A arte de Jiajia Zhang transforma Xangai em espelho da vida urbana contemporânea
A instalação caleidoscópica e ambiciosa de Jiajia Zhang utiliza vídeos, espelhos, narrações em áudio e músicas para explorar espaços públicos e privados e a forma como tecnologia e arquitetura moldam as cidades. A artista, nascida na China e radicada em Zurique, apresentou sua obra Domestic News no Swiss Institute, em Nova York.
Ao descer para a galeria do piso inferior do Swiss Institute, em Nova York, os visitantes ouvem primeiro o clique intermitente de um painel mecânico, que ecoa pela escada de concreto. A tela alterna entre arranjos florais coloridos e um fundo preto, sem nada.
As imagens se baseiam em histórias que a artista, Jiajia Zhang, leu nas memórias de sua avó sobre a ocupação japonesa da China durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa [1937–1945]. Segundo os relatos, flores no parapeito da janela indicavam que a casa era segura para reuniões políticas clandestinas. A ausência de flores significava o contrário.
Esse painel funciona como porta de entrada para Domestic News, primeira mostra institucional individual de Zhang nos Estados Unidos. No andar de baixo, a galeria se abre em uma câmara arredondada e espelhada, onde cenas de Xangai são exibidas em cinco telas, acompanhadas por uma trilha sonora fragmentada de canções e vozes.
Em vez de oferecer um mero retrato de Xangai, Zhang investiga como espetáculo, infraestrutura e cotidiano se entrelaçam na cidade contemporânea.
O título da exposição, explicou Zhang em entrevista à Swissinfo, remete em parte à forma como as pessoas se comunicam no espaço público por meio de uma linguagem codificada e ao potencial dessa comunicação para provocar mudanças.
“Acho que ‘domestic news’ [notícias domésticas], dentro do gênero jornalístico, é uma seção bem específica”, diz ela. “Meu interesse estava mais em como essas palavras se compõem do ‘doméstico’ e do ‘noticioso’, como um domínio mais privado, de um lado, e um mais público, do outro. Acredito que, às vezes, esses domínios se confundem”.
Monumental e íntima
A instalação combina vídeo, som e elementos arquitetônicos para oferecer uma visão caleidoscópica da Xangai contemporânea.
Os visitantes se acomodam em bancos no formato de assentos de motocicleta, parcialmente inspirados nos entregadores da cidade, enquanto um filme de 22 minutos, em loop, revela Xangai por meio de closes e panoramas: restaurantes giratórios, topos de arranha-céus reluzindo à noite, casais posando para fotos de casamento, garis trabalhando, pessoas atravessando o trânsito e um desfile interminável de telas de LED e painéis digitais. Refletidas nas superfícies espelhadas, as cenas fragmentadas formam uma imagem flutuante de Xangai, ao mesmo tempo monumental e íntima.
Os espelhos refletem tanto as telas digitais quanto a própria galeria, criando o que Alison Coplan, curadora-chefe do Swiss Institute, descreve como um ambiente em camadas. Assim como as pessoas retratadas no filme, os visitantes ficam “de certa forma envolvidos pela arquitetura, pelas máquinas e pelo fluxo de informação da cidade”. Ao mesmo tempo, ela acrescenta, janelas, portas e reflexos sugerem “caminhos de entrada e saída”.
As imagens, captadas pelo fotógrafo suíço Jiří Makovec, vêm acompanhadas de um roteiro sonoro assinado pela escritora Aurelia Guo, radicada em Londres. A partir de textos de diversas fontes, como relatos de viagem, reportagens e documentos jurídicos, a narração evoca enchentes, experiências da diáspora, mercados matrimoniais e sonhos revolucionários.
Em vez de descrever as imagens diretamente, a trilha sonora avança em paralelo, alternando entre mandarim e inglês. Zhang afirma que, embora tenha produzido diversos vídeos nos últimos anos, esse projeto lhe parece mais ambicioso por sua forma espacial e por sua integração com o ambiente.
Cidades espelhadas
A obra integra um filme mais amplo, dividido em três capítulos, que Zhang vem desenvolvendo, intitulado provisoriamente Tables, Doors, Songs [Mesas, Portas, Canções]. Os próximos capítulos incluirão trabalhos sobre Nova York e Zurique, outras duas cidades formativas para a artista. Nascida na China, Zhang mudou-se com a família para a Suíça aos seis anos. Depois de estudar arquitetura, foi para Nova York estudar fotografia. Hoje, vive e trabalha em Zurique.
A formação em arquitetura de Zhang permeia toda a mostra, sobretudo no olhar voltado para o ambiente construído, o movimento vertical das cidades e as fronteiras entre espaço público e privado. A exposição também suscita reflexões sobre a relação entre Xangai e Nova York, do ponto de vista arquitetônico, cultural e de outras áreas. Isso inclui o contraste entre o brilho e o polimento do novo ambiente urbano de Xangai, exibido na galeria do subsolo, e a paisagem urbana logo além das portas do Swiss Institute.
Assim como as superfícies presentes ao longo da instalação, Zhang afirma que Nova York e Xangai se refletem, a ponto de às vezes ser difícil dizer qual cidade influencia a outra. “A cidade é, de fato, um lugar onde tudo acontece”, diz ela. “Sobretudo tendo Nova York como esse outro polo, isso abriu de imediato um espelhamento entre os dois lugares, não só do ponto de vista arquitetônico, mas também em relação ao que aspiram ser, quem pode participar desse tipo de estrutura e quem é excluído dela”.
Zhang toma a cidade como referencial e investiga o que acontece em seu nível estrutural. A mostra também chama atenção para a forma como a tecnologia molda essas paisagens urbanas e as pessoas que circulam por elas, incluindo o modo como textos, sinalizações, anúncios e interfaces digitais dominam o ambiente.
“Uma coisa que considero realmente especial no trabalho da Jiajia, e que eu adoraria que outras pessoas percebessem, é a forma como as tecnologias digitais, as máquinas e os anúncios operam no vídeo e moldam boa parte da experiência humana… de maneiras que, para elas e acho que para todos nós, podem ser conscientes ou não”, diz Coplan. “Vista de Nova York, a cena pode parecer algo estranho, próprio da China, mas talvez isso leve alguém a refletir sobre sua própria relação com essas mesmas questões”.
Canção de Ano Novo
A instalação termina onde começa: com uma fonte iluminada e o retorno da canção Gong Xi Gong Xi (algo como “parabéns, parabéns”). Composta em 1945, durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, para celebrar o fim da ocupação, a sobrevivência ao inverno e a chegada da primavera, a canção acabou se consolidando na China continental como um hino de Ano Novo.
A melodia, diz Zhang, é um lembrete da natureza cíclica das estações, dos anos, das cidades, das nações e das vidas, ecoando muitos dos temas da mostra. Como a obra é muito fragmentária e segue em direções diferentes, acrescenta a artista, talvez seja essa canção o elemento que a mantém coesa.
“É uma canção de Ano Novo muito conhecida, que todo mundo sabe”, diz ela. “Sua familiaridade cria um espaço comunitário no qual as distinções entre o erudito e o popular ficam, por um instante, suspensas. Trata-se também dos movimentos circulares dentro do ano, de quais histórias são soterradas, quais são realçadas, o que é visível e o que se perde nesse ciclo. O elemento musical é muito importante. É algo que vamos repetir nos outros capítulos”.
Edição: Catherine Hickley e Eduardo Simantob/fh
Adaptação: Clarice Dominguez
Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!
Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.