Vítimas da guerra antidrogas de Duterte confiam que justiça seja feita em Haia
Mary Ann Pajo observou em silêncio enquanto os funcionários do cemitério abriam o túmulo de seu filho em Manila e removiam seus restos mortais para que fossem examinados por um legista.
Acusado de tráfico de drogas, Joewarski Pajo, de 30 anos, morreu a tiros enquanto mexia no celular. Foi uma das milhares de execuções extrajudiciais que teriam ocorrido sob mandato do ex-presidente filipino Rodrigo Duterte.
Na próxima segunda-feira (23), começará quatro dias de audiências no Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia, que determinarão se Duterte será julgado por pelo menos 76 destas mortes.
O sacerdote católico Flavie Villanueva diz que eles “estão esperando esta audiência judicial” há muito tempo.
“É importante que (Duterte) compareça perante o tribunal, fisicamente, para que possamos ver se há remorso de sua parte”, afirma Villanueva após rezar por Joewarski, o corpo número 126 que sua ONG exumou como possível prova.
No entanto, é muito pouco provável que o faça. Nesta sexta-feira (20), os juízes do TPI aprovaram o pedido de Duterte de renunciar seu direito de comparecer.
“Sou velho, estou cansado e estou fraco”, alegou Duterte ao apresentar sua solicitação dias atrás.
Villanueva o considera um ato de covardia. Lembra que o ex-presidente foi declarado apto para ser julgado.
“Esta pessoa não tem a noção de prestação de contas”, afirma o sacerdote.
– ‘Não são Deus’ –
Em uma cafeteria de Manila administrada por familiares de mortos na guerra contra as drogas, três funcionários se queixam de que não foi feita justiça nas Filipinas.
“Ninguém nas Filipinas consegue pôr as mãos em Duterte, e muito menos apresentar acusações contra ele”, explica Lydjay Acopio, cuja filha Myca, de três anos, morreu durante uma batida policial na casa onde vivia com seu pai.
A barista Rosalie Saludo concorda com ela: “Enquanto sua filha (vice-presidente Sara Duterte) estiver no cargo, enquanto seus aliados estiverem no cargo, ela ainda poderá encontrar uma maneira de distorcer e deturpar a justiça”.
Sara Duterte anunciou, na quarta-feira (18), sua candidatura à Presidência para 2028.
Mary Grace Garganta, gerente da cafeteria, assegura que foi obrigada a se mudar após a polícia, sem mandato judicial, atirar e matar seu pai em 2016.
“Não vou negar que meu pai estava envolvido com drogas, mas isso não era motivo para matá-lo”, disse. “Não são Deus para tirar uma vida”.
– ‘Agora vemos a luz’ –
O número de filipinos que acreditam que Duterte deveria ser julgado no TPI caiu para 44%, de acordo com uma pesquisa realizada em novembro pelo WR Numero, com sede em Manila. Em abril, era de 62%.
Uma porcentagem significativa de seus compatriotas considera que Duterte não fez nada de errado.
“Se Duterte cometeu um erro (…), só o fez pelo bem do país”, estima Jovel Manzano, de 34 anos, em uma rua movimentada de Manila.
“De que servem nossos tribunais aqui se estamos sempre dependendo de outros países?”, comenta sobre o TPI. “Se um filipino comete um crime, deveria ser julgado aqui”, opina.
Jessa Cangayaw, uma massagista de 30 anos, não se importa com a repressão de Duterte, desde que os que morreram fossem “gente má”.
“As coisas eram melhores naquela época do que agora”, assegura, e acrescenta que se sente menos segura quando volta caminhando para casa.
Sheerah Escudero discorda. Em 2017, o corpo de seu irmão adolescente apareceu perfurado de balas. Para ele, a audiência judicial de segunda-feira marca um passo em direção à “responsabilização”.
“Temos um sistema judicial quebrado”, declarou este jovem de 28 anos a jornalistas da AFP.
As autoridades filipinas não realizaram “nenhuma investigação credível” sobre as acusações contra Duterte, acusa. “Tem estado escuro por muito tempo, mas agora vemos a luz”.
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