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Imprensa suíça analisa voto tradicionalista

A votação sobre armas foi manchete na imprensa suíça da segunda-feira (14). swissinfo.ch

A imprensa da Suíça assinalou a clara rejeição da iniciativa sobre posse de armas. Para os jornais, o resultado mostra que o debate público foi dominado pela emoção.

Para muitos analistas, contudo, o voto contra a proibição da população poder adquirir e possuir armas de fogo permitiu um progresso na questão.


















Em seus comentários, os editorialistas identificam claramente os vencedores da eleição de domingo. São os defensores de uma Suíça tradicionalista e ruralista. “A Suíça dos campos, dos estandes de tiro e dos caçadores ganhou”, observou por exemplo o tabloide Le Matin, da Suíça francesa.

A imprensa da Suíça alemã também fala da vitória de uma Suíça rural e tradicional sobre uma outra mais urbana. Assim, o Basler Zeitung, de Basileia, não hesitou em chamar de “Vitória da velha Suíça”.

Se eles concordam sobre a existência de um fosso entre a cidade e o campo, os comentaristas divergem na questão da clivagem linguística. Ao contrário da imprensa de língua francesa, a imprensa de língua alemã não realça o fato da iniciativa ter recebido amplo apoio na Suíça ocidental (francesa) em relação ao lado germânico.

No entanto, deve ser observado também que, mesmo no oeste da Suíça, a divisão entre campo e cidade foi mais importante do que as diferenças entre as regiões linguísticas do país. “Sobre a clássica oposição entre cidade e campo emerge a diferença menos usual na percepção do estado em ambos os lados linguísticos”, nota o diário de Friburgo La Liberté, estado bilíngue francês-alemão.

Um “marketing de gênio”

Na explicação do resultado, os colunistas são unânimes em salientar mais uma vez a grande habilidade dos adversários da iniciativa. Eles conseguiram arrastar o debate de um nível técnico a um mais geral e emocional. O St. Galler Tagblatt não hesita em chamar essa tática de “máquina de marketing de gênio”.

“Uma medida de caráter técnico, que provavelmente seria resolvida pelo próprio exército, tornou-se um debate nacional sobre a tradição, os criminosos estrangeiros, a prática do tiro esportivo, a caça, ou mesmo a existência das Forças Armadas”, observou o Le Temps, da Suíça francesa.

Mesma história do lado alemão. “Para uma grande parte da população, tratou-se de uma questão de identidade nacional, liberdade e autodeterminação. É fácil organizar a oposição mostrando tais espectros”, escreveu o diário Tages Anzeiger, de Zurique.

Em um tom mais crítico, o Bund, de Berna, sublinhou que “alguns símbolos patéticos podem ser mais fortes do que a razão fria”. Menos virulento, o famoso Neue Zürcher Zeitung nota por sua vez que “segurança e defesa são valores profundamente enraizados” e que os ataques contra o exército nunca dão em nada.

Derrota dos socialistas

Mas, se os adversários da iniciativa agiram taticamente bem, o mesmo não pode ser dito para seus defensores, principalmente o partido socialista suíço. A imprensa constata que a esquerda perdeu a única votação do ano, mau sinal antes das eleições federais de outubro.

E para muitos analistas, a esquerda não pode culpar ninguém além de si mesma. “Os socialistas, atravancados pelos seus tabus, não ousaram dizer alto e claro que lançavam a primeira iniciativa tratando de segurança de sua história. Em vez de vendê-la como tal, acabaram se perdendo em uma campanha monótona e tímida. Uma derrota a mais para a esquerda neste ano de eleições federais”, estimou o Tribune de Genève.

O La Liberté também é intransigente: “quando incluiu a abolição do exército no seu programa, o partido socialista ofereceu, neste campo de batalha, uma bazuca para os detratores da iniciativa. A arte de atirar no próprio pé…”

 

Uma iniciativa útil

Apesar do resultado negativo do domingo (13), a imprensa suíça considera que a iniciativa não foi inútil. Na verdade, ela ajudou a desenvolver o debate sobre armas no país.

“Em sua própria defesa, o exército teve de admitir que arma em casa não poderia ser um dogma absoluto. Que controles muito mais estritos são necessários. Nem todo mundo pode receber um fuzil de combate, muito menos carregado com os cartuchos. Essa mensagem, os iniciadores foram capazes de passá-la até os corredores do parlamento”, disse o diário do estado de Vaud, 24 heures.

La Regione também insiste nesse progresso. “Depois do início da campanha, a legislação foi reforçada. Por sua vez, o Exército introduziu, nos últimos anos, algumas medidas como a obrigação de deixar a munição no arsenal e a possibilidade de deixar a arma aos cuidados do exército entre dois períodos de serviço militar”, escreveu o diário do Tessino.

Mas se algum progresso pôde ser notado, muitos comentaristas acreditam que ainda há muitos passos a serem dados. “Esta votação não regula nada, pois o sistema atual continua apresentando lacunas”, disse o Le Temps. Os soldados mantêm suas armas em casa sem os cartuchos, que podem ser obtidos facilmente. Além disso, as disposições suíças relativas ao comércio de armas, que são bastante liberais, continuam precisando ser melhoradas”.

E o Le Matin, muito mais pessimista, conclui: “Outras tragédias sangrentas acontecerão com certeza amanhã, em seis meses, em um ano. Com ou sem arma militar. Temos de viver com essa terrível tragédia”.

A iniciativa foi recusada por56,3% dos cidadãos.

A nível estadual, 20 disseram “não” et apenas 6 “sim”.

O índice de participação foi de 49%.

A iniciativa foi apresentada à Chancelaria Federal, em 22 de fevereiro de 2009, munida de 106.037 assinaturas válidas.
 
Ela vem de uma coalizão de 70 organizações: direitos humanos, trabalho, prevenção do suicídio, igrejas, associações de luta contra a violência contra as mulheres, movimentos pela paz, etc.
 
Os requisitos principais: criação de um registo nacional das armas, justificação da necessidade e habilidade de possuir uma arma, armazenamento de armas militares em instalações protegidas pelo exército, proibição da posse particular de armas especialmente perigosas (armas automáticas, espingardas).
 
A nível político, a iniciativa recebeu o apoio da esquerda. O governo e a maioria de direita do Parlamento suíço recomendaram às pessoas de rejeitá-la.

Adaptação: Fernando Hirschy

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