Campanha polarizada chama atenção da imprensa suíça
Um escândalo envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e a falência fraudulenta de um banco chega ao centro da campanha eleitoral brasileira, acirrando ainda mais a polarização no país. Na Suíça, a imprensa também voltou os holofotes para duas histórias que chamaram a atenção nesta semana: a ideia de que o latino-americano não existe e o protesto de uma brasileira membro de um partido suíço da direita nacionalista contra o racismo.
Depois de condenar Jair Bolsonaro por tentativa de golpe e ser celebrado como guardião da democracia brasileira, o Supremo Tribunal Federal (STJ) enfrenta agora uma crise de legitimidade. Um escândalo ligado ao Banco Master expôs relações controversas entre ministros, políticos e o banqueiro Daniel Vorcaro, colocando o juiz Alexandre de Moraes no centro de acusações que podem corroer a confiança pública na Corte.
Os jornais suíços acompanham através dos seus correspondentes o desenrolar do caso, mas também apontam as contradições do cenário político brasileiro e a polarização crescente do eleitorado. Leia abaixo os extratos dos artigos mais interessantes publicados sobre a questão.
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Eleições no Brasil: uma lógica bem própria
Em artigo publicado no semanário suíço de esquerda Wochenzeitung (WOZ), o correspondente Philipp Lichterbeck, radicado há muitos anos no Brasil, retrata a campanha eleitoral brasileira como um ambiente de forte polarização política e social.
A partir de uma manifestação bolsonarista em São Paulo, ele mostra como Flávio Bolsonaro tenta se apresentar como herdeiro político do pai e disputar a Presidência contra Luiz Inácio Lula da Silva, num cenário em que as pesquisas indicariam uma corrida muito apertada.
Lichterbeck chama atenção para a diversidade e, em sua visão, para as contradições do eleitorado da direita. Ele descreve trabalhadores pobres e negros que rejeitam políticas sociais, cotas raciais ou direitos trabalhistas tradicionalmente associados à esquerda, mesmo quando poderiam se beneficiar dessas medidas. O texto procura mostrar que antigas associações entre classe social, origem racial e preferência política já não funcionam de maneira automática no Brasil.
Um dos aspectos mais marcantes do artigo é a descrição de personagens “bizarros” e excêntricos que aparecem em torno da campanha: monarquistas vestidos de cavaleiros, imitadores de Elvis, candidatos que atacam o Movimento dos Sem-Terra apesar de terem origem em famílias de sem-terra, influenciadores e teóricos da conspiração, além de uma enorme figura inflável de Donald Trump. Para o correspondente, esse ambiente dá às manifestações a aparência de um grande espetáculo político, fortemente alimentado pelas redes sociais e por discursos contra Lula e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.
O artigo também destaca o tom quase religioso adotado por importantes figuras do bolsonarismo, com referências frequentes à “salvação”, à “libertação” e à defesa da família, de Deus e da nação contra a esquerda. Lichterbeck apresenta, assim, um Brasil profundamente polarizado, em que discursos de “lei e ordem”, ressentimento contra as instituições e figuras políticas extravagantes se misturam numa campanha eleitoral imprevisível. Na avaliação do correspondente da WOZ, Flávio Bolsonaro conseguiu ganhar impulso e chega à disputa em condições de ameaçar seriamente a reeleição de Lula.
Escândalo judicial agita novamente a campanha eleitoral no Brasil
Em artigo publicado no semanário conservador suíço Weltwoche, o jornalista suíço Alex Baur, radicado há muitos anos no Peru, analisa a campanha eleitoral brasileira como uma disputa polarizada entre Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo Baur, a eleição reproduziria divisões políticas e regionais já conhecidas, com uma corrida apertada e possibilidade de segundo turno.
O autor apresenta como tema central da campanha o escândalo envolvendo o Banco Master e seu principal dirigente, Daniel Vorcaro. Baur afirma que o caso teria conexões com diferentes setores da política brasileira e destaca supostos vínculos com pessoas próximas a Lula, inclusive seu filho. O jornalista também atribui grande importância a alegadas relações entre Vorcaro e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, sustentando que a revelação dessas conexões poderia prejudicar politicamente o atual presidente.
Ao longo do texto, Baur adota uma visão fortemente crítica de Lula, do Supremo Tribunal Federal e de Alexandre de Moraes, retomando episódios como a anulação das condenações de Lula, a condenação de Jair Bolsonaro e os conflitos de Moraes com plataformas digitais e com Elon Musk. O jornalista também observa que veículos como Globo e Folha de S.Paulo, anteriormente críticos de Bolsonaro, estariam dando ampla cobertura ao escândalo em plena campanha eleitoral.
Por fim, Baur situa a eleição brasileira em um contexto geopolítico mais amplo. Na interpretação do jornalista, uma vitória de Lula significaria a continuidade da aproximação do Brasil com China, Rússia e outros parceiros dos BRICS, enquanto uma vitória de Flávio Bolsonaro aproximaria o país dos Estados Unidos e do governo de Donald Trump. Para o correspondente da Weltwoche, portanto, o resultado da eleição brasileira teria consequências que ultrapassam as fronteiras do país e poderiam influenciar o equilíbrio político de toda a América Latina.
Não existe um “nós” latino-americano
Em artigo publicado no NZZ (Neue Zürcher Zeitung), um dos jornais mais prestigiosos da Suíça, a jornalista freelancer Sara Meyer, radicada na Colômbia, questiona a ideia de uma identidade comum latino-americana.
Para ela, apesar de países da região compartilharem língua, história e referências culturais, essas semelhanças não são suficientes para criar um verdadeiro sentimento coletivo de pertencimento.
A autora sustenta que o que mais marca a América Latina são os contrastes sociais extremos. Pessoas das classes altas de diferentes países tendem a compartilhar entre si estilos de vida, valores e redes de relacionamento muito mais semelhantes do que com os setores pobres de suas próprias sociedades. A Colômbia aparece como exemplo emblemático dessa divisão, com baixa mobilidade social e forte separação entre ricos e pobres.
Meyer destaca ainda o sistema colombiano dos “estratos”, que classifica as residências do nível 1 ao 6 e acaba funcionando também como marcador de status social. A desigualdade, segundo ela, não depende apenas da renda, mas também da educação, das redes familiares, da linguagem, dos hábitos e do acesso a determinados espaços sociais.
A conclusão é que não existe uma identidade latino-americana homogênea no cotidiano. Paradoxalmente, esse sentimento de pertencimento comum surge com mais força quando latino-americanos vivem no exterior, onde a condição de estrangeiros os aproxima. Para Meyer, portanto, o principal elemento compartilhado na região não é uma identidade cultural uniforme, mas a convivência com profundas desigualdades sociais.
“Critiquem nossas ideias. Não nossas origens nem nossa dignidade”
Chamou-me particularmente a atenção uma carta publicado no jornal suíço Tribune de Genève, de autoria de Marcia Ceroni, brasileira naturalizada suíça, atuante na política de Genebra e membro do Partido do Povo Suíço (UDC/SVP), de direita conservadora.
Sua participação política já é, por si só, digna de nota, pois ainda é relativamente raro ver migrantes ocupando espaço ativo na vida política suíça.
No artigo, Ceroni relata os ataques que sofreu nas redes sociais após publicar um vídeo de conteúdo político. Em vez de contestarem suas ideias, muitos comentários ridicularizaram seu sotaque, questionaram suas origens brasileiras, fizeram referências à sua cor de pele e atacaram sua aparência. A experiência levou-a a denunciar como o debate político, especialmente quando envolve mulheres, pode facilmente abandonar o campo das ideias para se transformar em ataques pessoais, sexistas, xenófobos ou racistas.
Ceroni argumenta que esse problema ultrapassa divisões partidárias. Mulheres de direita, centro ou esquerda podem ser alvo de ataques relacionados ao corpo, à origem, ao sotaque ou à aparência, em vez de serem criticadas por suas posições políticas. Citando inclusive um estudo da Universidade de Basileia sobre o sexismo enfrentado por jovens mulheres engajadas em partidos suíços, ela defende que críticas duras fazem parte da política, mas devem se dirigir ao que uma pessoa diz e faz, e não ao que ela é.
Ao final, Ceroni faz um apelo à solidariedade entre mulheres de todas as tendências políticas e à responsabilidade no debate público. Afirma que continuará falando com seu sotaque e defendendo suas convicções, mas exige que sua origem, seu corpo, sua cor de pele e sua dignidade sejam deixados fora dos ataques políticos. Sua mensagem central é simples: discordar, criticar e combater ideias é legítimo; recorrer ao racismo, à xenofobia, ao sexismo ou a ataques pessoais para desqualificar quem as expressa não é.
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Publicaremos nossa próxima revista da imprensa suíça em 18 de setembro. Enquanto isso, tenha um bom fim de semana e boa leitura!
Até a próxima semana!
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