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Sem apoio da indústria, casal inicia pesquisa de gene para salvar filho

bebé no hospital
Os médicos realizaram uma série de exames para ver o que estava a causar as convulsões de Erik, mas não havia nada de anormal nele. Mariann Vegh

Ignorados pela indústria farmacêutica, pais suíços de uma criança com uma doença genética ultrarrara criaram uma associação, iniciaram pesquisas e levantaram fundos para desenvolver uma possível terapia gênica.

O 2 de fevereiro de 2025 foi o dia mais assustador da vida de Mariann Vegh, diretora de marketing de uma empresa de saúde do consumidor. Ela acabava de voltar de um passeio pelo bairro onde mora, em Trélex, no oeste da Suíça, com seu filho Erik, de cinco meses, que dormia tranquilamente no carrinho. Quando acordou, o bebê começou a ter convulsões e dificuldade para respirar. Com a chegada da ambulância, a convulsão já havia passado, mas Mariann jamais irá se esquecer da sensação de impotência naquele momento.

“Foram apenas oito minutos até a chegada dos serviços de emergência, mas pareceu uma eternidade”, conta a mãe do bebê à Swissinfo. “Ainda consigo ouvir minha voz chamando desesperadamente por Erik”, recorda.

Nas duas semanas seguintes, enquanto permaneceu internado no hospital, o bebê teve várias outras convulsões, enquanto os médicos realizavam uma série de exames para identificar a causa do problema. Os exames de sangue e as ressonâncias magnéticas não revelaram qualquer anomalia.

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A resposta chegou dois meses depois. Os testes genéticos revelaram que Erik tinha Deficiência de Asparagina SintetaseLink externo (ASNSD, na sigla em inglês), uma doença rara e hereditária causada por uma mutação no gene ASNS, que leva a graves problemas neurológicos. A doença é recessiva, o que significa que tanto Mariann como o seu marido, Balázs Karancsi, transmitiram o gene mutante.

Não existe uma definição global única para o conceito de “doença rara”, mas a maioria das pessoas utiliza limites de prevalência: a Organização Mundial da Saúde (OMS) defineLink externo uma doença rara como aquela que afeta uma em cada 2 mil pessoas ou menos no mundo; nos EUA, seriam menos de 200 mil pessoas ao mesmo tempo.

Cerca de 300 milhões de pessoas, ou uma em cada 17 pessoas no mundo, têm uma doença rara, embora cada uma dessas doenças afete muito poucos pacientes. Na Suíça, estima-se que cerca de 500 mil pessoas, em uma população de nove milhões, tenham uma doença rara.

Há um uso crescente dos termos doenças nanorraras e ultrarraras para se referir a doenças ainda menos comuns. Em alguns casos, apenas algumas poucas pessoas têm a mesma mutação genética, de acordo com a associação sem fins lucrativos n-LoremLink externo.

Os médicos que tratavam Erik nunca tinham ouvido falar dessa enfermidade. A internet apontava que apenas 40 pessoas no mundo tinham sido diagnosticadas com a doença – nenhuma delas na Suíça. Os poucos artigosLink externo publicados sobre a ASNSD mostravam crianças que morriam antes de completar um ano de idade.

Conta que, para a enfermidade, não há tratamento. Os médicos acreditam que Erik, agora com 15 meses, tem, contudo, uma forma mais branda da doença. Ele toma medicamentos para epilepsia, a fim de reduzir o número de convulsões, mas a doença continua tendo um prognóstico desfavorável, podendo levar à cegueira, a sérios atrasos no desenvolvimento e, em casos graves, até à morte. Mas Mariann não desistiu.

“Senti que os médicos tiraram minha esperança”, relata a mãe da criança. “Eles dizem que não há nada que se possa fazer, porque não conseguem encontrar nenhuma informação sobre a doença. Mas isso simplesmente não é verdade. Eu disse que não aceitaria isso”, conta.

Mariann enviou cerca de 200 e-mails para médicos, pais de crianças com doenças raras ou para qualquer pessoa da sua rede que pudesse ajudar.

Os pais de Erik estavam convencidos de que um tratamento poderia ser desenvolvido, mas igualmente certos de que não podiam esperar outras pessoas para fazer isso.

“Você chega a um ponto em que acredita que pode realmente encontrar uma maneira de desenvolver um medicamento por conta própria”, conta a mãe.

O casal criou a Associação de Pesquisa ASNSDLink externo, a fim de localizar mais pessoas com a doença, arrecadar fundos e centralizar as pesquisas. Eles encontraram uma aliada em Roxane van Heurck, geneticista do Hospital Universitário de Genebra (HUG), que reuniu especialistas para identificar diferentes projetos de pesquisa.

O casal participa de cursos sobre desenvolvimento de medicamentos, reúne-se com cientistas e se conecta com outras famílias online – tudo isso enquanto cuidam de Erik e de seu irmão mais velho, Mark. Além disso, o casal enfrenta uma burocracia crescente de seguros e contas médicas e está tentando arrecadarLink externo 500 mil francos suíços somente para dar início às pesquisas. Seu objetivo final é desenvolver uma terapia genética que possa corrigir ou substituir o gene ASNS defeituoso.

Pais e mães no comando

O que Mariann e Balázs estão empreendendo, embora seja comum nos Estados Unidos, não é habitual na Suíça ou em outras partes do mundo. Especialistas afirmaram à Swissinfo que apenas poucos pacientes ou cuidadores já tentaram desenvolver por conta própria medicamentos para doenças raras na Suíça. No entanto, há um interesse crescente, em meio ao desespero cada vez maior dos pais diante da falta de opções de tratamento, ao maior acesso a financiamentos por meio de plataformas como o GoFundMe e a novos avanços médicos.

Existem mais de sete mil doenças raras conhecidas, que afetam pelo menos 300 milhões de pessoas em todo o mundo, mas apenas 5% têm um tratamento aprovadoLink externo – sendo a maioria para doenças raras mais comuns como a fibrose cística.

As doenças nanorraras e ultrarraras, que podem afetar menos de 100 pacientes, são, em grande parte, ignoradas pela indústria farmacêutica. Existem pelo menos quatro mil genes associados a enfermidades raras. “Se a incidência da sua doença é de apenas uma em cada 100 mil pessoas, como é o caso da ASNSD, a indústria farmacêutica não se interessa”, afirma Mariann.

A terapia genética visa corrigir um gene defeituoso ou substituí-lo por um gene saudável, para tratar uma doença ou tornar o corpo mais capaz de combatê-la. Em 2017, a agência reguladora FDA nos EUA aprovou a primeira terapia genética.

No entanto, com novas tecnologias, como a terapia genética, chegando ao mercado, os pais têm mais esperanças de que tratamentos e até mesmo curas sejam possíveis.

“A terapia genética está mudando o paradigma”, afirma Bernard Schneider, cientista sênior da Fundação Bertarelli para Terapia Genética do Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne (EPFL), que trabalha com o casal. “Essas terapias eram consideradas muito arriscadas, mas aprendemos muito e agora temos confiança de que podem funcionar”, diz o pesquisador.

Em 2016, o filho de Christine R. foi diagnosticado com a síndrome FOXG1 – uma doença genética rara do desenvolvimento neurológico, causada por uma mutação no gene FOXG1. Na época, havia apenas 100 casos registrados em todo o mundo.

Assim como Mariann, Christine decidiu agir. “Um pequeno grupo de pais e mães compartilhava a profunda convicção de que ninguém iria pesquisar esse gene, exceto se a gente iniciasse a pesquisa por conta própria”, relata Christine, que mora no oeste da Suíça, à Swissinfo.

Ela entrou em contato com Olivier Menzel, um biólogo molecular suíço, que criou a Fundação BLACKSWAN em 2010, com o objetivo de defender doenças raras. Ele trabalhou com Christine para criar uma estrutura de pesquisa sobre o FOXG1 e estabelecer um conselho consultivo científico, além de sedimentar um caminho para obter financiamento, entre outras coisas.

Christine foi acompanhada por Anouk Brunschwiler, outra mãe suíça que também estava lidando com o diagnóstico do filho. Juntas, elas enfrentaram a difícil tarefa de financiar a pesquisa.

“Pedir dinheiro era uma ideia assustadora”, relata Christine. “Mas vivemos em um país com recursos consideráveis”, pondera.

Com a ajuda do Google Maps, ela identificou grandes propriedades ao longo dos lagos suíços e enviou cartas pessoais aos proprietários. Vários deles responderam, incluindo uma pessoa que se interessou pessoalmente pela sua história e fez uma doação significativa.

Combinado com o esforço de arrecadação de fundos de Anouk e de um pai na França, o grupo conseguiu levantar pouco mais de 800 mil francos suíços para iniciar a pesquisa. Em 2017, as mães Nasha Fitter e Nicole Johnson fundaram a fundação de pesquisa FOXG1Link externo nos Estados Unidos, com base na pesquisa inicial financiada pela Europa.

A fundação, que arrecadou mais de 17 milhões de dólares (13,5 milhões de francos suíços), é agora uma organização sem fins lucrativos global, liderada por pais e mães, que desenvolve a primeira terapia genética para a síndrome FOXG1. Ela financia um laboratório específico com 20 cientistas e está a caminho de iniciar ensaios clínicos em 2026.

E essa fundação não está sozinha. Grupos liderados por pais e mães, como a Fundação de Pesquisa PACS2Link externo e a Aliança Internacional SCN8ALink externo, estão atraindo os melhores pesquisadores, assumindo a coautoria de estudos revisados por pares e fornecendo orientação científica a pais e médicos sobre a conduta frente a essas doenças. Alguns, como a Mila’s Miracle Foundation for Batten Disease, nos Estados Unidos, tiveram suas terapias aprovadas.

Grupos de pesquisa liderados por pacientes ou pais são agora agentes legítimos na pesquisa científica e no desenvolvimento de medicamentos, afirma Menzel. “No caso de doenças raras, não há expertise. O especialista é o próprio paciente ou seus pais, porque vivem isso no dia a dia”, acrescenta o biólogo. “E ninguém vai fazer essa pesquisa se os pais não estiverem impulsionando”, conclui.

Arrecadação de fundos que nunca termina

Apesar do entusiasmo e do empenho dos pais e do crescente interesse de pesquisadores, os desafios para levantar fundos são imensos, sobretudo em caso de ensaios clínicos para testar medicamentos em pacientes.

Empresas privadas, que normalmente entrariam nesta fase do desenvolvimento de medicamentos, têm abandonado os programas de terapia genética devido às vendas fracas e à resistência regulatória contra os preços elevados.

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A Fundação FOXG1 está angariandoLink externo agora 12 milhões de dólares para concluir os ensaios clínicos da sua terapia genéticaLink externo, depois que uma empresa de biotecnologia, sediada nos EUA, interrompeu seu desenvolvimento, alegando custos elevados e falta de rentabilidade.

Grupos liderados por pais não podem solicitar subsídios de financiadores públicos, como os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA ou a Fundação Nacional Suíça para a Ciência, porque não são constituídos por cientistas. Eles dependem inteiramente dos institutos de pesquisa, que têm suas próprias prioridades. “Não há outro lugar para recorrer, exceto a doadores privados”, aponta Roxane van Heurck.

Essas organizações são mais bem-sucedidas nos Estados Unidos, porque existem redes estabelecidas para conectá-las a grandes fontes de financiamento, e muitos filantropos fazem doações para a ciência e a inovação. Em 2019, a Iniciativa Chan Zuckerberg, fundada pelo diretor-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, e sua esposa, Priscilla Chan, criou o Rare As One ProjectLink externo, voltado para o apoio de pesquisas sobre doenças raras lideradas por pacientes. O projeto já concedeu subsídios que totalizam mais de 30 milhões de dólares a cerca de 94 comunidades de pacientes.

Na Europa, esses grupos têm mais dificuldade. “Na Europa, temos de convencer realmente as pessoas de que estamos fazendo alguma coisa concreta, que não se trata de uma fraude”, afirma Gosia Kosla, que criou a Fundação de Investigação PACS2 na Polônia quando sua filha foi diagnosticada com a síndrome PACS2, uma doença rara do desenvolvimento neurológico.

Na Suíça, “as pessoas tendem a doar para organizações que conhecem e para emergências, como um tsunami”, diz Menzel. “Não há muitas doações para pesquisas sobre doenças raras, especialmente para o desenvolvimento de medicamentos, que leva muito tempo e é arriscado”, completa.

Uma exceção é o AFM-TéléthonLink externo anual na França, que arrecadou fundos para pesquisas sobre distrofia muscular e acabou levando ao desenvolvimento da terapia gênica Zolgensma, que mais tarde foi adquirida pela gigante suíça Novartis. No entanto, tem sido difícil replicar isso em outros países.

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A batalha de Erik

Mariann e Balázs estão plenamente conscientes da difícil jornada que têm pela frente e de que não há garantias de que uma terapia genética seja desenvolvida a tempo de salvar a vida do seu filho.

No momento, as convulsões de Erik estão sob controle com a ajuda de medicamentos antiepilépticos, mas ele não está atingindo os marcos de desenvolvimento típicos para sua idade. “Temos uma equipe de apoio muito boa”, relata Mariann, “mas precisamos realmente impedir a doença de progredir”.

A família tem um plano de pesquisa que inclui vários projetos, entre eles a reutilização de terapias existentes, o que, em curto prazo, poderia oferecer algumas opções para Erik – e já há progressos.

A ASNSD foi aceita no Centro de Aceleração de Terapia Genética da University College London, que está explorando uma terapia genética e outra técnica de tratamento chamada oligonucleotídeos antissenso (ASOsLink externo).

A Associação está também colaborando com pesquisadores na Suíça – incluindo Roxane van Heurck e Bernard Schneider, bem como Théo Ribierre, da Platforma NeuroNA Human Cellular Neuroscience, em Genebra –, que estão usando as células de Erik para criar um modelo do seu cérebro, a fim de testar diferentes terapias.

A família lançou uma campanha de financiamento coletivoLink externo e arrecadou 65% dos 500 mil francos suíços necessários para a pesquisa. Espera-se que os dados fornecidos permitam aos pesquisadores requerer subsídios maiores.

“Chegamos a uma nova era”, diz Roxane van Heurck. “Há cinco anos, não podíamos oferecer nada a pais e mães de crianças com doenças ultrarraras. Agora a tecnologia mudou e o campo está em movimento”, finaliza.

Edição: Nerys Avery/vm/ts

Adaptação: Soraia Vilela

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