Suíços na Venezuela relatam alívio após queda de Maduro
A intervenção militar dos Estados Unidos no Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro em janeiro de 2026, foi recebida com alívio por suíços que vivem no país. Apesar da retomada da rotina em cidades como Caracas, o clima ainda é de cautela.
“Era a única solução”, segundo C.*. O suíço de 72 anos, que vive na Venezuela há mais de três décadas, diz estar feliz com a intervenção dos EUA: “Quem não vive aqui não consegue entender o impacto das estruturas criminosas no dia a dia”, enfatiza.
O mesmo sentimento foi compartilhado por P.*, de 79 anos, que vive na Venezuela há mais de 20 anos: “Já suspeitávamos há muito tempo que isso ia acontecer. Portanto, não foi uma surpresa.”
Alegria contida
O fato de ambos os homens estarem falando sob condição de anonimato é um sinal de que a queda do governo de Nicolás Maduro ainda não permitiu que as pessoas se expressassem livremente. Durante nossa entrevista, C. não mencionou nenhum nome e preferiu que a conversa ocorresse em alemão suíço, “o que seria mais difícil de entender, caso alguém estivesse ouvindo”.
Quanto a P., ele mantém um tom moderado para não se meter em problemas. “Todos estão felizes aqui, mas é uma ‘alegria contida’. Não haverá buzinas nas ruas, porque mesmo que a cabeça da serpente tenha sido cortada, a fera ainda vive”, diz C.
As pessoas não se sentem à vontade para expressar críticas ao governo Maduro porque temem represálias. “Tropas pró-governo estão realizando verificações em certas ruas. Elas pedem para ver os telefones, e é melhor que não contenham mensagens hostis, caso contrário, você corre o risco de ser sequestrado ou acabar na prisão”, de acordo com P.
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Além disso, o “estado de emergência” declarado em 3 de janeiro pelas autoridades venezuelanas é motivo de preocupação, pois permite “a busca e a prisão de qualquer pessoa envolvida na promoção ou no apoio ao ataque armado realizado pelos Estados Unidos da América contra o território da República”, afirma o decretoLink externo.
Voltar ao normal
Segundo os dois suíços, a vida cotidiana voltou ao normal em Caracas: as pessoas estão indo trabalhar, os voos domésticos foram retomados, as prateleiras dos supermercados estão abastecidas e há gasolina disponível nos postos. “Nos primeiros dias, a população entrou em pânico e correu para as lojas para estocar produtos. Mas a calma voltou e agora você encontra de tudo”, diz P.
Essa descrição contrasta com a análiseLink externo da situação feita pelo Ministério suíço das Relações Exteriores suíço (EDA, na sigla em alemão). Este último fala em possíveis fechamentos de fronteiras, escassez de produtos de primeira necessidade e interrupções nas conexões de internet e telefone.
O órgão recomenda que os cidadãos suíços na região “evitem manifestações de qualquer tipo, limitem suas viagens dentro do país ao mínimo indispensável e verifiquem as condições de segurança com antecedência”.
Baixa procura de apoio
Ao ser contatado pela Swissinfo, o EDA indicou estar ciente de alguns casos de cidadãos suíços que encontraram dificuldades ao viajar para a Venezuela. “O número de solicitações de cidadãos suíços residentes na Venezuela é baixo. A Central de Atendimento do governo suíço e a embaixada em Caracas processaram menos de dez solicitações desse tipo”, afirmou o porta-voz Pierre-Alain Eltschinger.
Ao longo dos últimos vinte anos, o número de cidadãos suíços na Venezuela diminuiu consideravelmente, passando de 2072 em 1994 para 813 oficialmente registrados na embaixada em 2024, de acordo com dadosLink externo do Depto. Federal de Estatísticas (BfS). “Aproximadamente 970 pessoas estão atualmente registradas no cadastro de cidadãos suíços no exterior. Esses números incluem também membros da família que não possuem nacionalidade suíça”, especifica ainda o EDA.
Pouco desejo de deixar o país
Segundo C., muito poucos suíços na Venezuela são imigrantes de primeira geração. Além disso, de acordo com P., a maioria não enfrenta dificuldades financeiras que os obriguem a deixar o país. “Atualmente, a situação é muito mais perigosa para os expatriados americanos do que para os suíços, que gozam de boa reputação”, afirma C.
Embora C. não tenha intenção de deixar o país, P. gostaria de retornar à Suíça “para desfrutar de uma aposentadoria tranquila”. Mas ele permanecerá na Venezuela por mais alguns anos, pois ainda está envolvido com muitos jovens em formação.
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Esperança cautelosa
P. e C. estão satisfeitos com a queda do governo de Nicolás Maduro, mas permanecem cautelosos quanto à evolução da situação. “Se a intervenção americana trouxer mudanças reais, isso será positivo; caso contrário, tudo terá sido em vão”, afirmou P. Ele acrescentou que gostaria que os “aliados leais” do presidente também tivessem sido presos, porque “são eles que dificultarão a transição”. Agora, ele espera que eleições democráticas aconteçam.
C. geralmente diz que se opõe à intervenção de uma potência estrangeira, mas acredita que “neste caso, foi necessária”. Ele está, no entanto, desapontado com o fato de os Estados Unidos terem excluído a líder da oposiçãoLink externo e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, Corina Maria Machado, da possibilidade de assumir o poder. P. também gostaria que ela tivesse participado do novo governo. “O exército, que permanece sob o controle de Nicolás Maduro, certamente teria derrubado um governo de oposição. Optar por trabalhar com Delcy Rodríguez representa uma solução pragmática”, segundo C.
P. compartilha dessa opinião. No entanto, ele adverte: “Se o novo governo não cooperar com os Estados Unidos, eles intervirão novamente, e certamente de forma mais brutal desta vez.”
* Nomes conhecidos pela redação
Edição: Samuel Jaberg
Adaptação: DvSperling
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