Gabriel Lüchinger é aposta suíça em mundo multipolar
Em meio ao enfraquecimento do multilateralismo e à crescente rivalidade entre grandes potências, a Suíça aposta no diplomata Gabriel Lüchinger para preservar sua relevância internacional. O chefe da Divisão de segurança mantém canais abertos com o mundo enquanto o país busca adaptar sua neutralidade a um mundo mais instável.
Ainda há quem precise da Suíça? Sua neutralidade é controversa no plano interno e, no exterior, exige constantes explicações. O ex-chanceler federal Walter Thurnherr descreve assim a situação:
“O mundo de hoje não é mais uma tranquila assembleia municipal, mas sim um pátio de recreio sem supervisão. Ali se luta com os cotovelos abertos – e isso é, para a Suíça, uma adaptação dolorosa.” Justamente os pequenos Estados dependem do jogo limpo e de claras regras.
Coerentemente nos bastidores
Thurnherr traça o quadro no jornal NZZ: “Nesse pátio de recreio, somos mais como os pequenos alunos do segundo ano. Mas há também os grandalhões do sexto ano, e, se não tomarmos cuidado, um deles pode nos desferir um soco.” Por isso, talvez a Suíça precise articular-se com os alunos do quarto ano.
Fazer essa articulação é o trabalho de Gabriel Lüchinger. Aos 49 anos, ele é o principal diplomata suíço, atuando de forma consistente nos bastidores.
Oficialmente, Gabriel Lüchinger dirige a Divisão de Segurança do Minis´tério suíço das Relações Exteriores (EDALink externo, na sigla em alemão). Em outros países, esse cargo é chamado de conselheiro nacional de segurança.
Na prática, porém, ele se tornou o discreto porta-estandarte do multilateralismo suíço. Conversa com todos, e sempre de forma reservada – evita contato com a imprensa.
A última entrevista concedida por Lüchinger foi em 2024, quando organizou a Conferência Suíça de Paz para a Ucrânia, no Bürgenstock. Hoje, um porta-voz do EDA afirma que a lista de pedidos de entrevista de Lüchinger é longa demais, e que uma nova solicitação não faria sentido.
“Tarefas pouco habituais”
“Lüchinger é um elo de ligação. Parece discreto, mas goza de enorme confiança em todos os lugares”, diz uma especialista em política externa sobre seu trabalho. O senador Josef Dittli (Partido Liberal – FDP), também atuante na área de política externa, afirma: “Ele tem uma competência social incrivelmente elevada. É altamente inteligente – e sempre tem tempo para ouvir.”
Outros especialistas em política externa descrevem Lüchinger como um “homem íntegro, de pensamento claro, que conhece seu papel e cumpre as missões”, como “calmo e equilibrado”. Chegam mesmo a chamá-lo de “exemplo perfeito de diplomata” e de “homem para todas as ocasiões”. Não há críticas.
Lüchinger ocupa um papel que a Suíça não havia previsto – mas de que precisa. O político de política externa ligado ao Partido do Povo Suíço (SVP), Roland Büchel, fala de “novas tarefas pouco habituais” que o Conselho Federal lhe confia.
Arte dos “bons ofícios”
Ele está presente em toda parte, mas nunca sob os holofotes. Quando o regime russo pressiona o ministro suíço das Relações Exteriores, Ignazio Cassis, em Moscou, a um gesto de reverência – a deposição de uma coroa de flores no túmulo do soldado russo desconhecido -, Lüchinger espera junto à limusine.
Para conversações tarifárias em Washington, ele voa em classe econômica. Viaja ao Irã, à China e ao Oriente Médio. Mantém sempre informados todos aqueles que não podem estar presentes, sobre tudo o que possa interessá-los – sem ser solicitado, com precisão e sem interesses próprios.
Essa é arte dos bons ofícios. Por muitas décadas, o multilateralismo foi a rede que sustentou a Suíça no entrelaçamento internacional ao longo do tempo. Agora, essa rede se desfaz. Mas a Suíça continua dependendo do mundo – nem que seja apenas por causa de sua economia exportadora.
Quando o presidente dos EUA, Trump, impõe tarifas punitivas de 31% em 2025, Lüchinger é nomeado enviado especial para os Estados Unidos. Onde a complexidade se transforma em sobrecarga, é aí que ele entra em ação.
O SVP o escolheu em 2016 como secretário-geral. Em 2018, tornou-se assessor do ministro Parmelin. Em 2022, foi recrutado pelo EDA, quando o ataque russo à Ucrânia levou o país a ter de explicar sua neutralidade a parceiros internacionais que balançam a cabeça perplexos.
Contato estável em um mundo nervoso
Há tempos Lüchinger é considerado o diplomata mais bem conectado da Suíça. Ele cultiva, em nome do país, relações que no nível governamental se tornam mais difíceis, porque a diplomacia de vitrine virou a nova normalidade – e porque os alunos da quinta e da sexta séries no “pátio do recreio” jogam seus jogos apenas entre si.
Soma-se a isso o fato de que, na Suíça, tudo muda constantemente: a presidência federal, em ciclos anuais; os postos de embaixador, a cada quatro anos. Para o exterior, os altos funcionários e os poucos secretários de Estado suíços sempre foram os interlocutores mais estáveis. Eles continuam lá mesmo depois da próxima eleição.
Um marco fundamental para a rede de contatos de Lüchinger foi a Conferência de Paz sobre a Ucrânia, realizada no Bürgenstock em 2024 – um projeto extremamente ambicioso do ministro Ignazio Cassis. Enquanto outras nações forneciam armas à Ucrânia e cerravam fileiras, a Suíça recusava-se a entregar armamentos, correndo o risco de ficar à margem. Era necessário um golpe de libertação para levar o papel tradicional da Suíça para a nova situação geopolítica.
Cassis desejava trazer para o interior da Suíça o maior número possível – e os mais importantes – chefes de Estado: uma tarefa difícil. Lüchinger atuou em seu próprio nível. Ele fez lobby junto ao círculo dos assessores nacionais de segurança, todos com acesso direto aos respectivos governos. Ali todos se conhecem de diferentes conferências. Ali se pensa mais de forma operacional do que política, o que muitas vezes simplifica as coisas.
Além disso, Lüchinger conhecia bem as capacidades da rede diplomática suíça – e a utilizou de maneira estratégica. “Colocamos todas as embaixadas ao redor do mundo em campo, com o pedido de abordar os assessores nacionais de segurança”, contou ele depois à Rádio SRF.
Rápida ascensão
Lüchinger, filho de um jurista, estudou Direito em Berna. Aos 22 anos, candidatou-se ao Conselho Nacional (Câmara dos Deputados) pela ala jovem do SVP. Em uma carta de leitor, escreveu em 1999 contra a União Europeia: “Não estou disposto a abrir mão de nossa abertura ao mundo apenas para pertencer a uma organização que é corrupta e antidemocrática.”
Prosseguiu seus estudos em Helsinque e, mais tarde, cursou relações internacionais na Suécia. De volta à Suíça, trabalhou para o SVP e no Departamento de Defesa. É coronel do Exército e tornou-se adido militar nas embaixadas suíças em Abu Dhabi e no Cairo.
Ele permaneceu seis anos no mundo árabe, conheceu a sua atual esposa, uma jordaniana, e deixou-se entusiasmar pela Primavera Árabe. “A luta dos jovens pela democracia me marcou profundamente”, diria mais tarde.
Então o SVP entrou em contato com ele e, em 2016, atraiu-o de volta à Suíça com o cargo de secretário-geral. Tornou-se um confidente próximo do presidente do partido, o atual ministro Albert Rösti. Pouco depois, é nomeado assessor pessoal do ministro Guy Parmelin.
Sua carreira poderia ter seguido nesse rumo. Mais tarde, chegou a ser cogitado para o cargo de chanceler federal, mas para isso estava no partido errado. Também foi recomendado como chefe do Serviço de Inteligência da Suíça.
Lüchinger, porém, sentia-se atraído pela diplomacia. Submeteu-se aos rigorosos processos seletivos do EDA. Em seguida, o ministro Ignazio Cassis o nomeou chefe da área de segurança. Foi uma jogada habilidosa, pois Cassis e seu corpo diplomático sofrem ataques constantes do SVP.
Para esse partido, a abertura ao mundo é, em princípio, algo suspeito. Para conter as críticas, um astro em ascensão, cosmopolita, vindo justamente do SVP, era a escolha ideal. O próprio Lüchinger disse em 2024 sobre o cargo: “Estou exatamente onde devo estar.”
Fracasso faz parte do trabalho
Mas esse homem também pode fracassar? Sim, pode: na conferência sobre a Ucrânia, no Bürgenstock, faltou a China, na época a única potência com real capacidade de influência. E, no caso das tarifas dos EUA, a Suíça ainda carece de um acordo vinculante; a condução do dossiê voltou ao Departamento da Economia.
No entanto, brilho e prestígio não são critérios no mundo de Lüchinger. Recentemente, ele foi visto em Moscou, ao lado do ministro Ignazio Cassis. Em nome da OSCE, tentaram trazer a Rússia de volta ao diálogo internacional. As expectativas eram baixas, Cassis foi exposto de forma constrangedora, e a missão recebeu críticas no plano internacional.
Pouco antes, o regime islâmico do Irã reprimira violentamente sua própria população. Lüchinger mantinha contato direto com Ali Larijani, assessor de segurança do regime e um dos mais próximos confidentes do líder religioso Ali Khamenei. Ele telefonou. O regime continuou a reprimir, sem se abalar. Como quase tudo o que ele faz: não foi em vão, mas algo que vale a tentativa.
Edição: Marc Leutenegger
Adaptação: Karleno Bocarro
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