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Programa nuclear iraniano foi atingido, mas não eliminado

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Estados Unidos e Israel afastaram a capacidade do Irã de fabricar uma bomba atômica com os seus recentes ataques a alvos nucleares e balísticos, mas não conseguiram apoderar-se das suas reservas de urânio altamente enriquecido, cruciais para qualquer negociação futura entre Washington e Teerã. 

O presidente americano Donald Trump diz ter desencadeado a guerra em 28 de fevereiro, entre outras coisas, porque, segundo ele, o Irã está desenvolvendo uma bomba atômica, algo que Teerã nega. O governante republicano promete que nunca permitirá que o país possua uma arma nuclear. 

Por sua vez, o primeiro‑ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que a guerra anterior, de 12 dias em junho de 2025, também tinha como objetivo erradicar o programa nuclear iraniano. 

Mas duas fontes diplomáticas europeias que pediram anonimato são prudentes. 

Depois dos ataques de junho de 2025 “nos disseram que o programa tinha sofrido um retrocesso de vários anos e, depois, a estimativa foi revista para apenas vários meses”, comentou uma das fontes. 

“O Irã já não é mais o Estado com potência nuclear que foi”, assegurou à AFP uma fonte diplomática israelense. 

Um Estado com potência nuclear é um país que dispõe dos conhecimentos, recursos e instalações necessários para desenvolver rapidamente uma arma nuclear. 

A fonte alegou que, além dos danos na sua infraestrutura, o Irã sofreu um duro revés “devido à eliminação de cientistas e funcionários” e aos ataques contra universidades “onde se situavam os centros de dados que concentravam o conhecimento iraniano”.

– “Retrocesso importante” – 

“Em geral, este conflito atingiu de forma substancial o programa nuclear do Irã”, disse Spencer Faragasso, do Institute for Science and International Security, um centro de estudos americano que monitora o programa nuclear iraniano. 

“Vai levar uma quantidade considerável de tempo, investimento e recursos para reconstituir toda a capacidade perdida”, afirmou. Mas esclareceu que “os avanços decorrentes do conflito não são de forma alguma permanentes”. 

O Irã ainda possui uma quantidade significativa de urânio enriquecido a 60%, perto do nível de 90% exigido para fabricar uma bomba atômica, além de urânio enriquecido a 20%. 

Antes dos ataques americanos de junho, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) calculou que o Irã possuía cerca de 440 quilos de urânio enriquecido a 60%, acima do limite estabelecido em um acordo de 2015 que ruiu quando os Estados Unidos se retiraram dele.

O paradeiro desse urânio é desconhecido devido à recusa iraniana de conceder acesso aos inspetores da AIEA aos locais atingidos pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel. 

O diretor da AIEA, o argentino Rafael Grossi, tem insistido no pedido de retorno dos inspetores.

– Enterrado em túneis –

Acredita-se que parte da reserva de urânio altamente enriquecido esteja em túneis da instalação de Isfahan, no centro do Irã. 

“Pelo menos 220 quilos, cerca de metade da reserva” declarada a 60%, estariam armazenados “no complexo de túneis subterrâneos de Isfahan”, indicou Faragasso. 

“A situação da outra metade não está clara, mas acreditamos que esteja enterrada sob os escombros de Fordow” porque, antes da guerra de 2025, foram produzidas “grandes quantidades” de urânio altamente enriquecido a 60%, acrescentou. Só uma inspeção independente poderá esclarecer essas dúvidas. 

O problema é como retirar esse urânio do território iraniano sob um eventual acordo. 

A Rússia insistiu, na segunda-feira, que está disposta a aceitar o urânio enriquecido iraniano como parte de um possível acordo de paz entre Washington e Teerã. 

“Essa proposta foi apresentada pelo presidente (Vladimir) Putin em contatos com os Estados Unidos e países da região”, declarou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov. 

Esse cenário é inaceitável para os europeus devido à guerra que a Rússia trava contra a Ucrânia há mais de quatro anos. 

Rússia e Teerã cooperam em questões nucleares por meio da usina de energia iraniana de Bushehr, construída e operada com apoio russo para fins civis. 

Os iranianos “já não têm capacidade de enriquecer urânio (…) portanto, não podem construir uma bomba nuclear neste momento”, explicou Danny Orbach, da Universidade Hebraica de Jerusalém. “Mas ainda têm o material enriquecido, que é o mais difícil de obter”, disse.

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