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Operações da ICE dividem suíços que vivem nos EUA

Agentes da Imigração e Alfândega (ICE) prendem um manifestante em Minneapolis, em 3 de fevereiro de 2026.
Agentes da Imigração e Alfândega (ICE) verificam um manifestante em Minneapolis, em 3 de fevereiro de 2026. Copyright 2026 The Associated Press. All Rights Reserved

As políticas anti-imigração do governo Trump, aplicadas principalmente pela polícia de imigração ICE, estão dividindo a comunidade suíça expatriada nos Estados Unidos. Alguns veem a repressão como o surgimento de um regime autoritário, enquanto outros a defendem como uma medida necessária contra a imigração ilegal.  

Minneapolis, uma importante cidade no centro-oeste dos Estados Unidos, ocupa as manchetes dos jornais há várias semanas. A população e as autoridades estaduais se opõem às ações dos agentes do ICE (Immigration and Customs Enforcement) e da Patrulha de Fronteira, encarregados de prender imigrantes sem documentos. O assassinato de dois cidadãos americanos por agentes federais causou grande comoção nacional e internacional.

Embora o governo Trump tenha anunciado na semana passada que retiraria 700 agentes do ICE de Minneapolis, a situação continua tensa na cidade mais populosa do estado de Minnesota. Cerca de 2.000 policiais permanecerão no local.  

uma mulher com óculos vermelhos
Dominique conheceu o seu marido americano em Genebra. courtoisie

Realidades diferentes a poucos quilômetros de distância  

“Moramos no bairro onde Alex Pretti foi morto [em 24 de janeiro]”, diz Dominique*. “No dia anterior, me deparei com agentes do ICE em uma loja de conveniência. Eles estavam muito agressivos, puxando as pessoas pelas roupas e borrifando-as com gás. Fiquei horrorizada e com muito medo.” A suíça de 74 anos, natural de Vevey, é casada com um americano e mora nos Estados Unidos desde 1981.

Assim como Dominique, Karin Stricker, 68, mora com seu marido americano no centro de Minneapolis. Ela também está angustiada com o que testemunha todos os dias. “Quando vejo carros ou agentes do ICE, eu os evito. Não me sinto segura.”

A realidade vivenciada por elas é muito diferente da relatada por David W. Mörker, 59. Delegado do Conselho da Organização dos Suíços no Exterior para os Estados Unidos, Mörker, que é natural de Berna, diz que nunca viu carros ou agentes do ICE ou da Patrulha de Fronteira na cidade. Morando nos arredores de Minneapolis, ele está ciente de que até agora foi “poupado”.

Divisão urbano-rural

um casal sorridente
Karin Stricker e o seu marido Alex Lee. courtoisie

Stricker, que é originária do cantão de Schaffhausen, dedica parte de sua aposentadoria a dar aulas de esqui para pessoas com deficiência. “Nos resorts onde trabalho, você não tem ideia do que está acontecendo na cidade”, diz ela. “Mas agora os agentes do ICE estão começando a se deslocar para o interior, e é aí que as pessoas podem começar a pensar de forma diferente.”

“É preciso entender que dois campos políticos coexistem em Minnesota”, explica Mörker. “A área metropolitana de Minneapolis-Saint Paul é democrata, enquanto o resto do estado é republicano.” 

Embora 51,1% dos eleitores de Minnesota tenham votado na candidata democrata Kamala Harris na eleição presidencial de 2024, o mapa dos resultados por condado mostra claramente o domínio republicano na grande maioria deles.

resultados eleitorais
Kai Reusser / SWI swissinfo.ch

A área metropolitana das “Cidades Gêmeas” de Minneapolis e Saint Paul não é, no entanto, a primeira grande cidade para onde a Casa Branca enviou seus agentes federais. Los Angeles, Washington, Chicago e Charlotte, na Carolina do Norte, já foram alvo de operações semelhantes. Mas é em Minneapolis que as forças federais encontraram a resistência mais forte. 

“A resistência das autoridades e do povo de Minnesota está deixando Donald Trump louco. É por isso que ele continua sua vingança aqui”, diz Dominique.

Conflito norte-sul

Chris Stern mora na Flórida. Assim como Mörker, ele é representante do Conselho dos Suíços no Exterior. Segundo ele, os cidadãos suíços que vivem nos estados do norte e do sul não compartilham a mesma visão da situação.

um homem branco careca de 68 anos, de óculos
Christ Stern vive nos Estados Unidos desde 1996. ASO

“Em todo o país, a maioria dos condados é conservadora, ainda mais no sul”, diz Stern. Junto com outro delegado, ele cobre os estados do sul e, como tal, representa cerca de 17 mil cidadãos suíços.

“Os suíços que vivem nos estados do sul são em sua maioria politicamente conservadores [centro e direita]. Eles não aprovam a imigração ilegal”, diz o cidadão com dupla nacionalidade, suíço por parte de mãe (de Zurique) e americano por parte de pai. 

Na opinião de Stern, há um amplo apoio à aplicação das leis de imigração existentes entre os cidadãos suíços que moram em sua região. “Após muitos anos de aplicação inconsistente ou seletiva, as ações atuais das autoridades são amplamente percebidas como um retorno à normalidade institucional, e não como um acontecimento extraordinário.”

De acordo com Mörker e Stern, que representam cerca de 47.000 dos mais de 84.700 cidadãos suíços que vivem nos Estados Unidos, a comunidade suíça está triste com a situação, mas muitos de seus membros concordam que era necessário agir.

um homem branco de 59 anos
David W. Mörker foi para os Estados Unidos estudar e ficou lá depois de conhecer a sua esposa. zVg

“A comunidade suíça em Minnesota está acompanhando a situação de perto. […] Dentro da comunidade, está ocorrendo um debate tranquilo e sutil sobre a lei, a dignidade humana e o Estado de Direito. […] O que muitos aqui sentem é preocupação e compaixão, não pânico”, escreve Mörker, para quem “o respeito pela dignidade humana e os princípios do Estado de Direito continuam sendo um pilar fundamental, mesmo em tempos difíceis”.

“Um verdadeiro regime autoritário”

Dominique, de Vevey, por sua vez, é direta em suas críticas: “Estou muito decepcionada com este governo. Nunca pensei que as coisas chegariam a este ponto. É um verdadeiro regime autoritário”. O ICE, diz ela, prenderá qualquer pessoa que tenha “a infelicidade de ter sido multada por dirigir embriagada ou simplesmente por ter sotaque”, independentemente de ser estrangeira ou cidadã americana.

Stricker concorda com ela. “Eles arrastam as pessoas para fora de seus carros, de suas casas, prendem pessoas que estão protestando pacificamente e as levam para sabe-se lá onde”, diz ela, referindo-se a Liam, de cinco anos, e seu pai, que foram presos em Minneapolis, detidos e depois liberados no Texas. 

Ela compara o ICE à Gestapo, a polícia secreta da Alemanha nazista. “Já há um ano, eu disse que estávamos entrando em uma era fascista.” Ela vê semelhanças entre os métodos usados nos Estados Unidos hoje e as cenas descritas por Anne Frank em seu Link externodiárioLink externo, por exemplo, quando “as crianças chegam da escola e descobrem que seus pais desapareceram”.

De acordo com dados de 2024 do Escritório Federal de Estatística, 84.739 cidadãos suíços estão registrados como residentes nos Estados Unidos, sendo a terceira maior comunidade suíça no exterior, depois da França e da Alemanha.

O país é o segundo maior parceiro comercial da Suíça no mundo, depois da UE. É o principal destino das exportações suíças e dos investimentos diretos no exterior, de acordo com o Link externoMinistério das Relações Exteriores da SuíçaLink externo.

Na primavera de 2025, as relações comerciais entre a Suíça e os Estados Unidos sofreram um duro golpe quando Trump anunciou planos para aplicar uma tarifa de 39% sobre as importações suíças, como parte da guerra comercial travada pelo presidente. Desde então, as taxas aduaneiras foram reduzidas para 15%Link externo, mas a situação permanece incerta.

* Nome conhecido pela Swissinfo 

Edição: Samuel Jaberg/fh
Adaptação: Clarissa Levy

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