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O Memorial aos Judeus e um historiador suíço

Memorial do Holocausto é formado por 2.700 monolitos de cimento (foto: Gleice Mere) swissinfo.ch

Lukas Imhof não gosta de câmeras, flashs, entrevistas ou de ser identificado como um suíço que vive na Alemanha.

Este conteúdo foi publicado em 15. outubro 2005 - 08:20

Seu trabalho como historiador no Memorial aos Judeus se deve ao fato de ter sido um dos 22 estudantes contratados pela Fundação Memorial aos Judeus Assassinados da Europa a fim de realizar pesquisas nos documentos do holocausto.

Pela primeira vez na história da humanidade uma nação reconhece a sua culpa por um grande crime e o documenta de forma transparente e evidente.

O monumento, de caráter abstrato na superfície e um centro de informação no subsolo, idealizado pelo arquiteto americano Peter Eisenman tem uma área equivalente a dois campos de futebol e está localizado no centro de Berlim, ao lado do Portão de Brandemburgo, símbolo da cidade, com vista ao Parlamento alemão, Bundestag, e ao lado do bunker onde se suicidou Adolf Hitler.

A realização do Memorial causou grande polêmica na Alemanha com intermináveis discussões que se arrastaram desde 1987 até 2005. As discussões se devem à falta de acordo com respeito à localização, desenho e o conceito da obra.

O empreendimento da construção do Memorial foi criado por uma iniciativa popular chamada "Perspectiva Berlim". Um círculo de cidadãos berlinenses encabeçado por Lea Rosh, escritora e jornalista, figura controversa, devido à defesa do ponto de vista de construir um Memorial dedicado exclusivamente aos judeus assassinados e não em memória a todas as vítimas do nazismo.

De acordo com Lea seus argumentos se baseiam no fato de o centro da política Nacional Socialista estar focalizado no extermínio da cultura judaica.

- Esse era um dos principais objetivos de Hitler e até mais importante do que ganhar a guerra. A execução de seis milhões de judeus, de forma sistemática, é o ponto culminante de um anti-semitismo que data de mais de 2000 anos na Europa. Por isso a necessidade da construção de um memorial próprio - justifica.

A polêmica Degussa e o produto antigrafite

Um dos momentos mais controversos da construção do Memorial foi a participação da empresa alemã Degussa – herdeira da indústria que produziu o gás tóxico Zyklon B, usado pelos nazistas no extermínio de milhões de judeus.

A Degussa forneceu um produto químico antigrafite para revestir as 2711 colunas de cimento armado que constituem a obra monumental. Assim, o memorial está protegido de todo tipo de pichação, inclusive as de conteúdo anti-semita por parte de neonazistas.

O presidente do Parlamento alemão e da Fundação, Wolfgang Thierse, justificou que a participação da empresa no holocausto também deve ser lembrada na área do monumento. Tratando-se o problema pelo lado pragmático, o orçamento explodiria sem a participação da Degussa. A substituição do seu produto por produtos de outras empresas implicaria num aumento de despesa da ordem de 2,4 milhões de euros e, além disso, "fazer um monumento incômodo, controverso e provocante, é uma forma de discutir a fundo a questão do racismo e do anti-semitismo", explica Thierse.

Outros também argumentam que a Degussa reconhece sua culpa e contribuiu para a indenização dos sobreviventes dos trabalhos forçados no nazismo. Apesar disso, Lea Rosh e Alexander Brenner, presidente da Comunidade Judaica de Berlim, não ficaram satisfeitos com a decisão do conselho administrativo do Memorial.

Um suíço berlinense

Apesar de não querer ter sido fotografado Lukas fez um tour pelo monumento onde explica as intenções do arquiteto americano e sua função no Memorial.

- Não quero ser entrevistado como um suíço que vive em Berlim e que dá explicações sobre o Memorial. Não pertenço à privilegiada elite suíça que vive nessa cidade e não é por gostar de queijo suíço que tenha orgulho de ser cidadão desse país, não vejo a nacionalidade como um privilégio de minha identidade. Sou um estrangeiro a mais em Berlim. Além disso, por ser historiador não me sinto à vontade em ser destacado como uma figura que tem a pretensão de resumir as intenções do Memorial em uma entrevista, a história é complexa.

Com esse senso crítico Lukas prepara o tour que faz para os grupos que visitam o Memorial. O historiador, antes da inauguração, foi contratado para ajudar no processo de pesquisas devido a seus conhecimentos em história, polonês e alemão, a fim de traduzir documentos do holocausto escritos em polonês.

De acordo com Lukas o que diferencia o Memorial alemão de monumentos em outras sociedades é o foco da análise. Em outros países o que está em primeiro plano é realmente a memória das vítimas, enquanto na Alemanha a perspectiva é dos culpados e a sociedade que compactuou com o holocausto. Ele também critica a posição da Suíça na história que, segundo ele, se não colaborou com a guerra, também não fez muito para salvar vidas.

- Até hoje ainda não tive a oportunidade de poder apresentar o Memorial a um grupo de suíços, por isso não sei qual a reação deles no que diz respeito à análise de seu papel na história. Mas, certamente, a forma de comentar os acontecimentos seria bem diferente do que como guia de excursão com um grupo de poloneses, nacionalidade de grupos que já guiei pelo monumento - afirma.

Labirinto

O historiador esclarece que o espaço entre as colunas de concreto é de 95cm, o que permite a passagem de somente uma pessoa pelo espaço.

- Com isso Eisenman cria um monumento que o distancia da idéia de nostalgia - completa.

Explicações do arquiteto à forma abstrata do Memorial
Já o arquiteto explica o conceito do Memorial da seguinte forma:

- É como se o visitante entrasse em um labirinto e tirasse suas conclusões de acordo com seus conhecimentos e suas experiências pessoais. Cada um escolhe o seu caminho de entrada e encontra a sua própria saída. Nesse contexto não existe nostalgia ou lembranças do passado, somente as lembranças da experiência de cada um. Hoje, as interpretações que fazemos do passado só são possíveis através de sua manifestação no presente.

Por esta razão os guias explicam aos visitantes que não é considerada uma falta de respeito às vítimas se jovens, famílias ou crianças passeiam pelo local como se estivessem correndo por um labirinto.

No subsolo há o que o Memorial chama de local de informação. A documentação, que não tem caráter de museu, do destino de seis famílias simboliza a história pessoal dos seis milhões de judeus mortos durante o Regime Nazista. Segundo Lukas, três milhões foram vítimas polonesas.

Nas diferentes salas é impressionante a atenção e o silêncio dos visitantes, que depois de informados podem retornar ao exterior e tirar suas próprias conclusões a respeito das diferentes posições do controverso Memorial, sobre a história e a responsabilidade de cada um nas decisões de regimes democráticos.

swissinfo, Gleice Mere

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