e a precisão dos relógios mecânicos, que se mantêm inalteradas desde o final do século XVIII. 

“Não se trata de um aprimoramento gradual. O que estamos propondo poderia representar um grande avanço na produção de relógios mecânicos,” afirma Henein, que ocupa a Cátedra Patek Philippe de Micromecânica e Design de Relógios, fruto de uma parceria realizada em 2012 entre a grande empresa relojoeira Patek Philippe e o Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne (EPFL).

Dentro do dispositivo metálico, apelidado de “IsoSpring”, um oscilador gira constantemente na mesma direção. A novidade é que ele funciona sem o uso de um escapamento, a parte mais complicada e delicada do mecanismo do relógio, que é a fonte do tique-taque.

Seus criadores afirmam que este novo mecanismo tem o potencial para ser um mostrador de horas muito acurado.

“O mecanismo tradicional de tique-taque produz muito ruído desnecessário e tem uma eficiência de apenas 35%. O que temos é apenas um protótipo, mas que perde apenas um segundo por dia e não necessita de qualquer manutenção ou óleo, o que já faz com que seja mais preciso do que alguns relógios de pêndulo bem caros”, afirma o cientista Ilan Vardi.

Depois de patentear e atestar este novo conceito, Henein e sua equipe agora planejam buscar parceiros industriais para continuar o desenvolvimento do sistema. O próximo passo é miniaturizar o sistema para que ela possa caber em um relógio de pulso.

Patek Philippe não é a única empresa relojoeira interessanda no trabalho da Microcity, inaugurada a 8 de maio e financiada com dinheiro público. Em abril, o Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne e o luxuoso grupo Richemont, que faz relógios sofisticados como os Cartier, Jaeger-LeCoultre e Piaget, anunciaram a criação de uma cátedra para “Tecnologias de produção em escala múltipla”.

Enquanto o maquinário tradicional e os processos de estampagem de metal ainda desempenham um importante papel na fabricação de relógios, as empresas estão buscando novas tecnologias, como máquinas a laser, impressoras 3D e gravação a plasma.

“Lidamos com uma clientela exigente e sofisticada, com o aumento da competitividade e com a constante evolução da tecnologia”, esclareceu Richard Lepeu, Vice-Chefe-Executivo da Richemont.  “Estas novas tecnologias abrem um grande leque de possibilidades técnicas para responder às futuras demandas industriais.”

O Grupo PX, líder no mercado de fabricação de relógios e acessórios, também está fundando uma cátedra em Metalurgia Termomecânica no valor de SFr 500.000,- francos suíços por ano (equivalentes a US$ 556.000 dólares).

Os pesquisadores da Microcity afirmam que a pesquisa que estão desenvolvendo não é exclusividade de seus patrocinadores e que possuem total independência científica.

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Revertendo a baixa nas exportações

Desde as suas origens no século XVI em Genebra e na região do Jura, a indústria relojoeira suíça expandiu-se para os cantões de Neuchatel, Berna, Solothurn e, posteriormente, para o cantão da Basileia, que anualmente sedia a Feira de Relógios Baselworld. Em setembro de 2013, mais de  57.000 pessoas trabalhavam nos segmentos de relojoaria e microengenharia em 572 empresas. Quase 15.500 destes trabalhadores estavam baseadas no cantão de Neuchatel.

Autoridades do setor têm esperanças de que a sinergia de ter a Microcity próxima ao Centro Suíço de Eletrônica e Microtecnologia, em Neuchatel, reunindo 600 pesquisadores, auxiliará a incrementar a economia suíça e o setor relojoeiro suíço, que precisam se recuperar de um recente esfriamento nas vendas devido a baixas demandas, especialmente na China.

As exportações de relógios suíços, melhor indicador do tamanho do mercado, cresceram 1,9%, atingindo SFr 21,8 bilhões de francos suíços no ano passado (equivalentes a US$ 24,3 bilhões de dólares), muito abaixo dos grandes aumentos de dois dígitos registrados em anos anteriores.

“Microcity está no centro do cluster industrial. Por isso vai atrair competências e projetos de pesquisas e estimular a competição de forma lucrativa para todo o setor relojoeiro,” declarou Jean-Daniel Pasche, presidente da Federação Suíça da Indústria Relojoeira.

“Precisamos inovar continuamente, especialmente no campo da microtecnologia, que é a base do nosso setor.”

Microcity

O prédio da Microcity na cidade de Neuchatel foi inaugurado oficialmente a 8 de maio. Com custos de SFr 71 milhões de francos suíços (equivalentes a US$ 79 milhões de dólares), o prédio, que pertence ao cantão de Neuchatel, mas é gerenciado pelo Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne (EPFL), pretende ser um polo de expertise em microengenharia na Suíça. Juntamente com o Centro Suíço de Eletrônica e Microtecnologia (CSEM), o campus externo do Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne abrigará 600 pesquisadores de seus 12 laboratórios de pesquisa, bem como o parque Neode.

O prédio reúne sob o mesmo teto todas as atividades do Instituto de Microengenharia (IMT), situado em Neuchatel. O IMT prioriza atualmente projetos como manufaturas sustentáveis, motores de consumo ultrabaixo e células solares finas, mas pretende expandir suas atividades enquanto mantiver laços fortes com a indústria relojoeira.

O novo centro pretende criar sinergias entre a pesquisa aplicada e a indústria, com várias cátedras sendo financiadas por empresas, como o grupo de artigos de luxo Richemond, a empresa relojoeira Patek Philippe e a fabricante de acessórios para relógios Grupo PX. 

Esta região é historicamente conhecida como o centro da indústria relojoeira, uma expertise que remonta ao século XVII, e pelos recentes desenvolvimentos em microtecnologias.

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Fraquezas dos cantões

Esta iniciativa também encontra apoio vindo de fora da Suíça.

“A Microcity provavelmente trará para a região de Neuchatel e para a Suíça um ímpeto adicional para crescer a afirmar a sua posição de liderança na área de microengenharia não apenas na Europa, mas a nível mundial”, declarou Iris Lehmann, gerente de pesquisa econômica da IVAM, a Associação Internacional de Empresas e Institutos da Área de Microtecnologia e Nanotecnologia, situada na Alemanha.

“A IVAM vem acompanhando o desenvolvimento de clusters industriais nas áreas de microtecnologia e nanotecnologia na Europa. A região de Neuchatel é uma das mais importantes na área de nanotecnologia em toda a Europa e um grande exemplo de como indústrias tradicionais, como a relojoeira e a de engenharia de precisão, podem avançar e passar a usar tecnologias altamente inovadoras.”

Mas nem todos têm a mesma opinião. Elias Hafner, analista da UBS, afirma que, no papel, o projeto parecia “adequar-se à economia local” e tinha potencial para desenvolver-se mais, dando um impulso positivo à competitividade de Neuchatel.

“Mas ainda é muito pouco em comparação com a Europa e mesmo com a própria Suíça”, acrescentou. No lado francês das montanhas do Jura, a microengenharia é um setor importante. Na Alemanha também. Na Suíça, a Microcity vai atuar em concorrência com  Zurique, que também é um centro de microengenharia e de nanotecnologia, em especial o Instituto Federal de Tecnologia (ETHZ) e o Laboratório Federal Suíço de Ciências de Materiais e Tecnologia (Empa).

Inovador, mas pouco diverso

O cantão de Neuchatel ficou na 20ª posição, entre 26 cantões, num ranking realizado pela UBS que indicava o grau de competitividade. Ficou em 4º lugar no quesito ‘inovação’ e em segundo lugar no quesito ‘dinamismo’, mas obteve más notas nos itens ‘diversificação’ e ‘mercado de trabalho’.

“O risco é que o cantão esteja investindo muitos recursos e criando muitas esperanças em um projeto e esteja desconsiderando outras questões importantes”, advertiu. “Do ponto de vista externo, o cantão é forte, tem grande volume de exportações, empresas sólidas e uma boa capacidade de inovação – medida, por exemplo, no alto número de patentes registradas. Mas, internamente, vejo fraquezas e perda de substância.”

“O nível de desemprego entre os jovens é o mais alto da Suíça e há uma emigração de pessoas de alta renda de Neuchatel para outros cantões. Também há uma dívida pública relativamente alta e pensões públicas subfinanciadas, que claramente limitam as verbas futuras que viriam reforçar a atratividade do cantão.”

“Estas questões deveriam ser tratadas com mais seriedade.”

Polo descentralizado

O campus do Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne (EPFL) em Neuchatel é o primeiro passo do plano de descentralização do EPFL, que incluirá o projeto de neurociência ‘Human Brain Project’ em Genebra, outro projeto encaminhado a 11 laboratórios de energia aplicada em pesquisa de saúde, na cidade de Sion, no cantão do Valais (previsto para abrir em 2015), e o futuro “the Smart Living Lab” em Friburgo, focado em tecnologias de construção e arquitetura.
 
O EPFL e os cantões do oeste do país - Vaud, Valais, Friburgo, Neuchatel e Genebra – esperam que esta descentralização seja vista como a sua contribuição futura para um parque nacional de inovação que será criado em conjunto com o Instituto Federal de Tecnologia de Zurique e outras regiões.

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